Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2012

"No pensar é que está o ganho" - por Ana Bacalhau

«Pensar», respondi eu. Franziram o nariz. Perguntavam-me se veria algum caminho para a resolução das crises que nos assolam. As crises que por aí andam a torturar-nos a felicidade são de índoles várias. Temos a crise de valores, a crise económica, a crise política, a crise de fé, a crise de afectos. Todas elas estão relacionadas entre si e conspiram para nos atazanar o juízo. Daí, talvez que a urgência da pergunta esperasse da resposta uma solução concreta, prática, rápida. A minha resposta era o oposto. Não por embirração, mas por convicção. Estará subvalorizada a importância do pensamento crítico, estruturado e criativo na resolução dos problemas que nos afligem. Talvez se deva ao ritmo frenético a que vivemos e que obriga à tomada de decisões imediata, que resulta, frequentemente, numa tomada de decisões irreflectida. Haverá, pois, quem valorize mais a acção, mas tenho para mim que acção sem pensamento que a sustente é tão estéril quanto o pensamento que não gera acç…

Valores em crise?

"No início da década de 1920 Paul Valéry, consagrado intelectual francês, já nos dava conta da descrença nos valores morais tradicionais, que coincidiu com o fim da hegemonia política e económica da Europa no mundo, ao dizer: “(…) a nossa geração (…) assistiu também à negação brutal das nossas ideias mais evidentes. (…) Já não podemos então confiar no Saber e no Dever ? (…)”. Desde a conjuntura histórica entre as duas grandes guerras (1914-1945) que os valores tradicionais das elites sociais ( do trabalho, do esforço, da família, da pátria, da autoridade, etc ) começaram a ser questionados sob o trauma da 1ª Guerra Mundial. Em Portugal, a crise de valores começou a manifestar-se com a 1ª República e só reemergiu, após a interrupção autoritária do Estado Novo, com o regime do pós-25 de Abril de 1974.
As duas Guerras Mundiais (1914-1918 e 1939-1945) provocaram uma carnificina sem precedentes que desmoralizaram os países Europeus. O Existencialismo apareceu como resposta de liberta…

Construção e organização de um discurso - Carlos Fontes

1. Construção do Discurso
A construção de um discurso argumentativo, susceptível de propiciar alguma adesão por parte do auditório, tem várias fases, cada uma com os seus requisitos. Aristóteles, Cícero, Quintiliano e muitos outros filósofos desde a antiguidade clássica procuraram construir um modelo para esta construção. Quase todos insistiram no facto de que o orador, não se pode limitar a escrever um bom discurso, deve também cuidar de muitos outros aspectos, como a sua postura na hora de o proferir.
Fases Fundamentais (Esquema clássico):
1ª. Parte: Invenção (heurésis). Em função do auditório e do assunto a debater procurava-se escolher o tipo de discurso, argumentos e estrutura argumentativa mais adequado.
2ª. Parte: Disposição (táxis). Organização interna do discurso, dando-se particular atenção à disposição dos argumentos de forma a conduzir o auditório a aceitação de uma dada conclusão.
3ª. Parte: Elocução (léxis). Redacção do discurso.
4º. Parte: Acção (hypókrisis). Pronunciação do…

Um apócrifo de Platão - por Artur Polónio (argumentação)

Sócrates — Assim, pretendes tu, meu jovem amigo, ser capaz de demonstrar-me que, dado que pretendo que todos os políticos são maçadores, estou racionalmente obrigado a aceitar que alguns poetas são maçadores. Por mim, não precisarias de esforçar-te muito. Para me persuadir de que alguns poetas são maçadores basta ler os que por aí andam, e por aí escrevem. Aristóteles — Penso como tu, Sócrates. Mas permite-me, ainda assim, levar a cabo a minha demonstração. Se nada aprendermos de novo com ela, ao menos teremos estabelecido conclusivamente o nosso ponto de vista comum. Sócrates — Seja como queres. Uma vez que nada de melhor temos que fazer, enquanto esperamos pelo jantar, e para não privarmos o nosso auditório de uma amostra da tua lógica (que, apesar de ter morrido alguns anos antes de tu teres nascido, não ignoro tratar-se de um instrumento poderoso), sugiro-te que prossigas. Aristóteles — Muito bem. Proponho-me mostrar-te, para além de qualquer dúvida razoável, que a minha conclusão s…

