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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2010

Pensar é dizer não!

"Pensar é dizer não. Notai que o sinal do sim é próprio do homem que se deixa adormecer; ao contrário, o
homem que desperta agita a cabeça e diz não. Não a quê? Ao mundo? Ao tirano? Ao pregador? Só aparentemente. Em todo o caso, é a si próprio que o pensamento diz não. Ele quebra a concordância repousante. Separa-se de si mesmo. Combate contra si mesmo.(...) É por eu consentir, por não procurar outra coisa, que o mundo me engana com as suas perspectivas, o seu nevoeiro, a sua confusão. E o que faz com que o tirano seja meu mestre é o facto de eu o respeitar em vez de o examinar. Mesmo uma doutrina verdadeira se torna falsa com esta sonolência. É por acreditarem que os homens são escravos. Reflectir é negar o que se crê. Quem acredita nem sequer sabe aquilo em que crê. Quem se satisfaz com o seu pensamento não pensa em mais nada.(...) Que é que eu vejo quando abro os olhos? Que é que eu veria se acreditasse em tudo? Uma confusão ,um painel incompreensível. É ao interrogar as cois…

Filosofia: métodos e objecto

"Tudo parece indicar que a filosofia não pode ser identificada com as ciências particulares nem ser restrita a um campo ou objecto único. Ela é, num certo sentido, uma ciência universal; o seu campo de pesquisa não é, como nas outras ciências, restrito a alguma coisa limitada e determinada. Se assim é, pode acontecer, e de facto acontece, que a filosofia se ocupe dos mesmos objectos que as outras ciências. Em que, então, a filosofia se distingue da ciência de cujo objecto se ocupa? A resposta é que ela se distingue tanto pelo método de investigação como pelo ponto de vista em que se coloca. Pelo método - porque o filósofo não está obrigado a restringir-se a qualquer dos métodos do conhecimento, que são muitos.(...) Além disto, a filosofia distingue-se das outras ciências pelo ponto de vista em que se coloca. Quando considera um objecto, ela encara-o, por assim dizer, sob o prisma dos limites, dos aspectos fundamentais. Nesse sentido a filosofia é a ciência dos fundamentos da realid…

A Filosofia

"Segundo um filósofo grego que viveu há mais de dois mil anos, a filosofia surgiu da capacidade que os homens têm de se surpreender. O homem acha tão estranho viver, que as perguntas filosóficas surgem por si mesmas.(...) A capacidade de nos surpreendermos é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos. Todas as crianças possuem essa capacidade, isso é óbvio. Com poucos meses de vida, começam a aperceber-se de uma realidade completamente nova. Mas quando crescem, esta capacidade parece diminuir.(...)Muito antes que a criança aprenda a falar correctamente(...)o mundo tornou-se para ela algo habitual. É pena. (...)Perdemos durante a nossa infância a capacidade de nos surpreendermos com o mundo. Mas com isso, perdemos algo essencial - algo que os filósofos querem reavivar. Porque em nós algo nos diz que a vida é um grande mistério. Já tivemos essa sensação muito antes de termos aprendido a pensar nisso. (...)Apesar de todas as questões filosóficas dizerem respeito …

Estatuto do Aluno - 3 ideias chave

" (...) Faltas que dão "chumbo": Regressa a distinção entre faltas justificadas e injustificadas. Ultrapassados os limites destas últimas, o aluno é sujeito a um plano individual de trabalho. Em caso de insucesso, o director ainda pode propor um percurso escolar alternativo, mas se continuarem as faltas injustificadas o aluno fica retido. Maior responsabilização: Quando é atingida a metade do limite de faltas injustificadas, os pais ou encarregados de educação são chamados a colaborar numa solução que permita garantir o cumprimento do dever de assiduidade. Se tal for impraticável, a escola deve alertar a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens. Disciplina mais célere: Vão desde a simples advertência, uma medida que é recuperada e passa a poder ser aplicada também pelo pessoal não docente, à transferência de escola. A suspensão preventiva passa de um máximo de cinco para dez dias e, em casos excepcionais, o director pode suspender o aluno por um dia antes da abertura…

Da Honra

"É MUITO DIFÍCIL QUE NÃO SENDO HONRADOS OS PRINCIPAIS CIDADÃOS DE UM ESTADO, OS OUTROS QUEIRAM SER HOMENS DE BEM; QUE AQUELES ENGANEM E ESTES SE CONFORMEM COM SER ENGANADOS."



