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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2014

Começo a Conhecer-me. Não Existo

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Sonhos e monstros

Uma célebre gravura de Goya, da série Los Caprichos (1799), mostra o artista adormecido sobre uma mesa, com inquietantes figuras bestiais à sua volta. O próprio Goya lhe deu o título: O sonho [ou o sono] da razão produz monstros. Sempre me pareceu que uma interpretação simplesmente psicológica seria a mais pobre. Vivendo entre o Antigo Regime e o mundo posterior às revoluções liberais, Goya testemunhou a dimensão demencial da razão. Ele viu e pintou o modo como a Revolução Francesa se transformou de um símbolo da emancipação no trampolim para um imperialismo sangrento. Os sonhos da razão, mesmo os de liberdade, tendem, se não forem submetidos ao controle político da crítica e da moderação, a transformar-se em pesadelos. Os séculos XIX e XX viram como a razão, desnaturada em ideologia, conduziu o mundo às mais hediondas catástrofes bélicas. Contudo, o século XXI está a mostrar-nos uma realidade nova. O que é que existe de comum entre a invasão do Iraque por G. W. Bush e os bombardeame…

Confiança

É a minha ultima crónica antes das férias. Por muito que a atualidade nos grite novidades e temas para reflexão, tudo parece gasto, debatido, espremido. É, talvez por isso, uma boa altura para olhar para o ano que passou e tentar perceber se algo mudou, se a comunidade está melhor ou pior. Existiriam vários critérios de análise, se estamos mais ricos, se estamos mais felizes, se estamos com mais esperança no futuro. Escolhi, porém, tentar perceber se o cimento da comunidade, aquilo que a une, aquilo que a faz funcionar, melhorou. No fundo, o princípio em que se baseia qualquer comunidade: confiança. Confiança no outro, confiança nas instituições, confiança nos mercados, até. Tony Judt, historiador, no livro Um Tratado sobre os Nossos Actuais Descontentamentos, afirmava que uma das razões da actual crise do capitalismo se relacionava com o facto de a confiança ser imprescindível para a livre concorrência e os mercados funcionarem, "se não podermos acreditar que os banqueiros atua…

A coragem do bom senso - por José Manuel Pureza

A responsabilidade política exige que se reconheça, quanto antes, algo de essencial: mesmo que Portugal cumprisse, durante os próximos vinte anos, todas as exigências da troika, a dependência do País relativamente aos credores não se alteraria. Não vou cuidar sequer de entrar na polémica sobre quem é o principal responsável por esta espiral de dependência. Não tanto porque é uma polémica inútil e marcada pelas pré--compreensões ideológicas de cada um, mas sobretudo porque a responsabilidade política é também dar prioridade a uma solução e não à eternização do debate sobre quem fez o quê. É em nome dessa prioridade de uma solução que importa pôr no centro da reflexão nacional um facto muito concreto: até 2017, Portugal terá de amortizar dívida em cerca de cem mil milhões de euros e melhorar o saldo orçamental em cerca de sete mil milhões de euros. E é em nome da responsabilidade política que se impõe dizer com clareza: isso não será possível. O manifesto dos 74 havia posto em evidênci…

Mudo, Mundo

Como será que os pássaros que vivem no alto mar dormem?

e como será que o sono demora no corpo das mulheres e pode se ajeitar entre o ventre e a virilha

e como será que a música que é gravada permanece no silêncio anos?

e como será que os seios ignoram o resto do corpo e vivem a mesma vida do resto do corpo, enfeite, punhal, precisa beleza na morte da madrugada onde o corpo não dorme

e como será que o cavalo negro acolhe a presença da lua na límpida noite e, ao chegar da manhã, acolhe a presença da moça nua que será reflectida nos seus olhos maior que a manhã

e como será que a manhã acolhe em seu puro ventre os seus irmãos rios?

e como será que a terra sabe guardar silêncio sobre a morte

e como será que as cobras se encontram nas florestas

e como será que o homem vive sem abraçar o dia e o viandante — irmão do dia?

Mudo, mundo.

Cego, homem.

