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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2011

A Racionalidade Irracional - Direitos Humanos, por José Saramago

"Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno. Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, r…

Dia Mundial de África (em defesa dos direitos Humanos)

A 25 de Maio é celebrado o Dia de África, celebrando a criação da Organização de Unidade Africana (OUA) no ano de 1963. A carta que funda a OUA foi assinada em Addis Abeba, na Etiópia, por 32 estados africanos, constituindo-se no mais importante compromisso político dos seus líderes, acelerando o fim da colonização do continente. A OUA traduz a vontade dos africanos responderem de forma organizada e solidária, aos múltiplos problemas com que se defrontam para reunir as condições necessárias à construção de um futuro mais digno e mais justo para os filhos de África. Hoje lembramos a trajectória económica, política e de direitos humanos de todo o continente lembrando em simultâneo o que falta para se chegar à meta de uma África capaz de concretizar os sonhos de "liberdade, igualdade, justiça e dignidade" para todo o seu Povo.
N.b. -  Etimologicamente o termo "África" derivará provavelmente de Avringa ou Afri, uma tribo nómada que habitou a zona norte deste continen…

"Tertúlias à Quarta" com Marcelo Rebelo de Sousa

Tal como já foi anunciado, no próximo dia 8 de Junho, às 21h vai decorrer a última Tertúlia à Quarta deste ano lectivo. Teremos entre nós o Político e Professor Catedrático Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, que nos virá ajudar a encontrar a resposta à questão: «É ainda possível a relação entre a Ética e a Política?». O actual panorama de pré-campanha eleitoral, com tudo quanto nos é dado ver e ouvir, certamente estará a criar um cultivo intelectual de suporte a esta pergunta que esperamos ver respondida.  Chamamos a vossa atenção para a mudança de local onde decorrerá a Tertúlia. Desta vez, e dada a previsão de uma participação acrescida, a sessão decorrerá no Auditório do Seminário de Santa Joana Princesa e não no CUFC, como antes foi anunciado. A entrada é livre. As pessoas que não puderem assistir e participar presencialmente poderão fazê-lo via Online AQUI.

Ecologia e Direitos

"A ligação íntima entre o direito, a justiça e o valor que prevalece na cultura ocidental reserva só para a esfera humana a usufruição de direitos que se inscrevem no contexto igualitário da reciprocidade entre direitos e deveres, implicada pela posse de uma condição ontológica comum. Assim, pertencer à esfera humana mesmo nos casos em que claramente esse condição é limitada por factores genéticos, fisiológicos, psicológicos ou sociais (doenças mentais, condição de extrema privação psicossocial, estado embrionário ou fetal do ser, etc.), é condição suficiente para participar das leis da reciprocidade moral e jurídica que regulam as trocas humanas, na medida em que se pressupõe, em todos estes casos, um potencial de humanidade que, por uma razão ou por outra, foi impedido de se realizar.
 Como integrar o animal nesta comunidade de direito(s)? A questão é tanto mais complexa quanto, na natureza, não existem direitos. O leão não interfere com os “direitos” da gazela quando a mata par…

A crise que se esconde na crise - Luís Silva

(A propósito do texto "Uma crise planetária da educação - Martha Nussbaum")
Estamos na época das cerejas e até as conversas se deixam embalar de outro modo. Num destes dias, no desenovelar das conversas de fim de tarde, fui interpelado a ler um artigo de Martha Nussbaum, publicado no Courrier Internacional, com a quase ameaça de que era obrigatório, por nele se repercutir muito do conteúdo de conversas havidas sobre os desvios a que tem sido votado o mundo da educação. E, se há encontros que mudam rumos, há textos, palavras e linhas de pensamento partilhadas que são como que encontros. Este artigo merece tal epíteto. Martha Nussbaum, uma pensadora norteamericana, sustenta, resumidamente, que estamos a assistir a uma crise mundial. Não aquela que toda a imprensa e a falta de pecúlio ao fim do mês nos tornam patente. Antes, uma outra que esta pode reforçar e, mesmo, perpetuar: a da educação. A autora não tem medo das palavras: «falo da que, apesar de passar despercebida, …

Uma crise planetária da educação - Martha Nussbaum

Atravessamos actualmente uma crise de grande amplitude e de grande envergadura internacional. Não falo da crise económica mundial iniciada em 2008; falo da que, apesar de passar despercebida, se arrisca a ser muito mais prejudicial para o futuro da democracia: a crise planetária da educação.
Estão a produzir-se profundas alterações naquilo que as sociedades democráticas ensinam aos jovens e ainda não lhe aferimos o alcance. Ávidos de sucesso económico, os países e os seus sistemas educativos renunciam imprudentemente a competências que são indispensáveis à sobrevivência das democracias. Se esta tendência persistir, em breve vão produzir-se pelo mundo inteiro gerações de máquinas úteis, dóceis e tecnicamente qualificadas, em vez de cidadãos realizados, capazes de pensar por si próprios, de pôr em causa a tradição e de compreender o sentido do sofrimento e das realizações dos outros.
De que alterações estamos a falar? As Humanidades e as Artes perdem terreno sem cessar, tanto no ensino pr…

De que vale...

De que vale um protesto sem causa?
De que vale uma vírgula sem pausa?
De que vale um momento sem nunca o sentir?
De que vale uma ponte sem leito?
De que vale uma luta sem ter peito?
De que vale um abraço sem o repartir?

Quantas vezes parar não é desistir...
Só ficar a ouvir!
Quantas vezes esquecer não é pra fugir
Quantas vezes calar não é
consentir...
Só parar pra ouvir! Quantas vezes sorrir... (não é a fingir)!

