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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2014

A incomensurabilidade dos paradigmas - T. Khun

Kuhn escreve o seguinte no seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas: «Levados por um paradigma novo, os cientistas adoptam novos instrumentos e olham para novos lugares. Ainda mais importante, durante as revoluções, os cientistas vêem coisas novas e diferentes, mesmo olhando com os instrumentos do costume para os lugares para onde antes já olhavam. É um pouco como se a comunidade profissional tivesse sido transportada para outro planeta onde os objectos familiares são vistos sob uma luz diferente e aos quais se juntam também outros novos. [...]O que no mundo do cientista era um pato antes da revolução passou a ser um coelho depois dela.» Se for verdade que, como defende Kuhn e a passagem anterior reforça, os paradigmas são incomensuráveis, então é incorrecto afirmar que... a)... o novo paradigma resolve as anomalias do paradigma anterior; b)... o novo paradigma é mais abrangente do que o anterior; c)... o novo paradigma é melhor do que o anterior; d)... há paradigmas que expl…

Existência - Andrés Ortiz-Osés

Melodias do encontro entre a Fé e a Cultura - 30 de Abril 2014

Soneto do amor e da morte (a lembrar Vasco Graça Moura)

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"



"Fui surpreendido, há pouco, pela notícia da morte do Vasco Moura. Ao que percebo, pelos despachos das agências, por um cancro que o foi consumindo aos poucos. Foi como um soco no estômago. O Vasco Graça Moura era um dos intelectuais mais enxutos e prolixos da direita portuguesa, um homem de valores e de convicções, de antes que quebrar que torcer. Incapaz de se comprometer no jogo torpe da política, o Vasco, como era tratado, com ternura, pelos amigos, t…

Apontamento - a evolução da ciência - Popper e Kuhn

Popper defende que a sucessão das teorias em ciência constitui um progresso em direcção à verdade. A verdade é uma meta inalcançável porque o progresso da ciência se realiza por aproximações sucessivas e sempre provisórias da verdade. O progresso do conhecimento científico realiza-se à maneira da evolução das espécies segundo Darwin, ou seja, à custa da eliminação das menos aptas. Segundo Popper, “as nossas teorias são o senso comum criticado e esclarecido.” Kuhn defende a descontinuidade na forma como os cientistas encaram os fenómenos. Kuhn formulou uma “reconstrução racional” do progresso científico baseada na sua interpretação dos desenvolvimentos na história da ciência. Kuhn defende que existem três momentos no desenvolvimento da ciência: a pré-ciência, a ciência normal e a ciência revolucionária. Para Kuhn os modelos de explicação da realidade entram em ruptura uns com os outros. a comunidade científica não se rege pelo ideal de verdade. A própria noção de verdade é excluída po…

O ranking viral

Nas últimas semanas tornou-se viral na Internet um ranking organizado com base em dados do Fórum Estudante que dava conta dos dez cursos superiores a evitar. Ou seja, os cursos do ensino superior que, neste momento, terão menos saída profissional. A liderar, a filosofia. Não é difícil perceber porquê, de tal forma se propagou que seria uma disciplina dispensável, sem utilidade prática, seja lá o que isso for, em contra corrente com a retórica da eficiência, da velocidade e do fazer, como se saber pensar e ter uma visão do mundo fosse dispensável. A perversão é que são rankings destes que alimentam ideias erróneas. Paradoxos do nosso tempo. Fala-se de empreendedorismo. De flexibilidade. De iniciativa. A ideia que cada um pode criar a sua própria saída profissional. E ao mesmo tempo publicita-se um padrão simplificador do que cursar, não deixando essa descoberta aos alunos e promovendo a ideia que estudar é o mesmo que formação profissional. Poderão existir alguns cursos que, depois de …

