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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2015

Valorar

"Hoje nenhum filósofo minimamente lúcido diria que a lei moral está inscrita na razão ou no coração de cada um, mas antes que está escrita na tradição, na história ou na linguagem. O que não equivale a dizer que em ética vale tudo ou que tudo é relativo. Nem tudo são desacordos em ética: há valores básicos, escolhidos pela declarações de direitos humanos, valores que são universais só porque são abstractos. Ou porque são formais e carecem de conteúdos mais precisos. A autonomia passa pela aceitação do formalismo moral e consiste, exactamente, na vontade de o manter. Procurar ser autónomo, numa tal perspectiva, não é recusar o marco de valores absolutos: a igualdade, a liberdade, a solidariedade, a paz. É aceitar esses valores - fora dos quais não seria capaz de dizer o que é a ética - e propor-se seriamente realizá-los. Como? Procurando ver, na medida das possibilidades e responsabilidades de cada um, como se deve actuar, aqui e agora, de modo a contribuir para que o mundo em qu…

Existencialismo...

"(...) você recebe com uma das mãos o que dá com a outra; quer dizer, no fundo os valores não são sérios, visto que você os escolhe. A isto eu respondo, que muito me aborrece que seja assim; mas se suprimi o Deus Pai, é bem necessário que alguém invente os valores. É necessário encarar as coisas como são. Além de que dizer que inventamos os valores não significa senão isto: a vida não tem sentido a priori. Antes de viverdes, a vida não é nada; mas de vós depende dar-lhe um sentido, e o valor não é outra coisa senão esse sentido que escolherdes. Por isso vedes que há possibilidade de criar uma comunidade humana. J.-P. Sarte/Vergílio Ferreira, O existencialismo é um humanismo, Ed. Presença, .pp265-266

Um Filósofo em construção

Conversas no museu sobre arte

A origem da contemporânea filosofia da linguagem

Williamson: a natureza da filosofia

"Imagine-se uma conferência de filosofia na Grécia dos pré-socráticos. A questão do dia é: as coisas são feitas de quê? Os seguidores de Tales dizem que tudo é feito de água, os de Anaximandro que tudo é feito de ar e os seguidores de Heraclito que tudo é feito de fogo. Ninguém vê muito claramente o que estas afirmações querem dizer; alguns põem até em causa se os fundadores das respetivas escolas alguma vez as fizeram. Mas entre os apoiantes fala-se muito sobre o emocionante progresso recente. Aqueles que troçam e duvidam também falam muito. Sublinham que não se vislumbra qualquer resolução para a disputa entre as escolas. Consideram que Tales, Anaximandro e Heraclito sofrem de uma tendência para generalizar excessivamente. É sensato perguntar de que é feito pão, ou as casas, mas perguntar de que são feitas as coisas em geral é destituído de sentido, sugerem, porque a pergunta é feita sem qualquer conceção de como fazer para verificar se uma dada resposta é correta; a linguagem …

Tolstoi: a confusão entre a beleza, o bem e a verdade

«A ciência da estética, ciência do belo, nunca desapareceu nem poderia desaparecer, porque nunca existiu; apenas o facto de os gregos, como todas as pessoas, sempre e em toda a parte, considerarem a arte boa quando estivesse ao serviço do bem (de acordo com a sua compreensão do que era o bem), e má quando fosse contrária a este bem, como sucede em qualquer outro assunto. Os próprios gregos eram moralmente tão pouco desenvolvidos, que o bem e a beleza se lhes afiguravam coincidentes, e com base nesta conceção primitiva do mundo dos gregos foi construída a ciência da estética, inventada pelas pessoas do século XVIII e especialmente transformada em teoria por Baumgarten. Os gregos [...] nunca tiveram ciência estética alguma. As teorias estéticas, e o próprio nome dessa ciência, surgiram há cerca de cento e cinquenta anos entre as classes ricas do mundo cristão europeu, em povos diferentes simultaneamente: Itália, Holanda, França e Inglaterra. O seu fundador, que lhe deu forma científica…

