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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2013

As Três Espécies de Portugueses - Fernando Pessoa

Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.  Outro é o português que o não é. Começou com a invasão mental estrangeira, que data, com verdade possível, do tempo do Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a República. Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido. Há um t…

O sentido da vida - Kurt Baier

Há muitas coisas que um homem pode fazer, tais como comprar e vender, contratar trabalhadores, lavrar a terra, derrubar árvores, etc., que serão tolas, sem sentido, tontas e talvez loucas se não tivermos qualquer propósito em vista ao fazê-las. Um homem que faz estas coisas sem qualquer propósito estará a entregar-se a tarefas inanes e fúteis. Vidas preenchidas com tais actividades sem propósito serão destituídas de razão de ser, fúteis e sem valor. Tais vidas podem realmente ser consideradas sem sentido. Em contraste, ter ou não ter um propósito, na outra acepção, é algo neutro quanto ao valor. Não prezamos mais ou menos uma coisa por ter ou não um propósito. "Ter um propósito", neste sentido, não confere qualquer prestígio, e "não ter um propósito" não acarreta qualquer estigma. Uma fila de árvores perto de uma quinta pode ter ou não um propósito: pode servir ou não para cortar o vento, as árvores podem ter sido ou não plantadas naquele local ou ali deixadas prop…

Arte e prazer - Gordon Graham

A visão comum de que a arte se encontra no prazer que dela obtemos foi considerada deficiente em vários aspectos. Primeiro, não é claro que o que é em geral visto como o melhor na arte seja, excepto para aqueles "laboriosamente preparados para o desfrutar", uma verdadeira fonte de diversão. Segundo, se o valor da arte é o prazer, isso faz com que seja quase impossível explicar as várias discriminações que são estabelecidas entre, e no interior de várias obras e formas de arte. Terceiro, é difícil ver como é que a teoria do prazer poderia sustentar os tipos de distinções avaliativas feitas entre arte e não-arte nas instituições culturais e educacionais da nossa sociedade. Podemos tentar remendar a teoria do prazer falando de prazeres mais elevados, ou distintamente estéticos. Mas, na verdade, nenhuma dessas distinções parece ser sustentável. Mesmo se substituirmos o prazer estético por uma concepção kantiana de beleza, somos conduzidos na direcção errada, nomeadamente em dire…

As Notícias São o Contrário da Vida - por MEC

As notícias são o contrário da vida. Uma notícia é uma novidade; é uma excepção. Mas a pergunta mais difícil (provocando a resposta mais interessante) é: "São uma excepção a quê?"  A noção corrente, idiota, é que "cão morde homem" não é notícia, mas que "homem morde cão" é. Mentira. A grande maioria dos cães não morde as pessoas. E quando há uma pessoa que morde um cão não só é raro, como desinteressante.  Atrás - ou à frente - desta simplificação está a questão bastante mais importante de como se dão os cães e os homens. As mordeduras são episódios pouco representativos e facilmente explicáveis, sem explicarem nada.  Um psicopata assassina muitas pessoas. É uma notícia. Mas que nos diz dos noruegueses? Nada. Que nos diz sobre o comportamento dos europeus? Nada.  A realidade é o contrário da notícia. A notícia é histriónica e histérica, separada da normalidade, que nunca é unívoca ou definidora. Existem dois impulsos. O mais antigo é realçar a surpresa e…

A filosofia não é "adversarial" - por Richard E. Creel

Porque em filosofia argumentamos uns com os outros sobre questões filosóficas é natural pensar que a filosofia é um processo "adversarial" [antagónico] como dois advogados (o de acusação e o de defesa) que argumentam um contra o outro num tribunal. Contudo, há duas razões pelas quais esta comparação dos filósofos com os advogados não é boa. Em primeiro lugar, o objectivo de cada advogado é ganhar a causa do seu cliente — quer o seu cliente esteja inocente quer não. Pelo contrário, o objectivo de dois filósofos que se encontrem a argumentar um com o outro é chegar à verdade — seja ela qual for e seja quem for que tenha razão. Como um estudante afirmou, eloquentemente, o objectivo de cada advogado é ganhar a causa, quer ele tenha a verdade quer não, ao passo que o objectivo de cada filósofo é chegar à verdade, quer ele ganhe o argumento quer não. (Sendo os filósofos seres humanos, nem sempre são assim tão imparciais, mas o ideal é este.) Em segundo lugar, num julgamento há uma…