José Godoy Garcia, in 'Araguaia Mansidão'

Lago mudo

Contemplo o lago mudo  Que uma brisa estremece. Não sei se penso em tudo Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz, Não sinto a brisa mexê-lo Não sei se sou feliz Nem se desejo sê-lo.
Trêmulos vincos risonhos Na água adormecida. Por que fiz eu dos sonhos A minha única vida?
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

O Existencialismo - Vergílio Ferreira

"O existencialismo ergue o seu protesto, afirmando que o Homem é pessoalmente, individualmente, um valor; que a sua liberdade (em todas as suas dimensões e não apenas em algumas) é uma riqueza, uma necessidade estrutural de que não deve perder-se entre a trituração do dia-a-dia; e finalmente que, fixando o homem nos seus estritos limites, só por distracção ou imbecilidade ou por crime se não vê ou não deixa ver que ao mesmo homem impende a tarefa ingente e grandiosa de se restabelecer em harmonia no mundo, para que em harmonia a sua vida lucidamente se realize desde o nascer ao morrer. Possivelmente gostaríeis ou teríeis curiosidade de me ouvir falar de mim, já que vou sendo insensivelmente investido na qualidade de uma espécie de delegado nacional ou regional do Existencialismo. Mas eu jamais me disse "existencialista", embora muito deva à temática existencial e pelo Existencialismo tenha manifestado publicamente o maior interesse. É que aceitarmos um rótulo automatic…

O dinheiro e os descartados pelo despedimento

Ninguém me diria, creio, que chegaria a esta idade - e haveria de gostar de ouvir um Papa falar. É um falar que diz coisas, o deste Francisco, o falar de um filósofo que pensa o mundo, que se amargura com o que vê e que põe os dedos nas feridas, expondo melhor as chagas do nosso quotidiano. Filósofo, sim, se bem que o outro, o antecessor, o resignatário, tenha ficado com o capelo e a borla de académico do pensamento. Mas não falava comigo, isto é, não me dizia nada de que eu tirasse o proveito do deslumbramento. Francisco diz o que eu já sei, é verdade. Mas eu não sabia que um Papa era capaz de dizer tais coisas com a serenidade de quem levanta a mão sobre a procela - e o mar fica a ouvir, feito lago. Usa linguagem simples, fala a língua dos simples - por isso é filósofo, e dos bons! Sempre gostei mais de Platão do que de Heidegger - e nunca vi aquele envolvido, como este, nas trapalhadas do palavreado tão erudito, tão complexo, tão arrevesado, que o homem acabou vestido com a farda m…

Elogio da imprudência

Cada decisão deve ser pensada. O governo da nossa vida deve passar por um exame cuidado das circunstâncias, uma consideração alargada a todas as perspectivas possíveis, escolhendo-se os fins e os meios mais seguros e adequados. Esta coerência constrói-se através de uma consciência que equilibra todas as partes. A prudência é um pilar essencial da nossa estrutura interior. Importa aceitar o mundo e cuidar sempre de nos projetarmos e agirmos em função da realidade. Desconfiando do que se ouve e do que se vê… suspeitando até de nós mesmos e das nossas capacidades de analisar, avaliar e decidir. Só quem é humilde distingue o desejável do indesejável. Mas esperar por rigorosas certezas é um erro enorme. A prudência aconselha a que não se percam as oportunidades, agindo, nesses momentos, sem grandes pensamentos ou moderações. O maior perigo na vida é o de a desperdiçarmos por falta de coragem. Aqueles que escolhem ser cobardes decidem ser nada em vez de ser… Uma certa ponderação permite tor…

O medo - por Diogo Agostinho

Está por todo o lado. Vivemos, hoje, num mundo amordaçado pela cultura do medo. E que medo é este? O medo de perder o emprego, o medo de não encontrar um novo emprego. O medo de errar, o medo de estar na direcção do dedo apontado, o medo de não ser aceite pela sociedade, o medo do comentário e da crítica, o medo de ficar paralisado e recear existir. Este é hoje um dos maiores males que temos enquanto sociedade. O receio de perder o emprego trava a economia. Esta pressão, ou tensão sobre quem trabalha, este mecanismo da cultura do medo, provoca consequências assaz negativas. As organizações devem ser ágeis e recrutar os melhores. A já velha história da meritocracia está correcta e é um conceito evidente para todos. E os encostados? Bom. Existem tantos, mas a cultura do medo permite que essas pessoas se mantenham nas organizações. Um feudo de quintas e quintinhas fazendo "manutenção de processos". Ora, não há nada pior para travar um espírito de efectiva inovação dentro de um…