Conservação e restauro - Museu de Aveiro

Eu, o outro, o tempo e o sofrimento

O tempo do sofrer A questão do sofrimento reveste-se de uma dimensão ética e filosófica a partir do momento em que se encontram, no mesmo afecto, a passividade do sofrer, sofrido, até mesmo infligido pelo outro e uma exigência de sentido. Aqui estamos um pouco além da caracterização inicial do sofrer como cogito absoluto, cogito sem cogitatum. Sofro, sem que haja um «alguma coisa» de que sofro; se o sofrimento é de uma certa forma sem «objecto», não será ele sem «porquê?». Ele não é somente sentido mas também julgado como uma figura do mal. O que exige justificação é, por um lado, o sentimento de que o sofrimento não se limita a ser, mas que ele é algo em excesso; sofrer, é sofrer demasiado; é por outro lado o sentimento de que todo o mal não é mal de falta, mal «moral» (é de novo no caminho desta questão que é preciso ajudar o outro que sofre a ser implicado), mas no sentido leibniziano, mal «físico», isto é, que existe na «natureza», sem ter a sua justificação na ordem moral; dito d…

Tolerância a desaparecer.

Em um século de vida humana neste planeta sucedem-se os conflitos sangrentos e os sinais de barbárie, resultantes de diferenças exageradamente avolumadas, exploração e intransigências levadas ao radicalismo extremo. O respeito pelas diferenças e a tolerância estão a desaparecer dia após dia. Os menores gestos hostis combatem-se com violência, que gera mais violência, numa espiral que ameaça nunca acabar. A Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil russa, a Guerra Civil espanhola, Segunda Guerra Mundial, guerras em África e no Médio Oriente, na Jugoslávia, guerras entre Israel e árabes, atentados contra o Ocidente, tensão na Ucrânia, crise económica grave na Europa gerando miséria, desemprego, emigração, voluntários para novas guerras e atentados. Como terminar esta escalada? Como pôr os políticos a pensar e agir positivamente? Tráfico de armas, drogas e de seres humanos devem ser completamente erradicados. (...) António Catita in dn.pt

Dizer Não

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.  Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.  Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.  Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.  Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, a…

Ainda a privacidade

1 É verdade que muitas vezes não temos consciência da imensa pegada digital que todos os dias deixamos. ?É verdade que nem sempre nos lembramos que cada fotografia que partilhamos, cada aplicação que usamos, cada pagamento que fazemos, cada jogo que jogamos, cada site que visitamos, cada comentário que deixamos, diz uma imensidão sobre o que somos. E que o diz a todos e para sempre. É verdade que a cultura de partilha permanente de que se faz o mundo digital tem, por outro lado, inúmeras vantagens. O conhecimento flui, a inovação floresce, as barreiras esbatem-se. E, mais prosaicamente, é até verdade (sejamos honestos) que a gratificação de um like sabe bem a qualquer um, que uma graçola no Twitter chega por vezes a ser irresistível, e que um amigo no Facebook parece ser isso mesmo, para mais num Mundo que é muitas vezes de solidão acompanhada. Mas isto dito, devo confessar que me espanta e me preocupa a facilidade com que, no mundo contemporâneo, abdicamos voluntária e levianamente …

Impossível é não Viver

Se te quiserem convencer de que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. Temos direito a viver. Acreditamos nessa certeza com todas as forças do nosso corpo e, mais ainda, com todas as forças da nossa vontade. Viver é um verbo enorme, longo. Acreditamos em todo o seu tamanho, não prescindimos de um único passo do seu/nosso caminho.  Sabemos bem que é inútil resmungar contra o ecrã do telejornal. O vidro não responde. Por isso, temos outros planos. Temos voz, tantas vozes; temos rosto, tantos rostos. As ruas hão-de receber-nos, serão pequenas para nós. Sabemos formar marés, correntes. Sabemos também que nunca nos foi oferecido nada. Cada conquista foi ganha milímetro a milímetro. Antes de estar à vista de toda a gente, prática e concreta, era sempre impossível, mas viver é acreditar. Temos direito à esperança. Esta vida pertence-nos.  Além disso, é magnífico estragar a festa aos poderosos. É divertido, saudável, faz bem à pele. Quando eles pe…

Vive o Dia de Hoje!

Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora. Lê os jornais. O futuro é o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando não houver outro.  Vergílio Ferreira, in "Escrever"

Retomo ao Ponto de Partida

Retomo, pois, ao ponto de partida
como um presente, o ponto de chegada.
Entre um começo e outro não há nada
Excepto o nada da vida vivida.

