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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2013

Portugal e a Europa

“Porém, vendo na Europa o eldorado bem-aventurado da Terra sem Mal, tornámo-nos europeus com a mesma inocência angélica, isto é, ingénua e dogmática, com que no passado fôramos imperiais e colonialistas, como a ortodoxia católica imaginara ser Portugal o Paraíso terrestre sob o Estado Novo e como a ortodoxia comunista imaginara ser a União Soviética o “Sol da Terra”. Neste sentido, tornámo-nos heterodoxos porque a democracia e a liberdade a isso nos impunham, mas, dentro da heterodoxia, logo buscámos uma Terra Prometida, mãe consoladora e remédio de todos os males.” Miguel Real, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, Lisboa, Quidnovi, 2008, p. 19

O narcisismo contemporâneo - por Paul-François Paoli

«Todos diferentes, todos iguais: este slogan publicitário em voga é perfeitamente ilustrativo da nova ordem. O propósito da aspiração igualitária contemporânea é postular para qualquer um o direito a aceder ao reconhecimento daquilo que é, em tanto que tal, fora de toda a legitimidade extrínseca ao indivíduo. A subjectividade é, em si, um critério de verdade. A obra propriamente dita não é mais o princípio fundamental do acesso ao reconhecimento. O narcisismo contemporâneo tende a desvirtuar mesmo o princípio do acesso ao reconhecimento, tradicionalmente fundado sobre a expressão de um talento, em benefício do direito ao aparecimento. De certa maneira o extraordinário desenvolvimento da indústria do divertimento responde ao desejo de se aceder o mais rapidamente possível ao estatuto social de «gente», a partir de um modo de selecção tão impiedoso quanto arbitrário: aquilo que faz com que você agrade ou não, seja manhoso e malicioso ou não, sensual ou não, etc., em suma, que você irrom…

Lumen Fidei - encíclica sobre a fé escrita por dois Papas

Comecemos por sacudir equívocos. O primeiro é o de pensar que uma encíclica sobre a fé destina-se a ser acolhida dentro da cerca eclesial, e aí só, como se ela não constituísse um texto de enorme importância para a cultura ou para a sociedade no seu conjunto. O segundo é a consideração de que a relevância do discurso cristão se esgota nos pronunciamentos ditos sociais: o Papa Francisco ir ao desembarcadouro de Lampedusa, reclamar corajosamente por políticas mais humanas, colhe o interesse geral, mas propor, com igual desassombro, uma reflexão sobre o sentido da fé, isso já é olhado como minudência descartável.  Ora, a discussão sobre a fé, e sobre a irreverente singularidade da fé cristã, é um assunto de cidade, como já amplamente o provou o apóstolo Paulo, que deslocou esse debate do interior das sinagogas para areópagos, escolas de filosofia, teatros e cantos de estrada o debate sobre a essência do cristianismo precisa urgentemente de reencontrar a sua natureza pública. Em seguida, …

O olhar da cobiça - por Manuel Maria Carrilho

Tudo gira, hoje, em torno da riqueza: da que existe, da que desapareceu, da que se procura. Foi a pensar nela que Adam Smith lançou as bases da economia política moderna. Mas, ao contrário do que geralmente se diz, as questões que mais o inquietavam não surgiram na sua obra mais conhecida, A Riqueza das Nações, de 1776, mas quase vinte anos antes, em 1759, no seu livro Teoria dos Sentimentos Morais.
E a sua ideia central surpreenderá muitos, porque o que Adam Smith afirmou nessa obra notável foi que a riqueza não é o que assegura o nosso bem-estar - para isso, bastaria uma vida sem carências, mas frugal. Não, o que ele intuiu foi que a riqueza, mais do que ser aquilo que se acumula, é afinal o que nós identificamos como o que é mais desejado pelos outros.
O que Adam Smith descobriu foi que não é a necessidade material que está na base da procura da riqueza, mas antes o desejo. Ora, enquanto a necessidade cessa com a satisfação, o desejo, pelo contrário, renova-se e renasce de cada v…

