Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2011

Filosofia, lógica e democracia - por Desidério Murcho

"A novidade introduzida pelos gregos da antiguidade clássica não foi a tentativa de explicar os fenómenos do mundo sem recorrer a deuses — pois muitos filósofos e cientistas eram religiosos, e recorriam a explicações de carácter semi-religioso. A novidade foi esta: os filósofos da Grécia antiga expunham as suas ideias e desafiavam os interlocutores a discuti-las livremente. Isto gerou uma novidade absoluta na história da humanidade: a cultura da liberdade intelectual. Esta liberdade está na base da universidade e da escola moderna, apesar de a realidade académica e escolar ficar demasiadas vezes aquém do ideal fundador. A liberdade intelectual permite ter uma atitude crítica, opondo-se à atitude subserviente própria da natureza humana, sempre ciente das autoridades e hierarquias. Os gregos antigos introduziram uma atitude que dificilmente floresce em sociedades fechadas: o controlo do pensamento é a primeira coisa que todo o ditador, religioso ou político, procura impor. Ao longo…

Argumentação e demonstração

“Uma dedução é um argumento que, dadas certas coisas, algo além dessas coisas necessariamente se segue delas. É uma demonstração quando as premissas das quais a dedução parte são verdadeiras e primitivas, ou são tais que o nosso conhecimento delas teve originalmente origem em premissas que são primitivas e verdadeiras; e é uma dedução dialéctica se raciocina a partir de opiniões respeitáveis.” Aristóteles
“O que é que distingue a argumentação de uma demonstração formalmente correta? Antes de tudo, o fato de, numa demonstração, os signos utilizados serem, em princípio, desprovidos de qualquer ambiguidade, contrariamente à argumentação, que se desenrola numa língua natural, cuja ambiguidade não se encontra previamente excluída. Depois, porque a demonstração correta é uma demonstração conforme a regras explicitadas em sistemas formalizados. Mas também, e insistimos neste ponto, porque o estatuto dos axiomas, dos princípios de que se parte, é diferente na demonstração e na argumenta…

"Que a liberdade ressoe" - Martin Luther King, Jr. (argumentação)

Há cem anos, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos, assinava a Proclamação da Emancipação. Esse decreto fundamental foi como um raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de uma vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para terminar a longa noite do cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, devemos enfrentar a realidade trágica de que o Negro ainda não é livre. Cem anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro continua a viver numa ilha isolada de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda definha nas margens da sociedade americana, estando exilado na sua própria terra. Por isso, encontramo-nos aqui hoje para dramaticamente mostrarmos esta extraordinária condição. Num certo sentido, viemos à capital do nosso país para desco…

Medos e Invejas - por Isabel Sá Lopes (argumentação)

"No antigo regime o medo reinava, havia medo de tudo; a ditadura amedrontava, levava a impedir a acção, a não usar as palavras escrita ou oral contra o poder instituído; todos sabiam que quem afrontasse o estado ditatorial seria preso, torturado e até assassinado.
Esse regime tenebroso e longo inculcou nos portugueses um medo atávico e apesar da queda do regime em 1974 esse medo não desapareceu. Continua a existir em relação à submissão hierárquica e embora atenuado apareceu um medo diferente.
Apareceu o medo do rival, do colega, dos candidatos ao emprego, o medo de todos os outros. Esse medo é constantemente agravado pela falta de auto-estima do povo português. Os outros, os estrangeiros são sempre melhores do que nós.
Só damos valor aos nossos depois de terem sido reconhecidos no estrangeiro.
A nossa, às vezes, excessiva simpatia com os de fora, resulta da nossa falta de auto-estima e, por vezes, demonstramos até uma certa subserviência em relação a eles.
Em Portugal os trabalh…