Desgaste, corrosão do que de novo
em velho se mudou antes de o ser,
etc.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

Responsabilidade antropocósmica

Age de maneira tal que os efeitos das nossas ações sejam compatíveis com a possibilidade de vida futura; Age de tal modo que os efeitos de tua ação não sejam destruidores da possibilidade de vida futura; Não coloque em risco as condições de continuidade indefinida da humanidade sobre a terra; Inclua em tua escolha presente, como objeto também do teu querer, a integridade futura do homem (Jonas, 1985, p. 11).
 É em relação a esses imperativos que complementaremos as bases para o entendimento de uma ética da responsabilidade antropocósmica. in centrodefilosofia.com









Outro mundo é necessário - Boaventura Sousa Santos

Escrevo de Tunes, onde participo no Fórum Social Mundial (FSM), uma semana depois do atentado terrorista que matou 21 pessoas. O primeiro facto notável é que mais de 50 mil participantes, vindos de 121 países, não se deixaram intimidar pelos extremistas e mantiveram a sua participação como testemunho de solidariedade para com o povo tunisino, o país do Magreb onde se iniciou a Primavera Árabe e que realizou com mais êxito a transição da ditadura para a democracia. Um país pobre em recursos naturais, cuja maior indústria é o turismo, está no centro de uma região que serviu de berço ao capitalismo e sempre foi dominada pelo comércio de recursos estratégicos, do ouro no século XIV ao petróleo nos nossos dias. A riqueza da sua diversidade cultural é impressionante, e está presente tanto na arte e na política como na sociedade e no quotidiano. Aqui se amalgamaram ao longo de séculos a cultura cartaginesa (povos berberes e fenícios), romana, cristã, árabe-muçulmana (do Médio Oriente e da P…

Eduardo Galeano - viver sem medo

"A Casa do Homem" - Manoel de Oliveira

Imagine uma pessoa que não tem lugar. Anda perdido, desorientado. E imagine outra pessoa que é filho de família, tem os pais, os irmãos, a casa. A casa é muito importante. Vai sempre seguro de si porque tem um sítio de acolhimento se as coisas lhe falharem. Digamos a casa, digamos o lugar, digamos o sítio. Tal como o Ulisses volta a casa. Ele quer voltar ao recolhimento, à segurança, ao aconchego. O aconchego do ventre da mãe. A casa do homem é o ventre da mãe. Onde ele está e não precisa de fazer nada, tem tudo. E é feliz. E quando o Ulisses vem moribundo e fala na morte, surge a ideia de túnel que é o nascimento do feto, uma reminiscência. Por exemplo, o filme falado termina com o comandante que vê a casa a destruir-se, porque a casa dele é o navio. Mas há o lado ético: o capitão deve ser o último a deixar o barco, e ele tem um passageiro e não pode ir lá substitui-lo. Este é o grande drama. Ele vê arruinar todo o sistema, toda a sua vida, que está concentrada na sua casa. É essa a…

O Homem não é o Indivíduo

«Não é a arranhar interminavelmente o indivíduo que acabamos por encontrar o homem» - diz alguém em certo livro do Malraux. Nada, de facto, mais útil que a separação dos dois conceitos, que tanto tendem a confundir-se, mormente hoje, em que tal confusão parece agravar-se. Com efeito, o «homem» não é o «indivíduo», porque é só do indivíduo aquela parte que pode universalizar-se. E é desta ideia que temos de partir para que um equívoco se não consuma, o equívoco de um individualismo, de um pessoalismo restrito que a arte e o pensamento modernos parecem à primeira vista aceitar.  Que estranho «eu» é pois este que de algum modo dir-se-ia predominar na filosofia e na literatura de hoje? Porque é evidente que uma forte tendência da arte de hoje, do homem actual, apela para a comunicabilidade, para uma fraternidade, e não para um estéril isolamento. Mas acontece que nesse apelo muitas vezes se esquece o que há aí de mecânico, de superficial, de relações externas, imediatas, provisórias, que…

O que é Portugal?