De que vale o avesso sem direito?
De que vale o remédio sem efeito?
De que vale ter a força sem o arremesso?
De que vale a partida sem destino?
De que vale o ninar sem ter menino?
De que vale o final sem o começo?

Canto do Vigário (Ouve aqui)

Sugestão para um serão - Noite dos Museus (Aveiro)

Boaventura Sousa Santos - Em busca da cidadania global

Entrevista
(Português do Brasil)

Nesse momento da nossa história, como o senhor avalia a participação da sociedade civil na construção de um novo mundo? Em primeiro lugar, vale a pena esclarecer o que chamamos de “sociedade civil”. Na tradição ocidental, esse conceito ajudou a definir os espaços democráticos da ação dos cidadãos, mas também os espaços de exclusão daqueles que não eram considerados cidadãos, como as mulheres, os trabalhadores, os negros, os indígenas... Portanto, de acordo com esse conceito original, muita gente ficou de fora da cidadania.
E qual é o conceito hoje? Nos anos 80, emergiu a proposta “neoliberal” de desenvolvimento, que nos conduziu ao atual modelo de globalização. Temos que ter em mente que esse modelo apoiou muito a idéia de sociedade civil, devolvendo-lhe competências que estariam indevidamente nas mãos do Estado. Condenou-se o controle estatal de empresas públicas e do sistema de previdência social, saúde, educação... Dessa forma, se fortaleceu um conceit…

Comércio Justo - Ética no dia-a-dia

Comércio Justo (CJ) é um movimento social e económico que pretende construir uma alternativa ao comércio convencional. Ao contrário deste, que tem em conta apenas critérios económicos, o CJ rege-se também por valores éticos que incluem aspectos sociais e ambientais. Significa colocar o comércio, quer de produtos quer de serviços, efectivamente ao serviço das pessoas, buscando o desenvolvimento sustentável das comunidades locais e do mundo como um todo. O que implica, antes de mais, um trabalho digno para todas as pessoas envolvidas e a adequação das actividades económicas às suas necessidades e aos seus interesses.
Igualmente essencial no CJ é a sensibilização das/os consumidoras/es para os desequilíbrios e injustiças do comércio internacional e para os impactos que as nossas decisões de compra têm sobre as condições de vida não só na nossa região/ nosso país, mas também noutras partes do mundo. Significa que cada um de nós, enquanto consumior/a e elo final de qualquer cadeia comercial…

Ecologia e direitos humanos

De acordo com os resultados obtidos pelo estudo da Gallup International, a população mundial é praticamente unânime nas suas críticas aos governos no que concerne à protecção do ambiente. Dois terços dos cerca de 1,25 mil milhões de inquiridos representados no maior painel mundial até hoje realizado, diz que os governos fazem muito pouco para resolver os problemas ambientais no seus países. Apenas em cinco deles (Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia e Islândia) a maioria concorda numa apreciação positiva quanto à actuação dos respectivos governos.
Uma das principais conclusões deste painel refere a crescente preocupação pelo meio ambiente no seio dos eleitores, já que em apenas três países (Arménia, Camarões e Hong Kong) uma pequena maioria de 56% da população considerou que o crescimento económico é mais importante do que a protecção do meio ambiente. Porém, nos países onde a população se sente insatisfeita tanto com o governo como com a situação do ambiente, exemplo das economias s…

"O Estado é bom educador?" - Tertúlia - entrada livre - 21h

EcoÉtica - o novo Paradigma Ético: o "Princípio da Responsabilidade"

"As bombas atómicas e suas consequências foram, no entender de Hans Jonas, o que “pôs em marcha o pensamento em direcção a um novo tipo de questionamento, amadurecido pelo perigo que representa para nós próprios o nosso poder, o poder do homem sobre a Natureza”. Percebeu também que, além do choque agudo sofrido, se iniciaria uma crise crónica e gradual decorrente do perigo crescente dos riscos do progresso da tecnociência e seu uso perverso.
Kant dizia: “Age de tal modo que possas querer também que a tua máxima se converta em lei universal”. O “poder querer” pressupõe não uma moral mas que seres dotados de razão e capacidade de acção a pensem sem auto-contradição, logo, com perfeita concordância e harmonia lógica, podendo ser aplicada universalmente à comunidade.
Hans Jonas, tendo Kant por referência, apresenta imperativos para o novo tipo de acções em reflexão:
“Age de tal modo que os efeitos da tua acção sejam compatíveis com a permanência duma vida humana autêntica na Terra”
ou
“Ag…

Filosofia nos exames nacionais (Diário da República, 2.ª série - N.º 84 - 2 de Maio de 2011)

índice de Felicidade Interna Bruta - por Leonardo Boff

Butão é um pequeníssimo reinado hereditário nas encostas do Himalaia, espremido entre a China, a Índia e o Tibet. Não tem mais que dois milhões de habitantes, cuja maior cidade é a capital Timfú com cerca de cinquenta mil moradores. Dentro de poucos anos está ameaçado de quase desaparecer caso os lagos do Himalaia que se estão enchendo pelo degelo transvasem avassaladoramente. Governado por um rei e por um monge que possui quase a autoridade real, é considerado um dos menores e menos desenvolvidos  países do mundo. Contudo, é uma sociedade extremamente integrada, patriarcal e matriarcal simultaneamente, sendo que o membro mais influente se transforma em chefe de família.  Butão possui algo único no mundo e que todos os países deveriam imitar: o "índice de felicidade interna bruta". Para o rei e o monge governante o que conta em primeiro lugar não é o Produto Interno Bruto medido por todas as riquezas materiais e serviços que um pais ostenta, mas a Felicidade Interna Bruta, r…