Construir um texto argumentativo

Apontamento para a elaboração de um texto argumentativo:
Introdução
A linguagem tem de ser clara e directa, de modo a precisar o tema a tratar e a tese a defender Tema – temos de nos manter fiéis a ele ao longo de todo o trabalho. O texto terá de ser apelativo, e pode ser apresentado sob a forma de problema. Quando o tema não é explicado de modo interrogativo, devemos introduzir uma ou várias perguntas evidenciadoras do problema subjacente. Tese - deve ser concisa, é a apresentação da posição que assumimos face ao tema; é a opinião central que irá orientar a nossa argumentação.
Desenvolvimento (é a parte mais extensa do trabalho; parte central do texto; apresentação dos argumentos (de forma ordenada) que apoiam a tese. Cada argumento deve ser expresso no seu parágrafo, sempre na sequência do argumento anterior e abrindo lugar ao seguinte)
Proposta 1
expor a tese que se recusa;
apresentar os argumentos em abono desta tese,
refutar esses argumentos;
estabelecer a tese contrária (a que se defende)
o…

A tarefa da desconstrução de um texto.

A tarefa que temos vindo a desenvolver nas últimas aulas é a da desconstrução de textos e, de uma forma geral, tem apresentado algumas dificuldades; assim o que se impõe em primeira instância é perceber a “desmontagem” e "desconstrução" de um texto. Desconstruir um texto é fazer com que as suas palavras-chave, conceitos centrais, subvertam as próprias suposições desse texto, reconstituindo os movimentos possíveis dentro da sua própria linguagem: quebrando os valores de verdade, do significado inequívoco e da presença conceptual, a tarefa a que nos propomos aponta para a possibilidade de escrever não uma representação de qualquer coisa (nem resumo, nem reescrita), mas para a infinitude do quadro onde se insere o próprio “jogo” do texto. Não vamos então à procura do seu sentido, vamos antes seguir os caminhos "dele", transgredindo ao mesmo tempo os seus próprios termos; irá resultar num “desvio”. Todo o signo só significa na medida em que se opõe a outro, um conceit…

Como comentar um texto filosófico - Carlos Fontes

Leitura impressiva Antes de comentar um texto filosófico é necessário primeiro lê-lo. Começa por fazer uma primeira leitura repousada, sem preocupações técnicas. Não se trata de saber o significado de todas as palavras ou frases, mas apenas de apreender a ideia geral, o problema que está a ser abordado pelo autor. De que é que ele está a falar?
Leitura explicativa Nesta segunda leitura, procura saber o que diz o texto, sem te preocupares já com a questão de validade ou não das afirmações do autor, ou das suas relações deste texto com outros sobre a mesma temática, etc. Trata-se de:
- Entender o significado das palavras e das frases utilizadas pelo autor.
Nesta tarefa podes e deves recorrer a Dicionários ou Histórias da Filosofia. Dialogar com o professor sobre o assunto.
- Precisar a ideia central do texto e algumas das questões que a mesma envolve.
É importante que faças um resumo desta ideia com as tuas próprias palavras, tentando identificar o(s) problema(s) que o autor abordou e as re…