O paradoxo do naan

"No que diz respeito a acontecimentos reveladores, a chegada dos naan (pães indianos) à mesa dificilmente será o mais dramático. Mas deu a Saskia o tipo de choque mental que modificaria profundamente a sua maneira de pensar. O problema era que o empregado de mesa que serviu os pães indianos não era de ascendência indiana, mas sim um branco anglo-saxónico. Isto incomodou Saskia, pois para ela, um dos prazeres de jantar fora um prato de caril era a sensação de saborear uma cultura estrangeira. Se o empregado lhe tivesse servido um bife e empadão não teria sido mais incongruente do que a sua cor de pele. Quanto mais pensava no assunto, todavia, menos sentido fazia. Saskia considerava-se multiculturalista. Isto é, apreciava positivamente a variedade de culturas que uma sociedade etnicamente diversa sustenta. Mas o seu prazer dependia de outras pessoas permanecerem etnicamente distintas. Ela só podia gozar de uma vida a esvoaçar entre muitas culturas diferentes se outros permanecessem f…

O Partido do 25 de Abril - por Boaventura de Sousa Santos

Escrevo esta crónica da Índia, onde tenho estado nas últimas três semanas. Na década passada, a Índia foi avassalada pelo mesmo modelo de desenvolvimento neoliberal que a direita europeia e seus agentes locais estão a impor no Sul da Europa. As situações são dificilmente comparáveis mas têm três características comuns: concentração da riqueza, degradação das políticas sociais (saúde e educação), corrupção política sistémica, envolvendo todos os principais partidos envolvidos na governação e setores da administração pública. A frustração dos cidadãos perante a venalidade da classe política levou um velho ativista neo-gandhiano, Anna Hazare, a organizar em 2011 um movimento de luta contra a corrupção que ganhou grande popularidade e transformou as greves de fome do seu líder num acontecimento nacional e até internacional. Em 2013, um vasto grupo de adeptos decidiu transformar o movimento em partido, a que chamaram o Partido do Homem Comum (Aam Aadmi Party, AAP). O partido surgiu sem gr…

Dêem-me algo maior que eu próprio!

(A lembrar os 40 anos do 25 de abril de 1974) Naquela tarde tomei uma decisão que ia mudar toda a minha vida. De agora em diante, ia apenas fazer o que me apetecia. Largar as amarras das responsabilidades, dos deveres e das obrigações. Lutar por um ideal maior: a liberdade de poder escolher o que fazer. Poder determinar o futuro, poder decidir o meu rumo! Escolher o que me apetece, sem ninguém me dizer o que fazer. Tinha que viver essa liberdade! Haverá algo maior que a liberdade individual? Os primeiros tempos foram inebriantes e as possibilidades infinitas. Como uma folha em branco, podia desenhar a minha vida na direcção e na cor que me apetecesse. Podia partir ou ficar. Fazer ou não fazer. Ir por aqui ou por ali. Mas mais importante é que a folha estava em branco e podia escolher o que me apetecesse. Mas o que fazer em primeiro lugar? Com tantas possibilidades, torna-se difícil escolher. Mas como os desejos não faltam, dá-se um pequeno passo numa direcção. Não interessa bem a dire…

"A grande lição, hoje, é recordar o que ainda está por fazer." - O 25 de Abril segundo os filósofos

Os filósofos José Barata Moura e Pacheco Pereira estiveram ambos de acordo: o 25 de Abril foi um golpe e uma Revolução, que derrubou a mais longa ditadura da Europa. Mas enquanto para o primeiro o seu legado está ainda por cumprir, para o segundo o Portugal de hoje mantém ainda muitos aspetos do que foi o antes do 25 de Abril.  Falavam ambos no painel dedicado a "O que foi o 25 de Abril?", da conferência sobre os 40 anos desta data, organizada pelo Expresso/SIC e Instituto das Ciências Sociais, em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian.  Para o comunista e ex-reitor da Universidade de Lisboa, "o capítulo que o 25 de Abril inaugurou permanece inacabado e as condições do entrecho continuam - a saga é assentar novas bases ao caminho". E acrescentou: "a grande lição, hoje, é o recordar o que ainda está por fazer".  Pacheco Pereira, por sua vez, relevou um aspecto que considerou fundamental: o legado da censura no Portugal de hoje e que se expressa naquil…

