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A mostrar mensagens de Setembro, 2014

As múltiplas interpretações da "alegoria da caverna" de Platão

Numa versão simples, a "alegoria da caverna" (ver texto) menciona vários homens, todos eles presos no interior de uma caverna, na qual nasceram, apenas conseguindo ver uma ténue luz. Um dia, um desses homens liberta-se, escapa para o exterior da caverna e tem conhecimento de todos aqueles objectos que, anteriormente, só conhecia como sombras projectadas nas paredes. Mais tarde, ao voltar ao local onde sempre viveu, este homem conta aos seus antigos companheiros o que viu. Estes, quando confrontados com a recente descoberta, acham que a luz fez o seu amigo ficar louco, e pensam até em matá-lo.
Normalmente os Mitos são histórias bastante difíceis de interpretar, pelo simples facto de terem um quase infinito número de significados que divergem em função do contexto que lhes queiramos dar. No caso da Filosofia e no que respeita a esta alegoria, poderá representar aquilo que se espera de um filósofo - a capacidade de se abstrair do mundo terreno e, com uma curiosidade infinita, …

Lógica e validade

A lógica não se interessa pela totalidade do sistema pensamento/discurso, mas antes por um seu aspeto específico: a dimensão validade (correção ou coerência). Os outros aspetos, como o esquema mostra, são tratados por outras disciplinas.
Uma definição possível de lógica é que ela "é o estudo da razão na linguagem ou o estudo do discurso racional" (G. Hottois) 
Mas tal definição presta-se a confusões. Com efeito, ela engloba em si tanto o estudo do pensamento, da atividade da razão como o estudo do efeito persuasivo do discurso. Só o primeiro aspeto diz respeito à lógica propriamente dita; o segundo diz respeito à retórica ou à teoria da argumentação. 
De forma mais rigorosa, poderá dizer-se que à lógica (no sentido moderno de lógica formal) interessa a análise das operações da razão enquanto estruturadoras do pensamento: à lógica interessa o estudo das estruturas lógicas (estruturas formais) que regulam o exercício do pensamento.
Deste modo, a lógica analisa as formas ou …

Os princípios lógicos

Ao pensamento exige-se sempre que seja coerente, autoconsistente, não contraditório.
Terá, para tal de satisfazer determinadas condições que se apresentam, para todo o pensamento, como critérios de racionalidade ou (é outra forma de dizer a mesma coisa) como leis supremas do pensamento ou leis lógicas fundamentais.
Tais leis são os princípios lógicos que se nos apresentam, ao mesmo tempo, como leis do pensamento e do discurso e como tendo um alcance ontológico enquanto referindo-se à natureza última da realidade e do ser.
São três os princípios lógicos:

Princípio de Identidade:
Formulação ontológica: o ser é, o não ser não é; Toda a coisa é idêntica a si mesma; O que é, é; o que não é, não é.
Formulação lógica: todo o A é A ; A=A
A pode designar qualquer objeto lógico (indivíduo, conceito, classe, proposição, raciocínio); o seu sentido lógico é o de que, uma vez definido de certa maneira um determinado conceito, essa definição deve permanecer constante ao longo do mesmo raciocí…

Tu, vã Filosofia

Tu, vã Filosofia, embora aviltes
Os crentes nas visões do pensamento,  Turvo clarão de raciocínios tristes  Por entre sombras nos conduz, e a mente,  Rastejando a verdade, a desencanta;  Nem doloroso espírito se ilude,  Se o que, dormindo, creu, crê, despertando.  Até no afortunado a vida é sonho  (Sonho, que lá no fim se verifica),  E ansioso pesadelo em mim, que a choro,  Em mim, que provo o fel da desventura,  Desde que levantei, que abri, carpindo,  Os olhos infantis à luz primeira;  Em mim, que fui, que sou de Amor o escravo,  E a vítima serei, e o desengano  Da suprema paixão, por ti cantada  Em versos imortais, como o princípio  Etéreo, criador, de que emanaram. 
Bocage, in 'Ao Senhor Joaquim Severino Ferraz de Campos (excerto)