Cidadania liberal e cidadania republicana- por Jürgen Habermas

Segundo a concepção liberal, o estatuto dos cidadãos define-se pelos direitos subjectivos de que dispõem diante do estado e dos demais cidadãos. Como portadores de direitos subjectivos, os cidadãos contam com a protecção do estado desde que defendam os seus próprios interesses nos limites impostos pela lei — e isso refere-se igualmente à defesa contra intervenções estatais que excedam a ressalva intervencionista prevista na lei. Os direitos subjectivos são direitos negativos que garantem um âmbito de escolha dentro do qual os cidadãos estão livres de coacções externas. Os direitos políticos têm a mesma estrutura. Oferecem aos cidadãos a possibilidade de fazer valer os seus interesses particulares, ao permitir que possam ser agregados a outros interesses privados (por meio de eleições, da composição do parlamento e do governo) até que se forme uma vontade política capaz de exercer uma efectiva influência sobre a administração. Dessa maneira, os cidadãos, como membros do estado, podem …

O que é uma pessoa? - por Peter Singer

É possível dar à expressão "ser humano" um significado preciso. Podemos usá-la como equivalente a "membro da espécie Homo sapiens". A questão de saber se um ser pertence a determinada espécie pode ser cientificamente determinada por meio de um estudo da natureza dos cromossomas das células dos organismos vivos. Neste sentido, não há dúvida que, desde os primeiros momentos da sua existência, um embrião concebido a partir de esperma e óvulo humanos é um ser humano; e o mesmo é verdade do ser humano com a mais profunda e irreparável deficiência mental — até mesmo de um bebé anencefálico (literalmente sem cérebro). Há outra definição do termo "humano", proposta por Joseph Fletcher, teólogo protestante e autor prolífico de escritos sobre temas éticos. Fletcher compilou uma lista daquilo a que chamou "indicadores de humanidade", que inclui o seguinte: Autoconsciência Autodomínio Sentido do futuro Sentido do passado Capacidade de se relacionar com outr…

Deixar de Ser

«Ganhamos o hábito de viver, antes de adquirirmos o de pensar. Nesta corrida, que todos os dias nos precipita um pouco mais para a morte, o corpo guarda esse avanço irreparável.» Albert Camus, O Mito de Sísifo – Ensaio sobre o absurdo, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 17.
Nesta frase o filósofo argelino desperta-nos para a seguinte questão: só alguns anos depois de vivermos, de comermos, de respirarmos, de andarmos, etc., é que surge o espanto e ao mesmo tempo o “convite” para reflectirmos sobre isso que fazemos habitualmente ou mesmo mecanicamente. Isto é, a atitude do reflectir, do pensar, do olhar o mundo com “outros olhos” – e que desperta uma certa estranheza em relação ao próprio – só surge muito tempo depois de começarmos a viver. E porquê? Porque é que as duas actividades não surgem no mesmo instante e quando se dá o nascimento? Aliás, se de facto é a alma que comanda o corpo – como já diziam alguns filósofos gregos – como se explica que a faculdade superior da alma (que é o…

O Maior Triunfo do Homem - Fernando Pessoa

O maior triunfo do homem é quando se convence de que o ridículo é uma coisa sua que existe só para os outros, e, mesmo, sempre que outros queiram. Ele então deixa de importar-se com o ridículo, que, como não está em si, ele não pode matar.  Três coisas tem o homem superior que ensinar-se a esquecer para que possa gozar no perfeito silêncio a sua superioridade - o ridículo, o trabalho e a dedicação.  Como não se dedica a ninguém, também nada exige da dedicação alheia. Sóbrio, casto, frugal, tocando o menos possível na vida, tanto para não se incomodar como para não aproximar as coisas de mais, a ponto de destruir nelas a capacidade de serem sonhadas, ele isola-se por conveniência do orgulho e da desilusão. Aprende a sentir tudo sem o sentir directamente; porque sentir directamente é submeter-se - submeter-se à acção da coisa sentida.  Vive nas dores e nas alegrias alheias, Whitman olímpico, Proteu da compreensão, sem partilhar de vivê-las realmente. Pode, a seu talante, embarcar ou fic…

Cegos - Saramago

“O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está a falar, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, sou um cego, é o que temos aqui. Então perguntou o velho da venda preta, Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira. Ninguém lhe soube responder. (...)
Porque foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem"
in "Ensaio Sobre a Cegueira" José Saramago