Dimensões da crise - por Adriano Moreira

A infeliz moldura da crise política que atingiu não apenas a imagem internacional do País mas também a autoestima dos portugueses exige que seja separada do conjunto de desafios sérios que o projecto europeu entretanto vai sofrendo, desafios esses têm que ver com o futuro da comunidade e com a falta de estadismo e liderança com que a Europa se confronta, e à qual temos dado visível contribuição. Não pode omitir-se o conjunto de sacrifícios que um neoliberalismo sem regras e repressivo, com um historial elucidativo já do século passado, produziu até que os fracassos das previsões tenham finalmente sido assumidos: mas tal memória, que não serve para os remediar, embora possa ajudar a não os repetir, implica sobretudo a urgência de meditar sobre o consequencialismo no que toca ao projecto da União, e ao seu conceito estratégico, se ainda for possível identifica-lo com clareza. Embora sem nunca ter sido assumido um modelo final da União, não por falta de projectos históricos mas por escas…

Jürgen Habermas - o último europeu

Jürgen Habermas está farto. O filósofo tem feito tudo o que pode para chamar a atenção para o que entende ser o fim do ideal europeu. Espera poder ajudar a salvá-lo – de políticos ineptos e das forças obscuras do mercado financeiro. Excertos. Georg Diez Jürgen Habermas está zangado. Está muito zangado. Está mesmo furioso – porque encara a questão pessoalmente. Dá murros na mesa e grita: "Basta!" Não quer de todo ver a Europa remetida para o caixote do lixo da história mundial. "Falo como cidadão", diz. "Preferiria estar em casa, sentado à minha secretária, acreditem. Mas isto é demasiado importante. As pessoas têm que entender que enfrentamos opções decisivas. É por isso que estou tão empenhado neste debate. O projeto europeu não pode continuar em modo de elite." Basta! A Europa é o seu projeto. É o projeto da sua geração. Jürgen Habermas, de 82 anos, quer fazer passar a palavra. Está sentado no palco do Goethe Institute de Paris. De uma maneira geral, d…

Ninguém sabe dizer nada... - por Vasco Graça Moura

Os tempos passam e voltam a passar, os protestos ouvem-se e voltam a fazer-se ouvir, as expectativas geram-se e prolongam-se, goram-se e voltam a gerar-se, mas a verdade é que ninguém sabe dizer nada do triste Acordo Ortográfico, a não ser que uma comissão parlamentar de acompanhamento, adrede constituída, vai recolhendo informações e ainda não se terá considerado em condições de concluir seja o que for em matéria que, afinal, é tão simples...A novidade mais importante parece ser a de que, no âmbito do trabalho dessa comissão e fora dele, se verifica uma certa mobilização de professores impacientes e desesperados, que vêm dizer de sua justiça e da sua amarga experiência. E também nos jornais, em vários registos e com vários argumentos, a luta continua. Mas continua a não acontecer nada de especial e ninguém sabe dizer nada.A grande questão é a de saber se não seria já tempo de fazer avançar as coisas.
Vejamos. A diplomacia portuguesa tem falhado sistematicamente as suas tentativas de …

A actualidade da Filosofia - por Theodor W. Adorno

Quem hoje em dia escolhe o trabalho filosófico como profissão, deve, de início, abandonar a ilusão de que partiam antigamente os Projectos filosóficos: que é possível, pela capacidade do pensamento, apoderar-se da totalidade do real. Nenhuma razão legitimadora poderia encontrar-se novamente numa realidade, cuja ordem e conformação sufoca qualquer pretensão da razão; apenas polemicamente uma realidade apresenta-se como total a quem procura conhecê-la, e apenas em vestígios e ruínas mantém a esperança de que um dia venha a tornar-se uma realidade correcta e justa. A filosofia, que hoje se apresenta como tal, não serve para nada, a não ser para ocultar a realidade e perpetuar a sua situação actual. Antes de qualquer resposta, tal função já se encontra na pergunta, pergunta essa que hoje em dia é tida como radical, e, no entanto, é a menos radical de todas: a pergunta, pura e simples, pelo ser, tal como a formularam expressamente os novos projectos ontológicos e tal como, a despeito de t…