A atitude Filosófica

«Para as crianças, o mundo – e tudo o que existe nele – é uma coisa nova, uma coisa que provoca estupefacção. Os adultos não o vêem assim. A maior parte dos adultos vê o mundo como qualquer coisa completamente normal. Os filósofos constituem uma excepção notável. Um filósofo nunca se conseguiu habituar completamente ao mundo. Para um filósofo ou para uma filósofa o mundo é ainda incompreensível, inclusivamente enigmático e misterioso. Os filósofos e as crianças pequenas possuem uma importante qualidade em comum. Podes dizer que um filósofo permanece durante toda a sua vida tão capaz de se surpreender como uma criança pequena. E agora tens que decidir, […] és uma criança que ainda não se habituou ao mundo? Ou és um filósofo que pode jurar que isso nunca lhe acontecerá?  Se simplesmente abanas a cabeça e não te sentes nem como criança nem como filósofa, é porque te acostumaste tão bem ao mundo que este já não te surpreende. Nesse caso, o perigo está iminente. E por isso te ofereço este…

Breve História da Lógica - por Carlos Fontes

Período Clássico (Século IV a.C ao Século XIX) O estudo das condições em que podemos afirmar que um dado raciocínio é correcto, foi desenvolvido
por filosófos como Parménides e Platão. Mas foi Aristóteles quem o sistematizou e definiu a lógica como a conhecemos, constituindo-a como uma ciência autónoma. Falar de Lógica durante séculos, era o mesmo que falar da lógica aristotélica. Apesar dos enormes avanços da lógica, sobretudo a partir do século XIX, a matriz aristotélica persiste até aos nossos dias.  No século XVI os problemas que diziam respeito à sistematização do conhecimento científico designavam-se por "lógica menor" e no século XIX, por "lógica formal". Os problemas que diziam respeito à verdade dos juízos constituíram o objecto do que se chamou no século XVI "lógica maior", e no século XIX por "lógica material".  Os principais escritos de Aristótoles sobre lógica, foram reunidos pelos seus continuadores após a sua morte, numa obra a qu…

O milagre grego

Chamou-se “o milagre grego”, com pleno direito, a essa criação efectuada pela inteligência helénica: criação de uma ciência e de uma filosofia que não são unicamente ciência e filosofia grega, mas (...) a ciência e a filosofia em geral, cuja ideia, orientação e metodologia permanecem em toda a ciência e filosofia posterior, inspirando-a e dirigindo-a. Contudo, na exaltação desse milagre, ultrapassou-se amiúde o limite de uma equilibrada compreensão e avaliação histórica, e pelo desejo de ressaltar o seu carácter excepcional tem-se querido, por vezes, separá-lo e isolá-lo de toda a continuidade de desenvolvimento histórico, quer negando qualquer influxo ou contribuição de outras culturas anteriores no seu nascimento e desenvolvimento inicial, quer caracterizando-o mediante uma oposição com os caracteres e desenvolvimentos das culturas posteriores. Os primeiros passos da civilização grega foram dados exactamente -facto significativo- nas colónias da Ásia menor, onde o contacto directo …

Os princípios lógicos da razão

A lógica assenta em três princípios fundamentais, sem os quais não haveria pensamento possível.
Como todos os raciocínios se fundamentam nestes princípios, interessa falar deles. (...) A lógica clássica [aristotélica] formula-os em termos de “coisas”, enquanto a lógica moderna e a logística os exprimem em termos de proposições. Daremos as duas espécies de enunciados. 
1- Princípio de identidade Enunciados possíveis do princípio de identidade:  I- Uma coisa é o que é.  II- O que é, é; o que não é, não é.  III- A é A (“A” designando qualquer objecto do pensamento).  Em termos de proposições:  IV- Uma proposição é equivalente a si mesma. 
2- Princípio de não contradição (ou contradição) e a negação das proposições I- Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo, segundo uma mesma perspectiva. (...) Não há contradição quando a realidade de que falamos não é julgada, quer num mesmo instante, quer num mesmo ponto de vista, mesmo quando se obtêm juízos que se opõem. Exemplo:  “Este camaleã…

O que é a Filosofia?