O que é a consciência moral? por José Ferrater Mora

«Os filósofos investigaram [...] em que sentidos se pode falar de uma voz da consciência e, sobretudo, qual é [...] a origem de tal “voz”.
[...] São Tomás [de Aquino] fala da consciência moral como um “espírito que corrige e orienta a alma”, espírito que indica se um acto é justo ou não. [...] Filósofos modernos, como os empiristas ingleses [...] referiram-se à consciência moral como uma sançãocorrectora dos nossos actos (ou como a ideia antecipada de tal sanção). A partir de Wolff e Kant a consciência moral foi interpretada, cada vez mais, como uma faculdade que julga a moralidade das nossas acções.
[...] Vários autores [...] tenderam a identificar a consciência moral com o sentimento moral [...]. Mais recentemente a concepção da consciência moral seguiu fielmente as linhas gerais das correspondentes doutrinas éticas: [...] Os intuicionistas éticos basearam-na na chamada intuiçãomoral; os utilitaristas definiram-na em função do bem-estar da maioria, etc. [...] Scheler considerou que…

Auto-regulação da Profissão Docente - por Miguel Alexandre Palma Costa

O que significa o termo deontologia? Do grego déon, déontos, “o que é necessário, o que é certo” + logia , “ciência, estudo, reflexão, palavra ou discurso”. De forma simplista, é a moral ou ética de uma profissão. Neste caso, referimo-nos à ética/moral da profissão docente, e deverão ser estes docentes os principais actores na gestão da sua própria carreira. Ora, e que condições se exigem para tal? Concisamente, maior autonomia e mais poderes para o professor. E o que significa “autorregulação”? O termo relaciona-se com a capacidade que os professores ou um organismo autónomo devem ter para definirem as normas profissionais, estipularem direitos e deveres para a classe docente. Segundo o pedagogo, educador, professor, psicanalista e escritor brasileiro Rubem Alves (n. 1933), “ensinar é um exercício de imortalidade”, e tal é atestado, por exemplo, pela imagem do professor, aquele na verdadeira acepção da palavra, que ficará sempre gravada e na mente dos seus alunos. Nesta perspectiva, …

Propriedades do discurso - por Hermann Parret

Independentemente do modelo, seja ele congeminado em "percurso generativo" (pensemos na gramática generativa de Chomsky ou na semiótica de tipo greimasiano) ou seja ele plano/linear ( como na linguística estrutural ou na lógica aristotélica), deve poder dar conta das seguintes propriedades do discurso. a) O discurso é "contextualmente" marcado: o discurso é "histórico" no sentido em que o sujeito enunciador está espacio-temporalmente localizado e modificado pelas forças psicossociais que caracterizam uma época. Michel Foucault era particularmente sensível a esta propriedade. Segundo Foucault, o discurso é "um conjunto de regras anónimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço que definiram numa determinada época, e para uma área social, económica, geográfica ou linguística dadas, as condições do exercício da função enunciativa". Que a língua (saussuriana) seja "eterna" ou que a forma semi-narrativa seja "transcend…

O mundo de Sofia

Discurso do Presidente do Uruguai na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio+20

Necessidade e verdade - por Desidério Murcho

De profundis - António Lobo Antunes

A minha relação com Deus tem sido sempre tumultuosa, cheia de desacordos e discussões: longos períodos em que me afasto, alturas em que me aproximo, amuos, quase insultos, discussões. Creio firmemente que, nos livros que escrevo, é Ele que guia a minha mão e não passo de um instrumento da Sua vontade Para a Rita e para o Henrique, na alegria e na dor O meu pai tinha quatro irmãs mais novas e um irmão que morreu pequenino, de meningite, por volta da idade em que tive essa doença. Parece que comecei com muita febre e horas depois estava em coma. Inexplicavelmente sobrevivi. Há de certeza pessoas que, pelo que vou dizer, me acharão tonto, mas ninguém me tira da cabeça que Santo António me salvou. E lá me levaram, aos sete anos, a Pádua, tocar no túmulo do Santo e fazer a primeira comunhão. A minha relação com Deus tem sido sempre tumultuosa, cheia de desacordos e discussões: longos períodos em que me afasto, alturas em que me aproximo, amuos, quase insultos, discussões. Creio firmemente …