Neoliberalismo ou "da consciência infeliz à perda de memória colectiva da teoria económica" (Português do Brasil)

John Maynard Keynes (1883-1946) foi talvez um dos homens mais interessantes do século 20. Como especialista na teoria do dinheiro e da moeda, ele desfrutou de eminente reputação já desde a Primeira Guerra Mundial. Mas seus interesses eram muito mais vastos. Matemático nato, primeiro granjeou fama internacional com seu ''Tratado Sobre a Probabilidade'' (1921). Seu verdadeiro amor, porém, era a filosofia. Mas não lhe foi dado exercer funções acadêmicas nessa área em Cambridge, como esperava. Embrenhou-se na política, foi funcionário do Departamento da Índia e obteve sucesso também como economista nos seguros e na Bolsa. Seu patrimônio lhe emprestava a independência financeira; promotor das artes, foi também um grande colecionador. Arrematou o espólio de Isaac Newton, tornou-o acessível à pesquisa e chegou mesmo a publicar sobre o assunto. Essa amplitude do horizonte intelectual não se deixava capturar nos estreitos limites de uma disciplina acadêmica. À semelhança de Ma…

Racionalidade Irracional - por José Saramago

Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.  Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relat…

Incesto permanente - por J.M. Nobre-Correia

Comentadores. A imprensa, a rádio e a televisão em Portugal dão uma estranha e preocupante impressão de que a diversidade e o pluralismo são extremamente limitados.
O mundo mediático e jornalístico português funciona de curiosa maneira. Pelo menos é essa a impressão para quem viveu a maior parte da vida no estrangeiro. E que, por conseguinte, praticou durante longuíssimos anos, diariamente, a imprensa, a rádio, a televisão e a Internet de diferentes países europeus. Prática de simples leitor, ouvinte, espectador e internauta, mas também de analista e de colaborador permanente.
Um dos mais curiosos aspectos é o que leva a constatar que os "comentadores", a opinião e a análise (e quantas vezes ? a pseudoanálise) é obra de um pequeno microcosmos alfacinha. Um número, em suma, bastante restrito de "comentadores" (estranha noção que não existe noutros países), políticos e jornalistas, e mais raramente alguns universitários, que aparecem em todos os media ditos "nac…

Nuno Crato, parágrafo menor - Baptista Bastos

Nunca deixei de me espantar com a desfilada insana de certos homens para o abismo da sua perdição moral e intelectual. Nuno Crato é um deles. Li o admirável "O Eduquês", que definia uma maneira de pensar e reduzia a subnitrato os mitos propostos à nossa preguiça mental. Se o estilo é o homem, ali estava um estilo e um homem que nos diziam ser toda a espécie de carneirismo a negação da inteligência crítica. Assisti, depois, com o alvoroço de todas as curiosidades, ao programa de Mário Crespo, na SIC Notícias, Plano Inclinado, e no qual o nomeado e o prof. Medina Carreira discreteavam sobre os embustes incutidos por esse nada abissal da hipocrisia política. Um aparte: ainda não percebi o que provocou o desaparecimento abrupto do programa e, também, o eclipse de Alfredo Barroso da antena, cuja lucidez era idêntica à informação que nos fornecia, mantendo-se na conversa a senhora que emparceirava com ele. Teias que o império tece. Voltando ao Crato, a vontade de ser ministro de …