Ação - Intenção

Quando nos referimos ao objetivo ou fim que persigo e orienta a minha ação, em vez de falar de motivos, falamos de intenções. Neste sentido, a ação é intencional porque tende ou aponta para algo que está mais além, mas que pretendo conseguir ao agir. O caráter intencional da ação está intimamente ligado ao caráter consciente e voluntário que um acontecimento deve ter para ser considerado ação. Assim, levantar o braço só é uma ação quando o faço consciente e voluntariamente com uma determinada intenção, seja saudar, despedir-me,chamar um táxi, festejar um golo ou ameaçar alguém. De tudo o que fazemos, apenas consideramos ações aquelas que respondem a um fim. O fim para o qual tendem as minhas ações e que faz com que falemos da ação como de um ato intencional é algo que está presente ao atuar (ao entrar no restaurante estou consciente de que a minha intenção é comer), mas ao mesmo tempo é algo que está mais para lá (ainda não estou a comer, espero fazê-lo num futuro próximo). Enquanto a…

Reflectir...

“Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”. José Saramago

A Devida Educação - MEC

Das coisas que mais custa ver é uma pessoa inteligente e criativa, quando nos está a contar uma opinião ou um acontecimento, ser diminuída pela falta de vocabulário - ou de outra coisa facilmente aprendida pela educação.  A distribuição humana de inteligência, graça, sensibilidade, sentido de humor, originalidade de pensamento e capacidade de expressão é independente da educação ou do grau de instrução. Em Portugal e, ainda mais, no mundo, onde as oportunidades de educação são muito mais desiguais, logo injustamente, distribuídas, é não só uma tragédia como um roubo. Rouba-se mais aos que não falam nem escrevem com os meios técnicos de que precisam. Mas também são roubados aqueles, adequadamente educados, que não podem ouvir ou ler os milhões de pessoas que só não conseguem dizer plenamente o que querem, porque não têm as ferramentas que têm as pessoas mais novas, com mais sorte.  Mete nojo a ideia de a educação ser uma coisa que se dá. Que o Estado ou o patrão oferece. Não é assim. …

Orientar Filosoficamente a Vida - Karl Jaspers

A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.
Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fix…

ARGUMENTAÇÃO - Discurso do Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Prof. Doutor António Sampaio da Nóvoa

Lisboa, 10 de junho de 2012 

As palavras não mudam a realidade. Mas ajudam-nos a pensar, a conversar, a tomar consciência. E a consciência, essa sim, pode mudar a realidade. As minhas primeiras palavras são, por inteiro, para os portugueses que vivem situações de dificuldade e de pobreza, de desemprego, que vivem hoje pior do que viviam ontem. É neles que penso neste 10 de Junho. A regra de ouro de qualquer contrato social é a defesa dos mais desprotegidos. Penso nos outros, logo existo (José Gomes Ferreira). É o compromisso com os outros, com o bem de todos, que nos torna humanos. Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa, agora, sem as redes das sociedades tradicionais. Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização.
Façamos …

O "Milagre" grego

Desde o final do século XIX da nossa era e durante o século XX, estudos históricos, arqueológicos, linguísticos, literários e artísticos corrigiram os exageros das duas teses, isto é, tanto a redução da Filosofia à sua origem oriental, quanto o “milagre grego”. Retirados os exageros do orientalismo, percebe-se que, de fato, a Filosofia tem dívidas com a sabedoria dos orientais, não só porque as viagens colocaram os gregos em contacto com os conhecimentos produzidos por outros povos (sobretudo os egípcios, persas, babilónios, assírios e caldeus), mas também porque os dois maiores formadores da cultura grega antiga, os poetas Homero e Hesíodo, encontraram nos mitos e nas religiões dos povos orientais, bem como nas culturas que precederam a grega, os elementos para elaborar a mitologia grega, que, depois, seria transformada racionalmente pelos filósofos.
Assim, os estudos recentes mostraram que mitos, cultos religiosos, instrumentos musicais, dança, música, poesia, utensílios domésticos e …