MONTESQUIEU, De l'Esprit des Loix, I:III,5

Fábula da avaliação

“O dono de um talho foi surpreendido pela entrada de um cão na loja. Enxotou-o, mas o cão voltou logo de seguida. De novo, tentou enxotá-lo mas reparou que o cão trazia um bilhete na boca. Pegou no bilhete e leu: ‘Pode mandar-me 12 salsichas e uma perna de carneiro, por favor?’
O cão trazia também dinheiro na boca, uma nota de 50 euros. Pegou no dinheiro, pôs as salsichas e a perna de carneiro num saco e colocou-as na boca do cão. O talhante ficou realmente impressionado. Como já estava na hora, decidiu fechar a loja e seguir o cão. Este começou a descer a rua e quando chegou ao cruzamento depositou o saco no chão, pôs-se de pé e carregou no botão para o sinal ficar verde. Esperou pacientemente, com o saco na boca, que o sinal ficasse verde para peões e a pudesse atravessar. Atravessou a rua e dirigiu-se a uma paragem de autocarro, sempre com o talhante a segui-lo. Na paragem, o cão olhou para os horários e sentou-se à espera do autocarro. Quando o autocarro chegou, o cão foi até à part…

Actividades nas férias...

Uma sugestão... visita o nosso blog de Fotografia, FLASH, e experimenta participar num concurso de Fotografia. Boas fotos e boas férias!

Um novo paradigma das políticas culturais

A cultura e as políticas da cultura enfrentam actualmente uma situação completamente nova: de dificuldades, por um lado, e de potencialidades, por outro. Esta ideia foi hoje analisada e desenvolvida por Manuel Maria Carrilho, ex-ministro da Cultura e actual embaixador de Portugal na Unesco, na conferência de abertura que fez nos Encontros da Cerca, organizados pelo Festival de Almada em colaboração com o Instituto Internacional de Teatro do Mediterrâneo, e que tinha por tema “Crise, cultura e democracia”. Esta situação, segundo o professor catedrático de filosofia, aponta para uma mudança de modelo ou de paradigma. “Vivemos o esgotamento da democratização que era o grande objectivo das políticas culturais que se desenvolveram desde os anos 60 até aos anos 90” (inspiradas em André Malraux) e na sua opinião, “estamos a viver a transição para um modelo mais virado para a qualidade e a diversidade” e este será o modelo para as políticas do século XXI. Há década e meia, meados dos anos 9…

Novidades sem novidade - ME

Nenhum dos 149 alunos do 8º ano que se autopropuseram aos exames nacionais “concluiu o ensino básico por esta via”, informou hoje o Ministério da Educação. Este ano, a título excepcional, os estudantes com 15 anos ou mais que chumbaram de novo no 8.º foram autorizados pelo Ministério a propor-se aos exames de Língua Portuguesa e de Matemática do 9.º, para tentarem concluir o 3.º ciclo e escapar assim ao novo limite da escolaridade obrigatória que já os abrangerá no próximo ano lectivo. Para poderem concluir o 3º ciclo, e ficarem assim isentos da obrigação da permanecerem na escola até aos 18 anos, estes alunos teriam também que fazer exames de frequência a todas outras nove disciplinas curriculares do 9.º ano. Estas provas são realizadas a nível de escola. Segundo o Ministério da Educação, alguns obtiveram notas positivas nos exames de Língua Portuguesa e Matemática, mas apesar disso nenhum acabou por conseguir concluir o 9.ºano. Estes alunos fizeram os exames na 2.ª chamada, que no 9…

A Injustiça - Brecht

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
Nenhuma voz além da dos que mandam.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Quem ainda vive nunca diga: nunca!
O que é certo não está certo
Assim, como está, não ficará.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
Se a opressão permanece a quem se deve ? A nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
Quem conhece a situação por que ficará parado?
Porque os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã
E nunca será: ainda hoje.

Bertold Brecht

Chove… - José Gomes Ferreira

Chove… Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira

Desfecho - Miguel Torga

Não tenho mais palavras! Gastei-as a negar-te.
Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver em toda a parte.

Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado e paciente.