Democracia X anarquismo

DEMOCRATA: Ouvi dizer que te dizes um verdadeiro defensor das ideias democráticas. Todavia, criticas democratas que, como eu, afirmam que a democracia deve ser a forma de governar o estado.
ANARQUISTA: Pois claro. Não podes transformar um mau estado num bom estado só por torná-lo democrático, do mesmo modo que não podes transformar um peixe podre num peixe fresco temperando-o com um molho especial.
DEMOCRATA: Caro amigo, deixa-me dizer-te que a tua metáfora cheira mal. Pareces pensar que um estado é inerentemente mau; contudo, não poderíamos viver uma vida decente sem um estado.
ANARQUISTA: Acho que quando ouvires o meu argumento, poderás aprovar a minha metáfora. Julgo que aprovas as minhas premissas e, se assim for, não vejo como podes discordar da minha conclusão.
DEMOCRATA: Vamos ver.
ANARQUISTA: A minha primeira premissa é que ninguém é obrigado a apoiar ou a obedecer a um mau estado. O que torna esta afirmação poderosa é que ela não é apenas defendida pelos anarquistas, mas faz parte…

A filosofia política em tempos democráticos

A filosofia política em tempos democráticos tem perante si um desafio: assegurar a sua presença e a sua pertinência, mas sem ceder à pressão da respeitabilidade, que não é menos do que o primeiro passo para a usurpação da ideologia. Tem de ser fiel a si mesma e, embora não ambicionando a respeitabilidade, ser responsável. Tem de acompanhar as regras do regime político, sem se deixar vergar por elas. Para ser responsável e verdadeira não pode confundir o afastamento que previne a usurpação ideológica com o reconhecimento do valor da democracia. No seu compromisso com a responsabilidade e com a verdade, a filosofia política reconhece e elogia a extraordinária destreza prática da democracia e discerne sem ambiguidades a inferioridade dos seus inimigos históricos, não só das alternativas passadas dos fascismos e dos bolchevismos, mas também das sempiternas tentações do devaneio romântico de fazer da política e da cidade o balão de ensaio para momentos poéticos de inspiração. Mas deverá fa…

Democracia e Justiça distributiva

Como devem ser distribuídos os bens numa sociedade? […] Serão consideradas aqui três perspectivas — primeiro o utilitarismo, e depois as perspectivas não consequencialistas de John Rawls e Robert Nozick. O utilitarismo clássico diz que deves maximizar o prazer em detrimento da dor. Se a nossa acção maximiza o bem, não importa se a distribuição do bem é igual ou desigual. Logo, o utilitarismo justifica em princípio um grande fosso entre ricos e pobres. Todavia, os utilitaristas afirmam que na prática a sua perspectiva prefere uma distribuição mais igual. Considera uma pequena sociedade de ilhéus constituída por duas famílias. A família rica ganha 100 000 euros por ano e tem bens em abundância; a família pobre ganha 5 000 e confronta-se com a possibilidade de passar fome. Supõe que 2 500 euros da família rica vão para a família pobre. A família pobre beneficiaria enormemente, e a família rica dificilmente sentiria a falta desse dinheiro. A razão para isto é a diminuição da utilidade ma…

A verdadeira práxis política

Nesta arte da palavra, aqui identificada com a verdadeira retórica, consiste a verdadeira práxis política. Vistas as coisas deste ângulo, já não será tão difícil perceber porque é que Sócrates afirma no diálogo com Cálicles que nenhum dos famosos políticos de Atenas (Péricles, Címon, Milcíades e Temístocles) desfrutou realmente de verdadeiro poder político. O Sócrates platónico exige dos políticos que eles façam justos e felizes os cidadãos. Se eles não possuem este poder, então, tudo o que eles ou a multidão que os segue possa considerar como exercício de poder e força não passa de mera ilusão e engano. Isto mostra claramente que a concepção platónica da política não pode ser identificada, como tantas vezes se faz, com qualquer concepção política vigente no seu tempo. Com certeza que Platão não pode emergir totalmente do seu tempo histórico. Porém, isso não nos deve fazer esquecer que Platão, na sua definição da filosofia e da política, é alguém que luta contra a corrente em nome de…

O dinheiro faz a felicidade?