O Sentido da Vida - António Lobo Antunes

Apetecia-lhe que alguém lhe falasse. Tivera uma mulher em tempos. Recordava-se dos suspiros dela, dos dedos magros a moverem as coisas. Uma tarde não a encontrou. Deixou um vestido no cabide, um vestido antigo, com pintinhas. Um cabelo no esmalte do lavatório. Um gancho na mesa" Costumava ir ao cemitério visitar a minha mãe mas, por não ter a certeza de qual era a campa, dado não existirem lápides naquele talhão, apenas números na ponta de hastes de ferro, sentava-se por ali, numa saliência a jeito, e ficava a olhar a terra e as árvores ou um dos cachorros que, de quando em quando, passavam por ele, a murmurarem, seguindo um fio de cheiro lá deles. Ao longe oliveiras e, mais longe, depois de um murozito, uma ou outra ruína antes do mar. A mãe devia estar por perto, muito calada, sob um dos tufos de ervas ou, se calhar, era agora um tufo de ervas que às vezes suspirava com o auxílio do vento. Aos setenta anos tanto lhe fazia, mas sentia-se quase eterno a imaginar que a escutava. …

O assédio do verão

O assédio do verão, as rolas dos pinheiros, a risca de sal
das areias; às vezes
chovia – então um barco
de borco era o abrigo,
era o amigo; a chuva abria
o aroma dos fenos, não tardava
o sol em cada sílaba.

Eugénio de Andrade in: Rente ao Dizer (1992)

Liberalismo e austeridade - por José Maria B. de Brito

A austeridade é uma espécie de ponto de concentração de toda a teoria económica do liberalismo, um concentrado de toda a sua insensibilidade social, que começa pela ideia de que o desemprego é voluntário e, mais recentemente, se manifesta numa espécie de fúria contra o estado social.  Em Portugal, a austeridade está a atingir o seu apogeu quando se começam a notar fissuras entre os seus mais estrénuos defensores. Há um momento em que a insensibilidade social tem um limite: quando a sociedade assume colectivamente que não pode pagar mais e que as penalizações a que está a ser sujeita exorbitam o razoável. A partir daí o liberalismo não tem respostas. Em boa verdade, a austeridade está a ter, um pouco por toda a parte, efeitos devastadores, destruindo ou desfazendo tudo o que se encontra na sua proximidade e todos aqueles que a manipulam. É assim na Grécia, em Portugal, em Espanha, em Chipre e, possivelmente, o que vai acontecer em Itália. E não se pense que é por muito se acreditar, ou…

Estão sentados quase lado a lado - Eugénio de Andrade

Estão sentados quase lado a lado no chão à espera que passe um barco,
a luz muito quieta
no regaço

como se fora um gato, o sorriso
antigo, a casa
à beira do crepúsculo
atenta aos passos nas areias;

era outra vez Abril,
chovia no jardim, já não chovia,
um aroma, apenas um aroma,
tornava espesso o ar.

Uma criança me leva rio acima.

Eugénio de Andrade  in: Contra a Obscuridade (1988)

Emoções e racionalidade - por Tomás Carneiro

a) Julgo que muita da resistência que temos em atribuir racionalidade a algo como um sentimento emocional
tem origem na vetusta dicotomia que separa razão de emoção, colocando a primeira no lado da mente e a segunda no lado do corpo. Como tal, aquilo que dissermos acerca da racionalidade cognitiva das emoções e das protoemoções reflectirá certamente aquilo que pensamos acerca do problema mente-corpo. Nesse sentido acredito que nada nos diz, ou antes, só a nossa intuição comum nos diz, que um pensamento tem de ser um estado mental abstracto e separado do corpo, e a minha intuição é de que essa intuição comum está errada. Nesse sentido defendo que os seres humanos de alguma forma sentem aquilo que pensam e como tal um pensamento deverá ser entendido como uma espécie de sentimento avaliador corporizado. Tal não implica que se possa falar da racionalidade intrínseca desse sentimento avaliador, pois para isso teríamos de entrar no campo das condições normativas de avaliação, ou seja, das a…

Da arte de persuadir - Pascal

«A arte de persuadir tem uma relação necessária com a maneira com que as pessoas consentem naquilo que se lhes propõe, e nas condições das coisas em que se quer que elas acreditem. Ninguém ignora que existem duas entradas por onde as opiniões são recebidas na alma, que são o seus dois principais poderes: a inteligência e a vontade. A mais natural é a inteligência, porque só se poderiam admitir as verdades demonstradas; mas a que mais frequentemente se acolhe, ainda que contra a natureza, é a da vontade, porque todos os homens são quase sempre lavados a crer não no que é provado, mas no que lhes agrada. Esse é um caminho rasteiro, indigno e estranho: também toda a gente o desaprova. Cada qual faz profissão de não acreditar e mesmo de não gostar senão do que merece crédito. Aqui não me refiro às verdades divinas, que eu não poderia sujeitar à arte de persuadir, já que elas estão infinitamente acima da natureza: só Deus as pode colocar na alma, e pela maneira que lhe apraz. […] E daí pa…