A filosofia é diferente da ciência e da matemática. Ao contrário da ciência, não assenta em experimentações nem na observação, mas apenas no pensamento. E, ao contrário da matemática, não tem métodos formais de prova. A filosofia faz-se colocando questões, argumentando, ensaiando ideias e pensando em argumentos possíveis contra elas e procurando saber como funcionam realmente os nossos conceitos. A preocupação fundamental da filosofia consiste em questionarmos e compreendermos ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensarmos nelas. Um historiador pode perguntar o que aconteceu em determinado momento do passado, mas um filósofo perguntará: «O que é o tempo?» Um matemático pode investigar as relações entre os números, mas um filósofo perguntará: «O que é um número?» Um físico perguntará de que são constituídos os átomos ou o que explica a gravidade, mas um filósofo irá perguntar como podemos saber que existe qualquer coisa fora das nossas mentes. Um psicólogo pode investigar …

Lógica e argumentação

Diz-se, por vezes, que a lógica é o estudo dos argumentos válidos; é uma tentativa sistemática para
distinguir os argumentos válidos dos inválidos. Neste estádio, tal caracterização tem o defeito de explicar o obscuro em termos do igualmente obscuro. O que é afinal a validade? Ou, já agora, o que é um argumento? Para começar pela última noção, mais fácil, podemos dizer que um argumento tem uma ou mais premissas e uma conclusão. Ao avançar um argumento, damos a entender que a premissa ou premissas apoiam a conclusão. Esta relação de apoio é habitualmente assinalada pelo uso de expressões como “logo”, “assim”, “consequentemente”, “portanto, como vês”. Considere-se esse velho e aborrecido exemplo de argumento:
Sócrates é um homem. Todos os homens são mortais. Logo, Sócrates é mortal.
As premissas são “Sócrates é um homem” e “Todos os homens são mortais”. “Logo” é o sinal de um argumento e a conclusão é “Sócrates é mortal”. A vida real nunca é tão evidente e inequívoca como seria se todas…

Ética e Ecologia

Em geral considera-se a Ecologia como uma disciplina que se ocupa do ambiente e, mais particularmente, das relações entre o ser vivo e o meio em que ele vive. Mas sob uma tão consensual definição são várias as orientações que se disputam. Ferry (filósofo autor de um livro intitulado: A Nova Ordem Ecológica,) distingue três: A "antropocentrista" que se caracteriza por desenvolver uma atenção ao meio em íntima ligação com a vida dos homens, e será o homem que constitui o ponto de referência central; é uma posição humanista na medida em que não reconhece nenhum sujeito de direito que não seja o homem, nem tolera a absolutização de quaisquer valores "acima" do homem. Bem diferente é a orientação que se abre à atenção do "não-humano" e se desenvolve a partir da ideia que o direito pode começar onde começa a distinção entre o prazer e a dor. Define-se assim uma ecologia "utilitarista" que aposta no aumento global do bem-estar no mundo e, portanto, na…

Beleza

"A beleza natural pode ser dispendiosa e trágica, no entanto, a natureza constitui uma cena de beleza
que continuamente se restabelece em face da destruição. Quando os diversos aspectos da paisagem são integrados num ecossistema evolutivo dinâmico, as partes feias não empobrecem o todo, antes o enriquecem. A fealdade é contida, superada e integrada numa beleza positiva e complexa. Porém, depois de se ter atingido uma compreensão ecológica bem dirigida, isto não é tanto visto, mas mais experienciado. Não é tanto uma questão de visão (sight) como de intelecção (insighi) no drama da vida. Em muitas das mais ricas experiências estéticas da natureza, não há nada para pôr numa tela, nada para fotografar."

H. Rolston III, Environmental Ethics. Duties to and Values in the Natural World, Philadelphia, Temple University Press, 1988, p. 241

Palavras no tempo

"O projeto Palavras no Tempo recria estilos de comunicação e diálogo de outros tempos, contextualizados à nossa realidade, carente ainda de efetiva reflexão e debate, apesar do ruído dos media. Este projeto tem a sua génese na obra Educação, Ciência e Religião, editada pela Gradiva, que, juntamente com a Universidade do Porto e o Centro Nacional de Cultura, patrocina a ideia. São dinamizadas várias conferências/debates, focadas regionalmente, com o apoio das respetivas câmaras municipais e das escolas da região. Os temas em debate terão sempre presente a religião e a cultura, envolvendo o olhar reflexivo em várias áreas, perspectivadas por crentes e não crentes. Tipicamente numa sexta feira de cada mês, haverá pela tarde uma sessão para jovens alunos, inspirada no livro Educação, Ciência e Religião (página). Na noite do mesmo dia, pelas 21h15m, ocorrerá a sessão da noite, aberta a toda a comunidade, com temas como “religião e economia”, “religião e política”, “religião e literat…

