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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2014

Dizer Não - Vergílio Ferreira

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.  Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.  Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.  Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.  Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, a…

A CPLP e o futuro . por Adriano Moreira

Não vale a pena recordar as origens da CPLP nem a sua filosofia e propósitos de origem portuguesa, porque de facto foi o Brasil que a tornou viável e efectiva, com a intervenção brilhante e mal recompensada pelo destino, que o levou cedo de mais, e pelos factos da política imprevisível que não ajudaram a mantê-lo em posição de continuar como dinamizador. Trata-se do embaixador José Aparecido de Oliveira. O mesmo aconteceria com o Instituto Internacional de Língua Portuguesa, que foi proposta portuguesa em colóquio organizado pelo Instituto Joaquim Nabuco, mas quem o tornou realidade, em curto prazo, foi Sarney, então presidente da República do Brasil. A intervenção criativa do Brasil foi sempre bem recebida, porque alinhava entre as grandes acarinhadas promessas de renovação no século em que estamos. A brasilidade, na versão espalhada no mundo, e devendo muito a Gilberto Freyre, chamou a atenção da antropologia cultural para a criatividade da mistura das culturas europeia, ameríndia, …

Como se faz um poema - Manuel Alegre

Com muita coisa eu fiz o meu poema.
Rasguei retratos abri um poço
na planície. Habitei muitos cadernos.
Fui à guerra e morri. Fui à guerra e voltei.
Com muita coisa fiz o meu poema.

Parti vestido de soldado. Eu vi Lisboa
cheia de lágrimas. E um avião ficou
por muito tempo voando entre lágrimas e nuvens
minha amada chorando no aeroporto triste.
Com muita coisa fiz o meu poema.

Meu amigo morreu. Já disse como foi.
A mina rebentou meu amigo ficou
com as tripas de fora em cima de uma árvore.
Aprendi na terceira pessoa o verbo morrer.
Com muita coisa fiz o meu poema.

Eu vi soldados com as mãos cheias de sangue.
Mas isso foi de mais. E tive de aprender
na primeira pessoa o verbo matar. Desde aí
há certos adjectivos que me doem muito.
Com muita coisa fiz o meu poema.

Não vou dizer o tempo que demora um verso.
Como dizer-vos por exemplo o tempo
com as chaves metálicas batendo
Na minha cela que depois rimei com estrela?
Com muita coisa fiz o meu poema.

Cidade já rimei com liberdade
(muita c…

A Monstruosa Amálgama da Identidade Europeia - MEC

O mal do totalitarismo é ser uniformizador e impositivo. Há sempre um modelo de perfeição, que os povos mais atrasados terão de seguir e com o qual terão de se comparar. Há sempre uma identidade superior, uma ideologia acima da realidade, um futuro comum aos mais diversos interesses. O totalitarismo é o grande inimigo da diferença e a própria democracia liberal, ao impor e exigir certas igualdades menos naturais, tem aspectos totalitários.  É com horror que assisto à construção da chamada «identidade» europeia, uma monstruosa amálgama beneluxiana que reduz todos os ingredientes nacionais a uma pasta amorfa de argamassa processada. Quando temo pela resistência da nossa diferença à uniformização europeia, não temo a nossa dominação de todas as nacionalidades — temo é a dominação de todas as nacionalidades por um euro-híbrido que não seja escolhido ou amado por nenhuma delas. A verdade é que a Itália está menos italiana, a Alemanha está menos alemã, a Inglaterra está menos inglesa e Port…

A devida Educação - MEC

Das coisas que mais custa ver é uma pessoa inteligente e criativa, quando nos está a contar uma opinião ou um acontecimento, ser diminuída pela falta de vocabulário - ou de outra coisa facilmente aprendida pela educação.  A distribuição humana de inteligência, graça, sensibilidade, sentido de humor, originalidade de pensamento e capacidade de expressão é independente da educação ou do grau de instrução. Em Portugal e, ainda mais, no mundo, onde as oportunidades de educação são muito mais desiguais, logo injustamente, distribuídas, é não só uma tragédia como um roubo.  Rouba-se mais aos que não falam nem escrevem com os meios técnicos de que precisam. Mas também são roubados aqueles, adequadamente educados, que não podem ouvir ou ler os milhões de pessoas que só não conseguem dizer plenamente o que querem, porque não têm as ferramentas que têm as pessoas mais novas, com mais sorte.  Mete nojo a ideia de a educação ser uma coisa que se dá. Que o Estado ou o patrão oferece. Não é assim.…