Lá está Epicuro: "É preciso meditar sobre o que traz a felicidade, pois, se ela estiver presente, temos tudo, mas, se estiver ausente, fazemos tudo para obtê-la." E é o que faz F. Lenoir, num belo livro recente, exigente e acessível, Du bonheur. Un voyage philosophique: como alcançar a felicidade, ser feliz. E não podia faltar um capítulo sobre o dinheiro: ele traz a felicidade? J. Renard atirou: "Se o dinheiro não faz a felicidade, dê-o." Mas quantos estão dispostos a isso? No entanto, num artigo célebre de 1974, o economista americano R. Easterlin mostrou que no seu país, embora o rendimento bruto por habitante tenha dado o salto extraordinário de 60%, entre 1945 e 1970, a proporção de pessoas a considerar-se "muito felizes" não tinha variado: 40%. Não se confirma a fórmula mágica do capitalismo liberal: crescimento do PIB = aumento da felicidade. Aliás, as estatísticas do Insee diziam o mesmo em relação à França: embora entre 1975 e 2000 se observe um …

Democracia, Estado Social e Defesa da Educação Pública - por Licínio C. Lima

Uma formidável ofensiva vem-se abatendo sobre a educação pública, sob os efeitos de um ajustamento das contas públicas e respetivos cortes, radicais, na despesa pública com a educação, que em breve nos farão recuar à situação vivida há décadas atrás. Mas este ajustamento é, ainda, acompanhado de um ajuste de contas político com a educação pública democrática e com o pensamento pedagógico que em Portugal foi desenvolvido após o 25 de Abril de 1974. As elites conservadoras e descomprometidas com a educação do Público representaram sempre um dos nossos maiores problemas. A criação retórica, tipicamente ideológica, do chamado “eduquês”, algo que simplesmente nunca existiu, e não existe, permitiu contudo ao atual ministro e às forças que o promoveram e apoiaram anos a fio na comunicação social, desencadear uma reação contra o pensamento educacional e a pedagogia democráticos, defendendo o retorno a uma educação à antiga portuguesa, rigorista, seletiva, meritocrática, em competição permane…

Estado quase novo - por Fernanda Câncio

Era um regime porreirito. É certo que tinha de acabar pela força, e que é uma vergonha que quem mandava e os membros da polícia política não tivessem sido castigados; inclusive o dia em que caiu foi o mais importante da nossa história. Mas estava-se bem, no Estado Novo.
É o que se conclui do inquérito efetuado em janeiro pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa em colaboração com o Expresso e por este divulgado: 42% dos respondentes dizem que o Estado Novo teve mais coisas negativas do que positivas; 28% acham que foi meio/meio e 19% que foram mais as coisas positivas. Ou seja, a maioria - 47% - vê um regime bom ou assim-assim. Os mesmos inquiridos acham porém que os responsáveis do regime deposto a 25 de abril - dia mais importante da história portuguesa para 59% - deviam ter sido julgados (56%); 45% que não foi feita justiça em relação aos pides (31% não sabem - saberão o que seja a PIDE?) e, não fosse aquele golpe a mandar a coisa abaixo, 55% acreditam que outr…