A estética e o valor da natureza

“Tudo se passa como se a natureza [. . .] tendesse em certas circunstâncias a tormar-se humana, como se ela se conformasse por si própria com ideias às quais atribuímos um valor quando se manifestam na humanidade. [...] É que é realmente a própria natureza que aponta para ideias que nos são caras, e não nós que nos projetamos nela [...]. Daí a sensação de que a natureza possui realmente esse valor intrínseco no qual se apoiam os deep ecologists para legitimarem o seu anti-humanismo. Mas, por outro lado, e é nisso que eles falham, são as ideias evocadas pela natureza que lhe dão todo o seu valor. Sem elas, não atribuiríamos o menor valor ao mundo objectivo. [...] Deve-se, assim, fazer justiça ao sentimento de que a natureza não é desprovida de valor, que temos deveres para com ela, sem que seja, no entanto, sujeito de direito." L. Ferry, Le nouvel ordre écologique. L'arbre, l'animal et l'homme, Paris, Grasset & Fasquelle, 1992, pp. 208-209

A arte como poder libertador

Todo o homem traz consigo tentações, forças que agitam as profundidades da sua alma. A psicanálise vulgarizou a sua acção e mostrou como o nosso pensamento e vontade dificilmente chegam a reprimi-los, por vezes à custa de perturbações psíquicas. É o trabalho bem conhecido do recalcamento, com todas as consequências que provoca, às vezes catastróficas. Ora, estas tendências que procuram ser satisfeitas e que os nossos costumes ou leis morais contrariam, que por vezes até, simplesmente, os nossos hábitos de pensar impedem por ignorância de se expandir, encontram na obra de arte uma saída espontânea,imaginária, aliás muitas vezes confusa. O artista criador liberta-se fazendo-as passar para a sua obra; o espectador, desfrutando-as pela imagem proposta ao seu olhar. Um e outro, em sentido literal, encontram-se «esvaziados». Os psicólogos modernos aperceberam-se disto, a tal ponto que, por vezes, tentam libertar o neurótico, até um criminoso viciado, propondo-lhes o desvio do desejo que, c…

Arte e moral

«A obra literária tem necessariamente de exercer uma acção no espírito de quem a lê. Mas se essa acção é imoral, destruirá fatalmente a emoção estética. Portanto uma obra imoral, na medida em que o for, deixará de ser artística.» Paulo Durão Alves, A Arte e a Moral, Brotéria, 1927, p. 42
«Uma arte que abusa da vida emocional, levando-a a extremos irreflectidos, não poderá ser boa arte, já que produzirá odesequilíbrio moral do homem através da cegueira da inteligência para contemplar o bem e a beleza e a debilidade da vontade para resistir ao mal. Se na ordem ontológica a verdade e a bondade impõem as suas condições à beleza, na ordem psicológica, subjectiva, o prazer estético necessariamente deve ser regulado pela luz da inteligência e pelas normas objectivas do viver e do pensar ordenados.» Alfredo Panizo, «A Arte e a Moral», Revista de Filosofia, 1959,Madrid, p. 326
«Não há livros morais nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos. Nada mais. [. ..} A vida moral do Homem faz parte …

Paul Ricoeur e a questão da inovação semântica

No meu entender, o primeiro papel que o literário exerce na obra de Paul Ricoeur está expresso na sua textualidade, ou seja, no modo como ele entretece os seus textos, modo esse que pode ser lido como uma estratégia dramática se se tiver em conta que ela expressa e explora a fecundidade do conflito de interpretações. Nesse quadro, os textos de Paul Ricoeur são sempre o resultado de um trabalho original de composição de outros textos cuja matriz fundamental é a oposição e a exclusão. Esse trabalho original de composição a partir de posições teóricas antagónicas – como é o caso, por exemplo, da sua teoria da linguagem que estrutura no confronto do estruturalismo com a fenomenologia ou da problemática da identidade narrativa, organizada a partir do confronto entre a filosofia analítica e a hermenêutica – é dirigido para extrair uma significação nova do próprio antagonismo e decorre da convicção do autor de que o conflito interpretativo é o lugar de inscrição de uma realidade marcada com…

Evolução - Antero de Quental

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in "Sonetos"

O último negócio - Rabindranath Tagore

Certa manhã
ia eu pelo caminho pedregoso,
quando, de espada desembainhada,
chegou o Rei no seu carro.
Gritei:
— Vendo-me!
O Rei tomou-me pela mão e disse:
— Sou poderoso, posso comprar-te.
Mas de nada lhe serviu o seu poder
e voltou sem mim no seu carro.