À beira da origem

Aqui é um lugar neutro o lugar nu O lugar livre  lugar inacessivelmente pobre e nulo
Porque não se pode começar no princípio
Aqui nada se disse e está tudo por dizer
e por isso nada se dirá e por isso tudo se dirá
Aqui não é o caminho
nada poderá sair daqui
aqui é a brecha do muro
a fissura inicial em que se inscrevem os sinais

Aqui estou à beira da origem
onde nada principia senão a sede
onde nada vive senão o desejo
António Ramos Rosa, Boca Incompleta (1977)

O Amor é um Exagerador - MEC

As coisas boas, como o amor e a sabedoria, não trazem a felicidade pela simples razão que as coisas boas têm, para ser boas, de ser «boas por si mesmas». Não podem ser boas por aquilo que trazem. Pelo contrário, têm um preço. O mais das vezes, o preço do amor e da sabedoria, ambos artigos finos, artigos de luxo, coisas boas, é a infelicidade. Quando se ama, ou quando se estuda muito, fica-se sujeito às vontades e às verdades mais alheias. Nada depende quase nada de nós. E sofre-se. Irritam as pessoas que esperam que o amor traga a felicidade. É como esperar que os morangos tragam as natas. O amor não é um meio para atingir um fim — não é através do amor que se chega à felicidade. O amor é um exagerador — exagera os êxtases e as agonias, torna tudo o que não lhe diz respeito (o mundo inteiro) numa coisa pequenina. Assim como a arte tem de ser pela arte e a ciência pela ciência (seria um horror ouvir alguém dizer «Eu quero ser pintor ou biólogo para ganhar muito dinheiro e ir a muitas …

O Tempo Vale Muito Mais do que o Dinheiro - MEC

Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.  Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós.  O nosso tempo de vida é a nossa única fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, não conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para trás. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele - a régua de arquitecto naval, os relógios - quando ele tinha tempo.  As pessoas dizem "tempo é dinheiro" para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o lu…

Ninguém tem pena das pessoas felizes - MEC

Ninguém tem pena das pessoas felizes. Os Portugueses adoram ter angústias, inseguranças, dúvidas existenciais dilacerantes, porque é isso que funciona na nossa sociedade. As pessoas com problemas são sempre mais interessantes. Nós, os tontos, não temos interesse nenhum porque somos felizes. Somos felizes, somos tontaços, não podemos ter graça nem salvação. Muitos felizardos (a própria palavra tem um soar repelente, rimador de «javardo») vêem-se obrigados a fingir a dor que deveras não sentem, só para poderem «brincar» com os outros meninos.  É assim. Chega um infeliz ao pé de nós e diz que não sabe se há-de ir beber uma cerveja ou matar-se. E pergunta, depois de ter feito o inventário das tristezas das últimas 24 horas: «E tu? Sempre bem disposto, não?». O que é que se pode responder? Apetece mentir e dizer que nos morreu uma avó, que nos atraiçoou uma namorada, que nos atropelaram a cadelinha ali na estrada de Sines.  E, no entanto, as pessoas felizes também sofrem muito. Sofrem, so…

Pagamento em prestígio - Nuno Costa Santos

Hoje, à falta de dinheiro, as pessoas são pagas em prestígio. O prestígio de trabalhar numa determinada empresa. O prestígio – que é como quem diz o privilégio – de ter um emprego. Mesmo assim, há cortes no prestígio (onde é que não os há?). “Quanto é que ganhas de prestígio ao fim do mês?”. “Cada vez menos. E o chefe já me chamou ao gabinete: para o ano ainda vai piorar”. Ainda vamos todos acabar a receber o rendimento mínimo de prestígio. O pagamento em prestígio apresenta um problema, quem sabe menor: não é fácil pagar a renda e as contas do supermercado em prestígio. Os senhorios e os funcionários do super ainda não aceitam as moedas de prestígio ou o cheque-prestígio. Ainda é necessária aquela coisa do dinheirinho metálico para a sobrevivência das almas. Desagradável. Pode ser que as regras mudem. Pode ser que acumular prestígio durante uma vida garanta, daqui a uns anitos, uma velhice confortável. Antecipo o comentário de drogaria: “A Dona Laura vive em condições. Todos os mese…