E lutei
Como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão:
Fechado num ouriço de recusas
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso(a) na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia.
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga, “Câmara Ardente”

Da igualdade entre os Homens - Ortega y Gasset

"Debaixo de toda a vida contemporânea encontra-se latente uma injustiça profunda e irritante: a falsa suposição da igualdade real entre os homens. Cada passo que damos entre eles mostra-nos tão evidentemente o contrário que cada caso é um tropeção doloroso." Ortega y Gasset, in 'A Desumanização da Arte'
P.s. Talvez seja importante reflectir e distinguir o conceito de igualdade nos direitos humanos. Há demasiada confusão no ar.

A queda da Bastilha e os Direitos Humanos

A tomada da Bastilha, a 14 de Julho de 1789, marca o início do movimento revolucionário pelo qual a burguesia francesa, consciente do importante papel que representava nos mais diversos sectores da vida do seu país, particularmente do ascendente económico que tinha sobre as classes até então dominantes, com o suporte das "massas populares", apeou a aristocracia do poder e derrubou a monarquia absolutista. Era o fim da autoridade discricionária do rei, da servidão humilhante e dos direitos feudais anacrónicos. O 14 de Julho que hoje se celebra, continua a ser uma data histórica não apenas para França mas para toda a Humanidade, em particular para todos aqueles que defendem os principais valores que são referência de conduta de todo o indivíduo em sociedade, no fundo aqueles que inspiraram a «Declaração Universal dos Direitos do Homem» adoptada em 1948 pela Assembleia Geral das Nações Unidas. A Tomada da Bastilha, ocorrida há precisamente 221 anos, fez com que se começasse a fo…

Soneto - José Régio

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado; Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.


JOSÉ RÉGIO - (1969) - Soneto

Para Além da Curva da Estrada - Alberto Caeiro

Para além da curva da estrada Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) In Poemas Inconjuntos

5/Julho - Aniversário da publicação de "Philosophiae Naturalis Principia Mathematica" - Isaac Newton

Isaac Newton, físico e matemático inglês, nasceu em 1642, em Lincolnshire, e morreu em 1727, em Middlesex. É conhecido pela formulação das três leis do movimento, consideradas os princípios da Física Moderna, de onde resultou a formulação da Lei da Gravitação ( . Os trabalhos realizados sobre a teoria da gravitação foram expostos na obra "Philosophiae Naturalis Principia Mathematica", talvez a obra científica mais importante para a física moderna, autorizada em5 de Julho de 1686 e publicada em 1687, onde Newton mostra que a Lei da Gravitação é universal. Como matemático, inventou o cálculo infinitesimal e descobriu o teorema do binómio. Em 1668, completou o seu primeiro telescópio de refracção, com que observou os satélites de Júpiter. A partir de 1672 passou a fazer parte da Royal Society, onde apresentou a sua teoria intitulada Nova Teoria sobre a Luz e a Cor, na qual enuncia que a luz branca é composta por muitas cores, tendo chegado a este resultado através de um prisma …

Antropologia Económica - Latouche

Segundo Latouche, "é preciso descolonizar o nosso imaginário. Em especial, desistir do imaginário económico (...) Redescobrir que a verdadeira riqueza consiste no pleno desenvolvimento das relações sociais de convívio num mundo são, e que esse objectivo pode ser alcançado com serenidade, na frugalidade, na sobriedade, até mesmo numa certa austeridade no consumo material, ou seja, naquilo que alguns preconizaram com o slogan gandhiano ou tolstoísta de "simplicidade voluntária".



Serge Latouche

Só para lembrar...

Marx tinha razão: "ainda não saímos da pré-história da humanidade". Somos 7 biliões de habitantes nesta "ilha" chamada Terra; mais de metade vivem abaixo do limiar da pobreza: ganham menos de 25 euros por mês; e desses, quase 2 biliões estão abaixo da linha da miséria. Todos eles... para podermos nós ter o que temos. F.Lopes

Palavras (crónica - Deste Mundo e do Outro) - Saramago

As palavras são boas. As palavras são más.
As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam.
As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas.
As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam.
São melífluas ou azedas.
O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência.
Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas.
Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras,
em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do Disse ou Tenho dito.
Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se l…

PORTUGAL - Alexandre O'Neill

Ó Portugal, se fosses só três sílabas, linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra, surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro mar…