As casas estavam fechadas
ao sol do meio dia,
e eu vagueava pelo beco tortuoso
quando um velho
com um saco de oiro às costas
me saiu ao encontro.
Hesitou um momento, e disse:
— Posso comprar-te.
Uma a uma contou as suas moedas.
Mas eu voltei-lhe as costas
e fui-me embora.

Anoitecia e a sebe do jardim
estava toda florida.
Uma gentil rapariga
apareceu diante de mim, e disse:
— Compro-te com o meu sorriso.
Mas o sorriso empalideceu
e apagou-se nas suas lágrimas.
E regressou outra vez à sombra,
sozinha.

O sol faiscava na areia
e as ondas do mar
quebravam-se caprichosamente.
Um menino estava sentado na praia
brincando com as conchas.
Levantou a cabeça
e, como se me conhecesse, disse:
— Posso comprar-te…

De que serve a bondade - Brecht

1

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'

A mistificação democrática - por Baptista Bastos

Um dos grandes projectos da República foi a instrução. Uma das prioridades deste Governo é a destruição da escola e a liquidação do ensino, através de todos os meios. Os professores são enxovalhados, e seis mil dentre eles não encontram ocupação. Fecham escolas sob a inacreditável afirmação de que os alunos são escassos, e há miúdos que são obrigados a percorrer dezenas e dezenas de quilómetros a fim de receber as primeiras letras. Tribunais fecham, e os técnicos afirmam que o facto acentua a desertificação do País e a sua decadência social e moral. Estas, as terríveis notícias das últimas horas, aplicadas a um povo que parece ter-se despojado das mais elementares noções de integridade. João de Barros (1496-1570), o das Décadas, o linguista que escreveu a primeira Gramática da Língua Portuguesa, o sábio que morreu na miséria, como o seu contemporâneo Luís de Camões [1524(?)-1580], perseguido pela inveja e pela ignorância, escreveu um desabafo que define Portugal e as suas misérias: «…

Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes in pensador

O poder da palavra - Adriano Moreira

Tem importância anotar que, nestes conturbados tempos, o poder da palavra pode vencer a palavra do poder, mas que também o discurso, mesmo inspirado pelos valores essenciais, corre o risco da submissão do dito à liberdade da interpretação. Ficou célebre o discurso de Paulo VI na ONU quando ali declarou que o desenvolvimento é o novo nome da Paz. Mas nesta data de crise económica e financeira, com o desenvolvimento económico a sofrer as consequências do orçamentalismo, ideologicamente orientado não apenas pela busca do equilíbrio necessário, ganha atenções o discurso que João Paulo II, em outubro de 1955, dirigiu também à ONU, ocupando-se da Estrutura Moral da Liberdade. São de então estas palavras: "As revoluções foram possíveis pela dedicação de homens corajosos e mulheres inspiradas por uma diferente, e finalmente mais profunda e vigorosa visão: a visão do homem como uma criatura de inteligência e livre arbítrio, imerso num mistério que transcende o seu próprio ser e o dota da…

Joga todo o teu ser na breve ideia

Joga todo o teu ser na breve ideia
que incerta entre o corrente te procura
pra lá do que banal te prende e enleia
e pelo destacá-la emerge pura.

Fazê-lo é dar-lhe já o que perdura.
Porque a banalidade que a medeia
como à pedra vulgar por entre a areia
esquece o que em tomá-la a rareia.

Ser homem é escolher o que o oriente
e ser-lhe o mais a margem que lhe mente.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'








Ponto de partida

Retomo, pois, ao ponto de partida
como um presente, o ponto de chegada.
Entre um começo e outro não há nada
Excepto o nada da vida vivida.

Desgaste, corrosão do que de novo
em velho se mudou antes de o ser,
etc.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'