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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2011

Descrição fenomenológica do acto de conhecer - N. Hartmann

1. Em todo o conhecimento, um «cognoscente» e um «conhecido», um sujeito e um objecto encontram-se face a face. A relação que existe entre os dois é o próprio conhecimento. A oposição dos dois termos não pode ser suprimida; esta oposição significa que os dois termos são originariamente separados um do outro, transcendentes um em relação ao outro. 2. Os dois termos da relação não podem ser separados dela sem deixar de ser sujeito e objecto. O sujeito só é sujeito em relação a um objecto e o objecto só é objecto em relação a um sujeito. Cada um deles apenas é o que é pela sua relação com o outro. Estão ligados um ao outro por uma estreita relação; condicionam-se reciprocamente. A sua relação é uma correlação. 3. A relação constitutiva do conhecimento é dupla, mas não é reversível. O facto de desempenhar o papel de sujeito em relação a um objecto é diferente do facto de desempenhar o papel de objecto em relação a um sujeito. No interior da correlação, sujeito e objecto não são, portanto, i…

A questão do conhecimento - recolha de dados para leitura

O que é o conhecimento? Richard Rorty dá-nos a definição mais habitual dos filósofos para essa questão: “Conhecer é representar cuidadosamente o que é exterior à mente”.
A representação, por sua vez, é o processo pelo qual a mente torna presente diante de si a imagem, a idéia e o conceito de algum objecto. Portanto, para que exista conhecimento, sempre será necessária a relação entre dois elementos básicos: um sujeito cognoscente (a nossa consciência, a nossa mente) e um objeto conhecido (a realidade, o mundo, os inúmeros fenómenos). Só haverá conhecimento se o sujeito conseguir apreender o objecto, isto é, conseguir representá-lo mentalmente.
Dependendo da corrente filosófica, será dada, no processo de conhecimento, maior ou menor importância ao sujeito (é o caso do idealismo) ou ao objeto (é o caso do realismo ou materialismo).Para o realismo, as percepções que temos dos objectos correspondem de facto às características presentes nesses objectos, na realidade. Os objectos é que det…

Ser português... , por Helder Costa

Ser português é Zé Povinho… ”… ele é paciente, crédulo, submisso, humilde, manso, apático, indiferente, abúlico, céptico, desconfiado, descrente e solitário, também não deixa por isso de nos aparecer, em constante contradição consigo mesmo, simultaneamente capaz de se mostrar incrédulo, revoltado, resmungão, insolente, furioso, sensível, compassivo, arisco, activo, solidário, convivente…Ser português é ser um desenho animado, é ter tiques, bigode e sotaque, ser baixinho e barrigudo, e construir frases só com palavrões. Ser português é ser diferente, estranhar a diferença, mas respeitar a diferença. Ser português é miscigenação, é não ser racista mas abrir uma excepção para com os ciganos. É ser motivo de piada pelos brasileiros, mas fazer humor sobre alentejanos e negros. Ser português é ser patriota mas não conhecer a bandeira, o hino nem os heróis. Ser português é ser navegador e conquistador. Ser português é emigrar um mês e voltar, e esquecer a sua língua nativa, o português. Ser portu…

Alheia crónica III - Miguel Esteves Cardoso

Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal. Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada. Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre a…

O acordo ortográfico - por Inês Cantante

Como sabemos, a linguagem é de fundamental importância para todos e cada um de nós. Palavras, palavras e palavras. Sim, palavras que se juntam e se combinam de tantas maneiras quantas conseguirmos imaginar. E quando nos cansarmos das palavras que conhecemos – Ah, as maravilhas da linguagem! – podemos recombiná-las para formar novas palavras. Palavras de apoio, palavras de desalento, palavras de ódio, palavras de carinho; palavras, palavras e palavras! O que seria de nós sem elas? São elas que nos permitem comunicar. São elas que nos ensinam tudo o que sabemos. São elas que, sem mesmo nos apercebermos, nos definem. Como? A imprevisível combinação de palavras que, num momento crucial, proferimos é o que diz quem somos. Sim, a linguagem é de fundamental importância para todos e cada um de nós. A linguagem que, desde sempre todos conhecemos e todos aceitámos. E como escrever o que dizemos? Eis a questão: como escrever o que dizemos? Será correcto mudar tudo o que sabemos, mantendo, ainda …

"Elas vivem mais. Eles têm mais poder." - por Felisbela Lopes

"Em Portugal e no mundo nascem mais homens do que mulheres. Mas o número de mulheres é superior ao dos homens. Porque elas vivem mais anos, porque têm menos acidentes mortais, porque emigram menos.
Olhando para o espaço público mediático, constata-se facilmente que a opinião declina-se no masculino. Elas são mais. Eles têm mais poder. É esta a realidade, por muito que um discurso feminista insista em tentar ler o social em termos de um desequilíbrio que importa repor rapidamente.
Numa grande reportagem, a edição de ontem do “Diário de Notícias” sinalizava os concelhos portugueses mais masculinos: Porto Santo, Lajes das Flores, Corvo, Ri-beira Grande, Monchique, Odemira, Grândola e Azambuja. Como traço comum, em todos estes locais geograficamente afastados há uma percentagem reduzida de idosos, o que justifica o predomínio dos homens. Em todos eles, sente-se também alguma descrença, algum pessimismo, que crescentemente estão a tomar conta do nosso país.
No mesmo jorna…

A memória, a informação e a manipulação - por Gonçalo Martins

A ideia de que a imprensa, a rádio e o cinema podem influenciar e manipular os indivíduos, vem desde o final dos anos 30, princípios dos anos 40. Podemos observar o caso do regime nazi que recorreu frequentemente a técnicas de propaganda para manipular multidões. O Poder politico tenta usar os media em proveito próprio, principalmente a imagem: ela vale mil palavras. Mas em assuntos delicados e comprometedores ele zela cuidadosamente para que não circule nenhuma imagem. Neste caso trata-se de uma forma de censura, nem mais nem menos. Os relatos escritos, os testemunhos orais podem ser apresentados dado que nunca irão provocar o mesmo efeito. O peso das palavras não se compara ao choque das imagens. A imagem, quando é forte, apaga o som e o olhar transporta-a até ao ouvido. Deste modo hoje existem por aí imagens sob forte vigilância, ou até mesmo, proibidas, que é a maneira mais precisa de segurá-las.
À medida em que a nossa civilização se desenvolve, parece haver uma indiferença cada ve…