Roubos... - por Anselmo Borges

A quem rouba pouco chamam-lhe gatuno e metem-no na cadeia; pelo contrário, a quem o faz em grande escala chamam-lhe grande financeiro e recebe todo o tipo de elogios e felicitações pelo seu espírito empresarial." Quem isto escreve é um filósofo espanhol que, embora ateu e anticlerical, muito estimo: Fernando Savater, que acaba de publicar um pequeno livro de reflexão sobre - é este o título - Os Dez Mandamentos no Século XXI. Não roubar referia-se, antes de mais, ao sequestro de pessoas, ao roubo de outros seres humanos, frequente para arranjar escravos. Esse rapto continua hoje, sobretudo para conseguir órgãos. Mas também continuam os raptos dos opositores políticos e de bebés, como aconteceu na ditadura argentina, tanto mais horrorosos quanto foram praticados também por pessoas ligadas à religião, até de missa diária. Ora, "o corpo é a propriedade elementar que cada um de nós tem e ninguém quer ser utilizado, raptado ou manipulado por outros". Há múltiplas formas de r…

Disponibilidade vazia - por Ortega y Gasset

O cigano foi-se confessar; mas o padre, precavido, começou por interrogá-lo sobre os mandamentos de Deus. Ao que o cigano respondeu: «Olhe, senhor padre, eu ia aprender isso, mas depois ouvi um zum-zum de que tinha perdido o valor». (...) Todo o mundo – nações, indivíduos – está desmoralizado. Durante uma temporada, esta desmoralização diverte e até vagamente ilude. Os inferiores pensam que lhes tiraram um peso de cima. Os decálogos conservam do tempo em que eram inscritos sobre pedra ou bronze o seu carácter de pesadume. A etimologia de mandar significa carregar, pôr em alguém algo nas mãos. Quem manda é, sem remissão, quem tem o encargo. Os inferiores do mundo inteiro já estão fartos de que os encarreguem e sobrecarreguem, e aproveitam com ar festivo este tempo de pesados imperativos. Mas a festa dura pouco. Sem mandamentos que nos obriguem a viver de um certo modo, fica a nossa vida em pura disponibilidade. Esta é a horrível situação íntima em que se encontram já as melhores juven…

Opinião sobre os professores e a escola - por Ana Bacalhau

Quando era pequenina, queria ser professora. Apercebi-me disso no dia em que fui dar uma aula de Gramática aos meus colegas do terceiro ano. A professora tinha incumbido os seus alunos da tarefa de serem professores por um dia e apresentarem uma matéria perante a turma. Gostei tanto da experiência, que decidi que seria isso que iria fazer quando crescesse. Quando entrei no curso de Línguas e Literaturas já levava comigo este desejo de fazer da música a minha vida, mas o meu respeito pela docência nunca amainou. O que aprendi na escola vai muito para além das matérias em questão e ajudou-me nas minhas escolhas e postura perante a vida. Isso tenho a agradecer aos meus professores. Foram eles que me foram mostrando o mundo e que me ensinaram que só a pensar por mim é que poderia conquistá-lo. Ser professor não é apenas uma profissão. É um chamamento. Um pouco como a música ou como qualquer arte. Ensinar é uma arte. É preciso que se nasça com talento para transmitir aos outros algo que e…

Helenismo e mundo actual

É muito frequente as pessoas ficarem admiradas com os seguidores do Helenismo. A cultura grega é uma "cultura morta" e, segundo a mentalidade vigente, a religião deve morrer com ela. Para além disso, a presença dos Gregos em Portugal (e que dizer dos pobres seguidores na Inglaterra, EUA ou Austrália) foi quase nula. Não é bem assim, como veremos já de seguida. A Grécia foi na verdade a mãe da cultura Ocidental e não inventámos praticamente nada verdadeiramente surpreendente desde então: o pensamento ocidental identifica-se quase perfeitamente na mentalidade Grega e aquilo que julgamos coisas modernas, como o crédito, a ciência, a mentalidade, até mesmo o feminismo (que embora não existisse em Atenas, a nossa principal fonte de conhecimento, existia noutras regiões) são invenções gregas. Comecemos pela ciência. Os gregos foram os primeiros a questionar o mundo, através da filosofia, e acabaram por inventar a ciência ao procurar explicações racionais para os fenómenos que os …