Património em risco - Editorial do 'Jornal de Angola' sobre o Acordo Ortográfico

"Os ministros da CPLP estiveram reunidos em Lisboa, na nova sede da organização, e em cima da mesa esteve de novo a questão do Acordo Ortográfico que Angola e Moçambique ainda não ratificaram. Peritos dos Estados membros vão continuar a discussão do tema na próxima reunião de Luanda. A Língua Portuguesa é património de todos os povos que a falam e neste ponto estamos todos de acordo. É pertença de angolanos, portugueses, macaenses, goeses ou brasileiros. E nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes ou uma indústria editorial mais pujante. Uma velha tipografia manual em Goa pode ser tão preciosa para a Língua Portuguesa como a mais importante empresa editorial do Brasil, de Portugal ou de Angola. O importante é que todos respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige. Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam, ou às "leis do me…

O adeus a Hipócrates – ou talvez não! - por Daniel Serrão

Os profissionais de saúde que, durante séculos e na boa tradição hipocrática, exerceram a sua actividade numa perspectiva beneficiente e dela extraíram o sentido moral que lhes era atribuído pela sociedade, defrontam-se hoje com uma crise deste paradigma. Porquê? Por duas ordens de razões. A primeira radica no crescente componente científico da medicina fruto dos resultados da investigação que deram às intervenções médicas uma fundamentação rigorosa e uma notável eficácia. O médico aparece aos olhos das pessoas em geral não já como um ser humano compassivo e bom mas como um técnico que realiza actos profissionais cientificamente apoiados. O médico tecnicista e cientista capaz de grandes proezas como transplantar um órgão ou curar uma leucemia, já não é, ele próprio, um instrumento do processo terapêutico mas apenas um intermediário entre a ciência que a investigação constrói e a intervenção médica ou cirúrgica sobre uma pessoa concreta.  Como expressão desta nova postura aí temos a e…

O gosto - por Manuela Morais

O juízo estético, de um modo geral, indica um juízo emitido com base naquilo que se sente e que não é susceptível de ser inteiramente motivado por uma explicação lógica. Este juízo é interpretado em termos de gosto (gustus) e designa em sentido figurado uma faculdade subjectiva, inata ou perfectível, de julgar as qualidades de uma obra de arte e, por outro lado, as tendências preferenciais de uma época, grupo ou pessoa em matéria de arte. Assim, o gosto enquanto sentido humano é transposto para o mundo valorativo das obras de arte e da natureza, visto que o ser humano também julga ou saboreia um espectáculo da natureza ou um objecto artístico pelo prazer ou desprazer que em si suscita. O início da utilização da palavra gosto (gustus) não pode ser rigorosamente determinado, contudo considera-se que é por volta dos meados do século XVII, primeiro em Itália e em Espanha, depois em França e em Inglaterra e, mais tardiamente, na Alemanha, que o termo adquire pertinência para designar uma …

Mito e hermenêutica

Narrativa tradicional que refere acontecimentos surgidos na origem dos tempos e que se destinava a fundar a acção ritual dos homens. É uma forma de símbolo desenvolvido, sob a forma de relato, que tinha como função instaurar todas as formas de acção e de pensamento pelas quais o homem se compreendia a si mesmo no tempo. Os mitos antigos, especialmente a Teogonia de Hesíodo, contavam a maneira como o mundo tinha emergido do caos, como as suas diversas partes se tinham diferenciado e como é que a sua arquitectura de conjunto se tinha constituído e estabelecido. Neste tipo de narrativas o processo da génese segue uma ordem genealógica, contando as linhas de sucessão, de acordo com a filiação dos deuses, isto é, seguindo o ritmo dos nascimentos, casamentos e mortes e misturando ainda deuses de gerações diferentes. Para nós modernos o mito é uma forma originária do pensamento já ultrapassada, uma figura da consciência, rica de sentido, mas abandonada enquanto modelo explicativo; é apenas …