Pensar o mundo, repensar Portugal - por Manuel Maria Carrilho

As crises também já não são o que eram. Uma crise era, normalmente, um acontecimento que tinha princípio, meio e fim, um momento instável que exigia uma decisão difícil que, uma vez tomada, lhe punha termo. Agora, tornou-se quase no seu contrário, transformou-se num estado de interminável indecisão, ou mesmo na imagem da própria indecisão, que se vive como se fizesse parte do ar que respiramos. E esta crise, cada vez mais vivida como a atmosfera incontornável dos nossos dias, torna simultaneamente mais imperativo e mais difícil pensar o mundo. Mais imperativo, porque só assim se conseguirá romper com a cortina de estereótipos que nos atordoam e paralisam, ainda que por vezes possam conduzir a ações mais espetaculares, mas quase sempre, inconsequentes. Mas também mais difícil, porque a tentação, nestes momentos adversos e penosos, é para nos concentramos no nosso pequeno universo, deixando o ceticismo, a depressão e a indiferença tomar conta de tudo o mais, privando-nos as…

Ethos, Pathos e Logos (apontamento de vocabulário técnico)

A argumentação deverá ter sempre em conta três aspectos fundamentais, tal como estabeleceu Aristóteles: o Ethos, que respeita ao orador e é de carácter afectivo; o Pathos, que deverá fazer-se sentir presente no auditório a que se destina a comunicação e também de marca afectiva; o Logos, centrado no discurso e de ordem lógico-argumentativa. O Ethos refere-se ao "carácter" do orador que, sendo íntegro e responsável, conquista com maior facilidade o auditório. Como orador, deve possuir competências como a capacidade de dialogar (falar e ouvir), de fazer pensar e de se comprometer com a sua mensagem. Por isso será uma pessoa a cuja opinião se atribui valor no contexto da sua comunicação.  O Pathos define-se na sensibilidade do auditório e é variável em função das suas características: é preciso intuir o que está a acontecer, aquilo a que o "público" é sensível, saber quebrar a distância inicial. O orador deverá seleccionar as estratégias adequadas para provocar as emoç…

O despertar da oratória - por Américo de Sousa

Desde sempre os gregos foram inveterados amantes da palavra, apreciando a eloquência natural mais do que qualquer outro povo antigo. A comprová-lo estão os brilhantes discursos que enchem as páginas da Ilíada e as fervorosas palavras que os comandantes militares dirigiam às suas tropas antes de entrar em combate. Os próprios soldados caídos na guerra eram logo honrados com solenes discursos fúnebres. Mas foi com o advento da democracia que esse interesse pela eloquência e oratória cresceu de uma maneira explosiva. Compreende-se porquê: o povo - onde não se incluíam, nem as mulheres, nem os escravos, nem os forasteiros - passou a poder reunir-se em assembleia geral para tratar e decidir de todo o tipo de questões. Assembleia geral que era ao mesmo tempo o supremo órgão legislativo, executivo e judicial. Nela se concentravam os mais altos poderes. Podia declarar a guerra ou a paz, alterar as leis, outorgar a alguém as máximas honras mas também mandá-lo para o exílio ou condená-lo à morte…

Para Que Serve a Filosofia? - por Will Durant

O leitor ocupado perguntará para que serve a filosofia. Pergunta vergonhosa, que não fazemos à poética, essa outra construção imaginativa de um mundo mal conhecido. Se a poesia nos revela a beleza que os nossos olhos ineducados não vêem, e se a filosofia nos dá os meios de compreender e perdoar, não lhes peçamos mais - isso vale todas as riquezas da Terra.
A filosofia não enche a nossa carteira, não nos ergue às dignidades do Estado; é até bastante descuidosa destas coisas. Mas de que vale engordar a carteira, subir a altos postos e permanecer na ignorância ingénua, desapetrechado de espírito, brutal na conduta, instável no carácter, caótico nos desejos e cegamente infeliz?
A maturidade é tudo.
Talvez que a filosofia nos dê, se lhe formos fiéis, uma sadia unidade de alma. Somos negligentes e contraditórios no nosso pensar; talvez ela possa classificar-nos, dar-nos coerência, libertar-nos da fé e dos desejos contraditórios.
Da unidade de espírito pode vir essa unidade de carácter e pro…