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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2010

110 anos do nascimento de Saint-Exupéry

"A grandeza de uma profissão é talvez, antes de tudo, unir os homens: não há senão um verdadeiro luxo e esse é o das relações humanas."
Antoine de Saint-Exupéry
O pequeno príncipe - pré-vizualização ilustrada

Hannah Arendt - Uma perspectiva feminina (do espaço público)

O espaço público, bem como as formas de a ele ter acesso e participar, têm sido modulados a partir de um entendimento predominantemente masculino. Na verdade, a questão de género está ausente da maior parte das reflexões teóricas que consideramos referenciais acerca do espaço público,(...).
Como ponto de partida, admite-se a possibilidade de a conceptualização de domínio público presente na obra de Hannah Arendt consubstanciar, pelo menos indirectamente, uma visão feminina da esfera de visibilidade. Arendt lança as bases de uma nova teoria política e pode questionar-se se a arquitectura deste edifício, pelas categorias, argumentos, experiências históricas e definições que a suportam, legitima uma interpretação especificamente feminina ou no mínimo contrastiva do espaço público e, por maioria de razão, da política e do político.
Poderemos indagar, para começar, se Arendt sequer colocou a questão da condição feminina no plano da sua história pessoal. A entrevista que concedeu a Günter Ga…

Passado, Presente, Futuro - José Saramago

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

O Futuro Sai da Fenda e da Ferida - Gonçalo M. Tavares

A geometria abre a linha para deixar passar a Imaginação.

O FUTURO sai da FENDA e da FERIDA.

Do que antes foi, hoje sai Sangue.

Inundar o VAZIO: o FUTURO inunda o VAZIO.

Porque todo o vazio tem por INIMIGO a Imaginação.

Porque todo o vazio tem o Inimigo.
Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

O interesse da mentira - Francis Bacon

«O que é a verdade»? Perguntava Pilatos gracejando, talvez que não esperasse pela resposta. Há quem se delicie com a inconstância, e considere servidão o fixar-se numa crença; há quem se afeiçoe ao livre-arbítrio tanto no pensar como no agir. E se bem que as seitas de filósofos desta espécie hajam desaparecido, sobrevivem alguns representantes da mesma família, apesar de nas veias não lhes correr tanto sangue como nas dos antigos. Não é somente a dificuldade e a canseira que o homem experimenta ao perseguir a verdade, nem sequer o facto de, uma vez encontrada, se impor aos pensamentos humanos, o que leva a conceder às mentiras os maiores favores; é sim, um natural mas corrompido amor da própria mentira. Uma das últimas escolas dos Gregos examinou esta questão, mas deteve-se a pensar no que leva o homem a armar as mentiras, quando não o faz por prazer, como os poetas, ou por utilidade, como os mercadores, mas pelo próprio mentir.
Não sei como dizê-lo, mas a verdade é uma luz nua e crua…

Retrato do poeta quando jovem - José Saramago

Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.


José Saramago

Poema à boca fechada - José Saramago

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
José Saramago

Internet: como funciona?

Acabou o ano lectivo. Temos agora tempo para tratar de outros assuntos (igualmente importantes e interessantes) mais ou menos marginais ao programa de Filosofia. Uma das coisas que mais me intriga é a capacidade que o ser humano tem de lidar com as coisas quando desconhece quase por completo os princípios que as sustentam. Todos usamos a internet mas grande parte de nós não percebe exactamente "aquilo" que permite a sua existência. Na secção final desta página do nosso blog, nos vídeos em destaque, temos dois filmes a não perder que nos poderão ajudar a compreender esta "teia". F.Lopes