As revoluções são raras - por Eduardo Lourenço

Em sentido moderno, o fenómeno revolucionário, quer seja de ordem religiosa, social ou política, só existe como resultado de uma prévia desconstrução, teoricamente bem elaborada, dos princípios e dos valores sobre que assenta a sociedade que se deseja reformar ou radicalmente subverter.
É por isso que só por anacronismo ou analogia prospectiva chamamos revoluções a processos de convulsão cívica ou de mudança dos quadros dirigentes de uma sociedade a que falta, por desnecessário ou ainda impossível, o lastro de uma vasta e prévia contestação, conscientemente formulada, do funcionamento e das regras do jogo que a regem. É o caso, no que respeita ao nosso próprio passado, das bem mal chamadas “revoluções de 1383” ou da “revolução de 1640”. Mais conforme com o estatuto revolucionário, pela osmose entre “ideia” e “acontecimento”, seria a nossa revolução liberal de 1820, embora o seja mais pelo destino diferido, que será o seu, do que pela sua imediata manifestação, apesar da ruptura inst…

O mercado municipal - por Santana Castilho

A municipalização da educação está a ensaiar os primeiros passos em contexto estratégico favorável, prudentemente escolhido, já que os professores não pensam senão nuns dias de férias, depois de afogados em trabalhos de exames, que culminaram um ano particularmente desgastante.
 Foi Poiares Maduro, que não o ministro da pasta, que anunciou, na Comissão Parlamentar de Ambiente, Ordenamento do Território e Poder Local da Assembleia da República, em Março passado, a intenção de o Governo entregar a gestão da educação a dez municípios-piloto. Na altura, não clarificou o que entendia por gestão da educação. Tão-só disse que a intenção do Governo era descentralizar. Mas descentralizar, verbo transitivo que significa afastar do centro, não é panaceia que traga automática melhoria ao sistema. O experimentalismo descentralizador dos últimos anos no que toca à colocação de professores e o cortejo inominável de aberrações e favoritismos que gerou é um bom exemplo de que muitas vertentes da gestã…

O vazio - por António Lobo Antunes

No outro dia, em casa da minha mãe, pus-me a olhar os retratos nas cómodas, tentando compreender a diferença entre os mortos e os vivos. Nunca compreendi muito bem o que é estar morto, conforme não compreendo muito bem o que é estar vivo. Todas as fotografias continuam a falar, não em silêncio como eu pensava ou sou eu que falo nelas, por eles? A minha avó, criança, continua a ser assim ou transformou-se na senhora que depois conheci? Qual delas é, de facto, a mãe da minha mãe e qual das várias representações, que se convencionou ser eu, a sente como do seu sangue? E qual das representações do que sou escreve isto? A morte significará não estar ou, apenas, uma ausência episódica? Aqueles que se convencionou terem morrido e, portanto, haverem-se extinto, como se extinguiram dado que me aparecem nos sonhos, dado que existem na minha cabeça, dado que continuam a modificar-se em mim? Se, por exemplo, penso

- Agora estou em paz com o meu pai

sou eu que estou em paz com o meu pai ou o meu …

O AO é néscio e grosseiro - por José Gil

Parece que, a pouco e pouco, o Acordo Ortográfico vai perdendo terreno. Todos os argumentos que o criticam foram já repetidamente enunciados: desde a importância da etimologia ser irreconhecível nas palavras desfiguradas, ao facto, intolerável, de se impedir assim o livre desenvolvimento e transformação do português. Este é, sem dúvida, um dos aspectos mais graves desse Acordo imposto artificialmente a todo um mundo de falantes da língua portuguesa.
Uma língua é um organismo vivo e, segundo o seu contexto social, geográfico, histórico, demográfico, económico, geopolítico, transforma-se imprevisivelmente. É a multiplicidade livre dos movimentos que fazem evoluir naturalmente uma língua que permite o surgimento de casos extremos, geniais, que subvertem a língua ao ponto de inventarem novas sintaxes dentro da sintaxe habitual: esses casos, revolucionários, como o de Guimarães Rosa ou de Pessoa, só são possíveis quando o espaço virtual de liberdade interna da língua se solta e ousa, para…

Contra a filosofia...