"Omnes discrepantes"... por Vasco Graça Moura

Esta semana, no meio de uma embrulhada confusão de razões, contra-razões e subtilezas pouco subtis, saltitando de argumentos e de posições que não lembrariam ao Diabo, pior, que não lembrariam aos engendradores do Acordo Ortográfico, ficou-se a perceber uma coisa que digo já qual é. Mas antes, seja-me permitida uma sugestão: a de que futuros negociadores do mesmo instrumento, deputados ou não, académicos ou professores, editores, tradutores ou revisores de provas, sejam reciclados através de um curso intensivo de gramática da língua portuguesa, como condição essencial para integrarem esse grupo. Agora, aí vai a conclusão que tirei e que tem o seu quê de melancolicamente lesivo da língua que falamos: nenhum ou quase nenhum dos deputados está de acordo com o acordo! Houve quem se pusesse de acordo para salvar internacionalmente a face, quem se pusesse de acordo para proteger o negócio da edição escolar, quem o fizesse em nome dos ritmos de adopção do dito nos outros países, quem o fize…

Igualdade, fraternidade, liberdade - Contra o consenso irrazoável

Um libertário de esquerda não fica feliz por ser livre sozinho, mas apenas se os outros também o forem. O socialismo tem hoje um ar fora de moda, mas vamos agora precisar mais do que nunca do socialismo e da sua defesa de uma economia que devolva às pessoas poder sobre si mesmas e não faça delas mercadoria. Porque os avanços tecnológicos podem fazer desaparecer de um momento para o outro categorias profissionais com milhões de trabalhadores; porque as tendências nos sistemas de saúde podem criar uma medicina para ricos e outra para pobres; porque a diminuição das necessidades de mão de obra em empresas muito lucrativas na área da informação cria desequilíbrios na segurança social. Podemos deixar que essas mudanças trabalhem contra nós, criando sociedades análogas às do século XIX, ou podemos pô-las a trabalhar a nosso favor, cumprindo com os velhos sonhos de partilha do trabalho com direitos, diminuição do horário de trabalho e conquista de uma vida saudável para a fruição e o desenv…

As crianças, a Bélgica e a Europa - por José Luís Ramos Pinheiro

Acontece que a lucidez e o discernimento falham com frequência perante episódios inócuos do dia-a-dia, mesmo nos adultos, quanto mais numa criança confrontada com a decisão de pôr termo à sua própria vida.  A ideia de que as pessoas possam dispor da sua vida, como se de qualquer outro bem se tratasse, parte de uma concepção de vida furiosamente individualista. Mas outorgar a uma criança uma decisão desta gravidade, converte-se em verdadeiro crime contra a humanidade.  Ainda que saudavelmente desenvolvidos, física e psicologicamente, os jovens devem esperar pela maioridade para poderem tomar com autonomia comportamentos e decisões como votar, guiar um carro, comprar tabaco ou manejar armas de fogo. Mas o legislador belga vem agora defender que uma criança gravemente doente já pode ser sobrecarregada com o fardo de decidir sobre a sua própria morte, decisão que, de resto, ninguém deveria poder tomar.  E onde estão a surgir este tipo de leis? Em países ditos civilizados: primeiro na Hol…

Acerca da legalização da eutanásia sobre menores, na Bélgica - por Luís Silva

O manto negro da morte abateu-se sobre a Europa Em 1946, Churchill declarou, num célebre discurso proferido no Missouri (EUA) do qual a história guardou uma marcante fórmula, que «uma cortina de ferro se abateu sobre o continente». Hoje, derrubada a cortina, uma nova e diáfana divisão se abate sobre a Europa, divisão que já não se faz de geografia política, mas de paradigmas éticos. Como então, também a nova cortina separa os que se julgam detentores da vida dos outros dos que consideram a vida de outrem um bem respeitável. A pergunta que valerá colocarmo-nos será, nesta hora, a que pretende saber como se pôde chegar aqui. Em que tear se teceu a cortina? «O tempo»! «O tempo» é a resposta. Tudo se conseguiu com o tempo. Vale a pena constatar que, como outrora entre os gregos, os homens revelam-se reféns do tempo, em vez de seus construtores. Na verdade, bastou dar tempo e os belgas, que em tempos foram os do grande rei Balduíno, aprovaram o impensável. Aqui se chegou com o tempo. A Bé…