Morreu José Saramago

"A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras." José Saramago, As Intermitências da Morte, Ed. Caminho.
Agora, Saramago já sabe se estava enganado ou, se não sabe, tinha razão. Consumatum est.
Hoje não se falará de Portugal por causa de um CR7 ou por causa de um buraco de euros e de miséria. É preferível para o país de Camões. Saramago talvez seja dos últimos intelectuais verdadeiramente "comprometidos" que tivemos. Personalidade talhada. Cínico, cítrico e às vezes doce. Muitas vezes pensei em desacordo com ele: defendia uma ideia de sociedade que não foi inocente, não foi justa, foi muitas vezes violenta e também, como outras, fez massacres. Como actor na sociedade fez asneiras e contribuiu para outras, como todos. Como todos também fez coisas certas e até belas. Como escritor nem sempre terá sido excelente (não sou ninguém para afi…

Filosofia e actualidade

As grandes questões metafísicas como o ser e o não ser, a existência de Deus e de um princípio fundamental de onde tudo derive, estão imbuídas, pela sua natureza intrínseca, de improficuidade, ou seja, não são passíveis de solução no âmbito dos preceitos da razão e do raciocínio lógico. Poder-se-á afirmar que a enunciação das questões é por si motivo de regozijo para os metafísicos, mas convenhamos que as dúvidas só são fermento de saber quando esclarecidas.
A natureza transcendente das perguntas metafísicas parecem só deixar espaço para elocuções filosóficas e retóricas cujo conteúdo se fecha em si próprio e impede outras saídas para o conhecimento. Tudo indica caber à ciência a responsabilidade pelo progresso da humanidade, a melhoria das condições de vida do ser humano, a solução para as questões do factor primordial do universo e da fronteira entre a vida e a morte.
Pode caber à filosofia a definição de fronteiras mais nítidas entre a moral e os códigos de valores de forma a defi…

Exames Nacionais 2010

Começaram os Exames Nacionais do Ensino Secundário. Poderás consultar aqui nesta ligação ao GAVE informação relevante (informações, as provas e as matrizes de correcção), bem como na página EDUCAÇÃO.TE.PT

Que o trabalho e esforço que fizeste sejam devidamente acompanhados com os merecidos resultados!

Serei eu vários trazidos de outros mundos? - Fernando Pessoa

Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo,
E a noite chega sem que eu saiba bem,
Quero considerar-me e ver aquilo
Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo
Que fui quem foi aquilo em torno meu,
Salvo o que o vago e incógnito desejo
De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
Minha atenção sobre quem fui de mim,
E nada de verdade em mim albergo
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
Segui por dois caminhos par a par.
Fui com o mundo, parte da paisagem;
Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
Que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
Vários trazidos de outros mundos, e
No mesmo ponto espacial sensível
Que sou eu, sendo eu por estar aqui?

Serei eu, porque todo o pensamento
Podendo conceber, bem pode ser,
Um dilatado e múrmuro momento,
De tempos-seres de quem sou o viver?

Fernando Pessoa - 1-8…

Ser é simplesmente existir - Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas—a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

Fernando Pessoa - “Poemas Inconjuntos”. (Alberto Caeiro)

Estar só - Fernando Pessoa

Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada. Fernando Pessoa - Poesias Inéditas (1930-1935)

Pensamentos em torno de uma corda - por Jessica Ferreira (11º ano)

Decidi dedicar-me à observação da sombra de uma corda, num dia que se podia dizer “ensolarado”. A primeira impressão foi singela e até algo simplista. A sombra da corda no chão parecia uma recta algo suspensa no ar, quieta, sem se movimentar. Concluí que o meu estudo poderia não ser suficientemente racional. Contudo, decidi prosseguir. A claridade é considerada o porto seguro do Homem. Como seres pensantes, honoramos a nossa inteligência e glorificamos as nossas descobertas. O nosso “destino” é desvendar as soluções de paradigmas e problemas que nos assaltam o génio. Encontramos nessas mesmas resoluções o escudo protector no campo de batalha que é a vida. Tudo o que pertença à obscuridade e ao desconhecido é factor repugnante. A nossa sombra repugna-nos. Então qual será a necessidade de a termos? Há pelo menos um facto irrefutável: é única coisa que nos pertence, desde o dia em que respiramos o primeiro ar até ao dia em que suspiramos pela última vez. Além disso, admitamos, é original…