Validade - por Graham Priest

"A maioria das pessoas gosta de pensar que é lógica. Dizer a alguém "Não estás a ser lógico" é uma normalmente uma forma de crítica. Ser ilógico é ser confuso, desordenado, irracional. Mas o que é a lógica? Em Alice do Outro Lado do Espelho, de Lewis Carroll, a Alice encontra o lógico-maníaco par Tweedledum e Tweedledee. Quando a Alice fica sem palavras, eles atacam:
— Eu sei no que estás a pensar —, diz Tweedledum. — Mas não é assim, de alguma maneira.
— Pelo contrário —, continua Tweedledee, — se fosse assim, poderia ser assim; e se tivesse sido assim, teria sido assim: mas dado que não é, não é. É a lógica. O que o Tweedledee está a fazer — pelo menos na paródia de Carroll — é raciocinar. E, como ele próprio diz, a lógica é sobre isso. Todos nós raciocinamos. Tentamos descobrir como as coisas são raciocinando com base naquilo que já sabemos. Tentamos persuadir os outros de que algo é de determinada maneira dando-lhes razões. A lógica é o estudo do que conta como uma boa…

Crítica ao Capitalismo - por A. C. Grayling (argumentação)

O problema com o sistema de lucro sempre foi ser substancialmente pouco lucrativo para a maioria das pessoas.  E. B. White

"Poucas pessoas afirmariam, pelo menos abertamente, não desejar que todas as sociedades fossem justas e decentes. Claro que é mais fácil dizer que as sociedades deviam ser assim do que torná-las assim, especialmente numa era de capitalismo de mercado livre mundial que entrega a boa vida à maior parte dos residentes nos países industrializados avançados — países que, por conseguinte, são também o centro do poder e influência mundiais, o que faz não constituir surpresa que as virtudes do seu modo de vida económico surjam como inquestionavelmente superiores às alternativas. No Ocidente rico, é agora ortodoxo pensar que a ideologia do mercado livre ganhou a discussão — e, portanto, compreensivelmente, que o futuro, tal como o presente, lhe pertence — daí a declaração de Francis Fukuyama de que “a história chegou ao fim”. As vozes discordantes, por muito eloquentes …

Argumentação - a persuasão (por Desidério Murcho)

(...) Antes de mais, é necessário não confundir argumentos com as suas formas lógicas. Um argumento é um conjunto de afirmações em que se procura sustentar uma delas (a conclusão) por meio das outras (as premissas). A forma lógica de um argumento é apenas a sua estrutura relevante para a validade dedutiva. A própria noção de argumento enfrenta algumas dificuldades. Os argumentos não caem das árvores; não vêm empacotados como argumentos. É necessário que um agente racional agrupe um dado conjunto de afirmações com a intenção de produzir um argumento. Caso contrário, poderíamos, perante qualquer conjunto de afirmações, acusar quem as profere de estar a apresentar argumentos inválidos. É por isso que não se pode evitar dizer que um argumento é um conjunto de afirmações em que se pretende que uma delas seja sustentada pelas outras. Claro que há formas de evitar a menção explícita a um agente cognitivo (como dizer que um argumento é constituído por uma conclusão e uma ou mais premissas), m…

Sócrates - diálogo (argumentário) sobre a riqueza e o poder

(Baseado nos diálogos de Platão)

Discurso de Charles Chaplin em "O grande ditador"

Excelente discurso, com os argumentos devidamente estruturados e distribuídos, recorrendo a várias técnicas de retórica; acaba por perder grande parte do efeito pelo  ritmo demasiado elevado de palavras por minuto, pouco apoio da linguagem corporal e ênfase pobre no tom de voz.

... mais um exemplo de argumentação

EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA
CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO

"1 – O uso oral e escrito da língua portuguesa degradou-se a um ponto de aviltamento inaceitável, porque fere irremediavelmente a nossa identidade multissecular e o riquíssimo legado civilizacional e histórico que recebemos e nos cumpre transmitir aos vindouros. Por culpa dos que a falam e escrevem, em particular os meios de comunicação social; mas ao Estado incumbem as maiores responsabilidades porque desagregou o sistema educacional, hoje sem qualidade, nomeadamente impondo programas da disciplina de Português nos graus básico e secundário sem valor científico nem pedagógico e desprezando o valor da História.
Se queremos um Portugal condigno no difícil mundo de hoje, impõe-se que para o seu desenvolvimento sob todos os aspectos se ponha termo a esta situação com a maior urgência e lucidez.
2 – A agravar esta situação, sob o falso pretexto pedagógico de que a simplificação e uniformização linguística favorecer…