Que é, ou quem é, Portugal? Uma Cultura? Uma História? Um Adormecido Inquieto? Por que é que, quando se fala de Portugal, sempre hão-de ser invocadas a sua história e a sua cultura? Se estivermos a falar de outro país, a história e a cultura dele só serão chamadas à conversa se forem esses os temas em debate. Talvez que esta necessidade de apelarmos constantemente para a história e para a cultura portuguesas provenha de um certo carácter inconclusivo (não no sentido que sempre será o de um qualquer processo contínuo, mas no sentido de uma permanente «suspensão») que ambas parecem apresentar. Da história de Portugal sempre nos dá vontade de perguntar: porquê? Da cultura portuguesa: para quê? De Portugal, ele próprio: para quando? Ou: até quando? Se estas interrogações não são gratuitas, se, pelo contrário, exprimem, como creio, um sentimento de perplexidade nacional, então os nossos problemas são muito sérios. Como explicar esta «dormência», que é também «inquietude», sem cair em dest…

O que mata Portugal - Eça de Queirós

O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo …

O mais importante, por favor

A democracia liberal e o Estado de direito são frágeis. Alguns dos seus princípios fundamentais são, em si mesmos, as razões das suas fragilidades. A liberdade de expressão e a própria liberdade de fazer propostas que colidem com esses princípios são alguns exemplos: não há democracia sem eles, mas são também essas liberdades que permitem a defesa e a divulgação de ideias contra os seus mais importantes institutos. Também por causa dessas fragilidades, nunca a sua defesa e a defesa dos seus mais sagrados fundamentos devem ser descurados, mesmo quando parecem estar solidamente instituídos e consolidados. A ninguém escapará que as épocas de grandes dificuldades económicas são especialmente perigosas - a história europeia do século XX lembra-nos bem disso. Tudo se torna secundário quando não se encontra emprego ou não se consegue sustentar a família e a fome e o desespero tornam os cidadãos bem mais vulneráveis aos vendedores de quimeras. É exatamente nesses momentos que a defesa dos pr…

A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"





Queres mudar o mundo?

Há quatro anos que a Google tem premiado várias ideias. Com a 5.ª edição a procura de jovens entre os 13 e os 18 anos com ideias inovadoras continua. O vencedor do prémio principal receberá uma bolsa de estudos no valor de 50 mil dólares (cerca de 44 mil euros). O prémio pretende estimular a educação do vencedor ou vencedores (caso seja uma equipa). Robôs voadores, diminuir os custos de biocombustível de algas, ajudar a tratar o cancro, remédios antigripais e a relação da canela com o alzheimer. São apenas alguns exemplos das ideias finalistas de anos anteriores. Provenientes de vários continentes, tiveram a oportunidade de desenvolver as suas ideias e dar-lhes um uso prático com a ajuda de profissionais. Existem vários tipos de prémios como o “Tecnólogo do Google” para quem tenha o potencial de “mudar o mundo”, como anuncia o site, através de ideias da ciência da computação ou da matemática. O premiado recebe metade do valor do prémio principal para lançar o seu projecto e um ano de …

O Herói

Tinha estado em África, numa guerra que quase toda a gente esqueceu, e voltou de lá virado do avesso. Magrinho, penteadinho, sempre de gravata, com um andar lento, solene, quando lhe vinha a guerra à ideia mudava por completo: desatava a combater, pontapeando caixotes do lixo e insultando as pessoas, isto já com uma pinguita a estimular-lhe os entusiasmos bélicos, agredia paredes, passava rasteiras a prédios, se por acaso descobria um africano avançava de peito feito a disparar com a boca, ferindo as pessoas de cuspo, e toda a gente sabe, a começar pelas cobras, como o cuspo é mortal, até que, de repente, estacava, o corpo esvaziava-se-lhe como um balão furado, e sentava-se no passeio a chorar por si mesmo. Comia, aqui e ali, o que lhe davam por esmola, ao fumar comia o cigarrito também, e disparava-me em cima uma carga letal de emboscadas, minas, canhões sem recuo, camaradas agonizantes e aldeias a arderem: Matei tudo o que pude afiançava ele, a bater a palma no peito Caiam-me os ol…