BREVE REFLEXÃO A PROPÓSITO DAS REPÚBLICAS

Daqui a uns anos, talvez os historiadores, ao debruçarem-se sobre os acontecimentos que marcaram a nossa vida colectiva neste princípio de século, entre si acordem perspectivá-los numa temática intitulada “a mentira na verdade política”.
E nem valerá a pena, parece, estar a demonstrar, com meia dúzia de exemplos, as razões de tal opção. De facto, a propósito da denominada crise (económica, social, institucional) mas já muito antes dela, se juntarmos falseadoras promessas eleitorais com segredos políticos só desvendados pelos jornais, pormenores de vida ocultados com escabrosas cumplicidades de quem menos se esperaria mantê-las, cínicas justificações para a frente com hipócritas desculpas para trás, de tudo encontramos numa amálgama não raro polvilhada de ridículo. Os pilares da certeza e eficácia do Direito – que o mesmo é dizer os pressupostos da liberdade numa sociedade democrática – passaram a ser encarados com maior dúvida, se não com suspeição, à medida foram acumulando as denún…

Dia Mundial do Ambiente - 5 de Junho

O tema do Programa das Nações Unidas para o Ambiente definido para Dia Mundial Ambiente 2010 é "Muitas espécies. Um planeta. Um futuro". Este tema reflecte o apelo em prol da conservação da diversidade de vida no nosso planeta. Milhões de pessoas e milhões de espécies dividem o mesmo planeta e se agirmos juntos poderemos todos desfrutar de um futuro mais próspero e seguro. http://www.apambiente.pt/Paginas/default.aspx

A SOMBRA SOU EU - ALMADA NEGREIROS

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei dó que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e que não me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!
Almada Negreiros

Somos sombras de quem somos - Fernando Pessoa (1934)

Neste mundo em que esquecemos Somos sombras de quem somos,
E os gestos reais que temos
No outro em que, almas, vivemos,
São aqui esgares e assomos.

Tudo é nocturno e confuso
No que entre nós aqui há.
Projecções, fumo difuso
Do lume que brilha ocluso
Ao olhar que a vida dá.

Mas um ou outro, um momento.
Olhando bem, pode ver
Na sombra e seu movimento
Qual no outro mundo é o intento
Do gesto que o faz viver.

E então encontra o sentido
Do que aqui está a esgarar,
E volve ao seu corpo ido,
Imaginado e entendido,
A intuição de um olhar.

Sombra do corpo saudosa,
Mentira que sente o laço
Que a liga à maravilhosa
Verdade que a lança, ansiosa,
No chão do tempo e do espaço.

Fernando Pessoa - 9-5-1934

Uma questão de Tempo (o modelo do relógio) - por Liliana Ramalho (11ºano)

A diversidade no Mundo aumenta quando há um nascimento. Surge uma nova pessoa, diferente dos biliões que já existem, com novas ideias, outros pontos de vista e diferentes atitudes. Todos nascemos e a partir desse momento começamos a conhecer e a explorar o que nos rodeia. As crianças são o exemplo perfeito de como a nossa vida devia ser guiada pelo espanto ao longo dos dias.
Um dia corre atrás do outro, mas todos são diferentes e tão curtos que para os usufruirmos devíamos vivê-los como se fossem os últimos, sem deixar nada por fazer ou por dizer, pois tudo tem o seu momento para acontecer.
Mas, se o Homem nasce com esta atitude aberta perante a novidade, como é que com o passar dos anos vai caindo numa "nostalgia" que o preenche mais que o próprio dia?
A vida da sociedade no decorrer deste século vai-se moldando a um relógio.
Segundo este modelo, a pessoa nasce e o tempo começa a contar. Nos primeiros anos, quando se é criança/jovem a vida tem significado. Nesta fase as pesso…