"Não há maneiras não-contraditórias de argumentar contra a Filosofia porque a Filosofia é o estudo cuidadoso das nossas ideias mais básicas. Mesmo quem pensa que a Filosofia é uma palermice tem ideias filosóficas sobre a natureza do conhecimento (Epistemologia) ou da realidade (Metafísica). Filosofar é avaliar cuidadosamente essas ideias, em vez de as aceitarmos como se fossem as únicas alternativas viáveis. Assim, a opção não é entre ter ou não ter ideias filosóficas. É tão impossível viver sem ter ideias filosóficas como é impossível viver sem ideias físicas. A opção é entre tê-las, estudando-as cuidadosamente, ou ter a ilusão de que não as temos, só porque não nos demos ao incómodo de as estudar." Desidério Murcho

A atualidade da Filosofia - por Theodor W. Adorno

(Português do Brasil) Quem hoje em dia escolhe o trabalho filosófico como profissão, deve, de início, abandonar a ilusão de que partiam antigamente os projetos filosóficos: que é possível, pela capacidade do pensamento, se apoderar da totalidade do real. Nenhuma razão legitimadora poderia se encontrar novamente em uma realidade, cuja ordem e conformação sufoca qualquer pretensão da razão; apenas polemicamente uma realidade se apresenta como total a quem procura conhecê-la, e apenas em vestígios e ruínas mantém a esperança de que um dia venha a se tornar uma realidade correta e justa. A filosofia, que hoje se apresenta como tal, não serve para nada, a não ser para ocultar a realidade e perpetuar sua situação atual. Antes de qualquer resposta, tal função já se encontra na pergunta, pergunta essa que hoje em dia é tida como radical, e, no entanto, é a menos radical de todas: a pergunta, pura e simples, pelo ser, tal como a formularam expressamente os novos projetos ontológicos e tal como…

A nova retórica

"A argumentação filosófica apresenta-se como um apelo à razão, que eu traduzo na linguagem da argumentação, ou aquela da nova retórica, como um discurso que se dirige ao auditório universal. Uma argumentação racional caracteriza-se por uma intenção de universalidade, ela visa convencer, ou seja, garantir a adesão de um auditório que, na mente do filósofo, encarna a razão." Perelman
Ao conceber a própria razão como um auditório, a tese de que a filosofia pode ser compreendida como um discurso dirigido a um auditório ganha sustentação. Segundo Perelman, os filósofos teriam-se, ao pretenderem apelar à razão, explícita ou implicitamente dirigido ao auditório universal. A argumentação filosófica, que se pretende racional e universal, difere das demais argumentações humanas não pela ausência do elemento retórico. O facto de a razão ter sido considerada, ao longo da tradição ocidental, uma faculdade humana inata, iluminada por Deus, determinou, em grande medida, a rejeição da retóri…

A urgência da Literatura - por Vasco Graça Moura

Não me canso de repetir e de sublinhar uma passagem de Vítor Aguiar e Silva num documento de trabalho sobre o tema das humanidades. Se já o fiz neste lugar, não peço desculpa ao leitor pela repetição, pois entendo que continuo a prestar--lhe um bom serviço. Salientando o seu parentesco conceptual e epistemológico com as áreas das "ciências humanas", "ciências sociais", "ciências do espírito" "ciências da cultura" e "ciências sociais", embora sem perfeita equivalência semântica, dados os contextos e as tradições culturais em que se formaram, Aguiar e Silva diz que o termo "humanidades" é utilizado como equivalente moderno dos sintagmas studia humanitatis e litterae humaniores, de uso plurissecular, designando nomeadamente os seguintes campos disciplinares: línguas e literaturas clássicas; línguas e literaturas modernas; filologia; linguística; retórica; poética, história e crítica literárias e literatura comparada; filosofia, …