O culto da incompetencia - Émile Faguet

“O povo gosta que os seus eleitos se lhe assemelhem, que tenham os sentimentos e as paixões populares. Porém governar é uma arte e pressupõe uma ciência; mas, a representação do país, está reservada aos incompetentes, representação que tudo quer fazer e faz tudo mal, governando, administrando e espalhando a incompetência e a paixão no governo e na administração. Assiste-se hoje ao espectáculo de um povo governado por homens sem arte nem ciência, escolhidos precisamente por essas qualidades negativas.Homero dizia que Zeus, fazendo do homem um escravo, lhe tirava metade da alma; nós diremos que Dêmos, fazendo de um homem um político, tira-lhe toda a alma, e que, não o fazendo político, comete o erro de lha deixar. O regime, no fundo, é isto: os deputados espalhando favores para serem eleitos e reeleitos; os eleitores influentes pondo a sua influência, quer pessoal, quer de funcionários, ao serviço dos deputados para obterem favores, e fazendo uns e outros um bloco para defesa dos intere…

O Homem Light - um livro de denúncia

Este é um livro de denúncia. Preocupam-me desde há anos os rumos seguidos pela sociedade opulenta de bem estar no Ocidente, na medida em que a sua influência no resto dos continentes abre caminho, cria opinião e propõe argumentos. É uma sociedade, em certa medida, doente, da qual emerge o homem light, um sujeito que tem por bandeira uma tetralogia niilista: hedonismo-consumismo-permissividade-relativismo. Todos eles impregnados de materialismo. Um indivíduo assim parece-se muito com os denominados produtos light dos nossos dias: alimentação sem calorias e sem gorduras, cerveja sem álcool, açúcar sem glicose, tabaco sem nicotina, coca-cola sem cafeína e sem açúcar, manteiga sem gordura... um homem sem essência, sem conteúdo, entregue ao dinheiro, ao poder, ao êxito e ao prazer ilimitado e sem restrições. O homem light carece de pontos de referência, vive num grande vazio moral e não é feliz, ainda que tenha materialmente quase tudo. Isto é o grave. Este é o meu diagnóstico, e ao longo…

Breve explicação do sentido da Vida

Como exprimir em duas linhas o que venho tentando explicar já não sei em quantos livros? A vida é um valor desconcertante pelo contraste entre o prodígio que é e a sua nula significação. Toda a «filosofia da vida» tem de aspirar à mútua integração destes contrários. Com uma transcendência divina, a integração era fácil. Mas mais difícil do que o absurdo em que nos movemos seria justamente essa transcendência. Há várias formas de resolver tal absurdo, sendo a mais fácil precisamente a mais estúpida, que é a de ignorá-lo.  Mas se é a vida que ao fim e ao cabo resolve todos os problemas insolúveis - às vezes ou normalmente, pelo seu abandono - nós podemos dar uma ajuda. Ora uma ajuda eficaz é enfrentá-lo e debatê-lo até o gastar... Porque tudo se gasta: a música mais bela ou a dor mais profunda. Que pode ficar-nos para já de um desgaste que promovemos e ainda não operamos? Não vejo que possa ser outra coisa além da aceitação, não em plenitude - que a não há ainda - mas em resignação. Fil…

O meu 25 de abril

Estou na cama de manhã e aproveito para apontar na Agenda o tempo que passa. Tinha ficado na véspera em casa a rever provas. O puto fora para o liceu. Resolvo ir à rua beber uma cerveja e continuar a revisão. Ao pé do chafariz, o barbeiro atira com esta: “então, o Marcello e o Thomaz lá foram ao ar...” Não percebo logo. Nem acredito como. Mas ele confirma: a Emissora Nacional não funciona, só o Rádio Clube Português é que dá música e de vez em quando comunicados breves.  Já mais convencido, convido-o logo a festejar na tasca da Laurentina que era para onde eu ia. E depois, ainda duvidoso, vou com ele à barbearia a ver se oiço algum comunicado. Música ligeira, sem nada de marcial. Canções populares portuguesas, pouco mais. (Até a Amália, parece-me!). Mas passados minutos um comunicado do Comando das Forças Armadas. Aí, adquiro a certeza que é, deverá ser a repetição do golpe das Caldas, mas com outra amplitude. Refere que o público tem ocorrido às lojas, em tentativas de açambarcament…

Cisjordânia - Que Justiça?

O Fim da Privacidade

Globalização alimentar