Discursos de Zaratustra: das Três Transformações

“Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.  Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e sólido, respeitável. A força deste espírito está bradando por coisas pesadas, e das mais pesadas.  Há o quer que seja pesado? – pergunta o espírito sólido. E ajoelha-se como camelo e quer que o carreguem bem. Que há mais pesado, heróis – pergunta o espírito sólido – a fim de eu o deitar sobre mim, para que a minha forca se recreie?  Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer? Deixar brilhar a nossa loucura para zombarmos da nossa sensatez?  Ou será separarmo-nos da nossa causa quando ela celebra a sua vitória? Escalar altos montes para tentar o que nos tenta?  Ou será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento e padecer fome na alma por causa da verdade?  Ou será estar enfermo e despedir a consoladores e travar amizade com surdos que nunca ouvem o que queremos?  Ou se…

Pedra Filosofal - uma nota breve

A pedra filosofal (ou mercúrio dos filósofos) era o principal objectivo dos alquimistas. Com ela o alquimista poderia transmutar (conversão de um elemento químico em outro) qualquer metal inferior em ouro, como também obter o "Elixir da Longa Vida", uma panaceia universal, um remédio que curaria todas as doenças e daria vida eterna àqueles que o ingerissem. O Elixir poderia ser sintetizado por meio da pedra filosofal, que era uma substância mítica que os alquimistas pretendiam produzir. Alquimia é uma tradição antiga que combina elementos de química, física, astrologia, arte, metalurgia, medicina, misticismo, e religião. O trabalho relacionado com a pedra filosofal era chamado pelos alquimistas de "A Grande Obra". Aparentemente, o trabalho de laboratório dos alquimistas na busca pela pedra filosofal era, na verdade, uma metáfora para um trabalho espiritual. Neste sentido, a transmutação dos metais inferiores em ouro seria a transformação de si próprio de um estado…

Aprender a ver - Nietzsche

Se me explico, então me implico:
A mim mesmo não me posso interpretar.
Mas quem suba sempre o seu próprio caminho,
A minha imagem leva a uma luz mais clara.
Friedrich Nietzsche, Poemas
Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam. Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo — tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza afilosófica …

Capitalismo e Democracia

Afinal, a democracia e capitalismo não são os tais “irmãos siameses”, que se alimentam da mesma seiva e cujo desenvolvimento inseparável é base da prosperidade e bem-estar da Humanidade... Se, como alguns pretendem, a grande realização política ocidental do pós-guerra foi a tentativa de encontrar entre esses dois pólos o equilíbrio adequado, no contexto da realização do chamado Estado Providência e da “economia social de mercado”, hoje, não há dúvida, que o equilíbrio se rompeu a favor do mercado e dos poderosos que beneficiam da globalização e da liberalização da economia mundial. A globalização, o neoliberalismo e as novas tecnologias da informação colocaram a questão do trabalho e do lucro em novo paradigma. Certamente que o trabalho humano continua a ser indispensável, mas cada vez mais reduzido ao núcleo central de especialistas em diversas áreas (bem pagos), que fazem girar a economia e engrossam os lucros e, a partir deles, descendo em cascata, níveis cada vez mais desqualific…

Atenienses e mélios, Portugal e a Europa, poder e política - por Anselmo Borges

1. Foi pela mão da filósofa e mística Simone Weil e do filósofo André Comte-Sponville que voltei à leitura da História da Guerra do Peloponeso, de Tucídedes. E lá está aquele passo célebre, V, 104-105, que narra o encontro entre os atenienses e os mélios, quando os atenienses estavam em guerra contra Esparta e queriam forçar os habitantes da pequena ilha de Melos a juntar-se a eles. Uma vez que não cederam, os atenienses arrasaram a cidade, mataram os homens, venderam como escravos as mulheres e as crianças. O mais terrível é a razão apresentada. De facto, perante o ultimato ateniense, os mélios imploraram piedade e até disseram que, em caso de guerra, teriam a protecção dos deuses, pois a justiça estava do seu lado. Os atenienses responderam: "Quanto à divina benevolência, nós também não cremos ser inferiores, pois nem exigimos nem fazemos nada que esteja fora do juízo que os homens têm das coisas divinas nem dos desejos em que baseiam as suas relações recíprocas. Efectivamente,…