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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2013

Contribuirá a Filosofia para a melhoria da vida em comunidade? - por Diogo Vidal e Silva

"O leitor ocupado perguntará para que serve a filosofia. Pergunta vergonhosa, que não fazemos à poética, essa outra construção imaginativa de um mundo mal conhecido. Se a poesia nos revela a beleza que os nossos olhos ineducados não vêem, e se a filosofia nos dá os meios de compreender e perdoar, não lhes peçamos mais - isso vale todas as riquezas da Terra. A filosofia não enche a nossa carteira, não nos ergue às dignidades do Estado; é até bastante descuidosa destas coisas. Mas de que vale engordar a carteira, subir a altos postos e permanecer na ignorância ingénua, desapetrechado de espírito, brutal na conduta, instável no carácter, caótico nos desejos e cegamente infeliz?  A maturidade é tudo. Talvez que a filosofia nos dê, se lhe formos fiéis, uma sadia unidade de alma. Somos negligentes e contraditórios no nosso pensar; talvez ela possa classificar-nos, dar-nos coerência, libertar-nos da fé e dos desejos contraditórios. Da unidade de espírito pode vir essa unidade de carácter…

Educação como acção

A educação é a acção consciente que permite a um ser humano desenvolver as suas aptidões físicas e intelectuais bem como os seus sentimentos sociais, estéticos e morais, com o objectivo de cumprir, tanto quanto possível, a sua missão como homem; é também o resultado desta acção. A educação é, pois, uma acção. Enquanto tal, é consciente, ou pelo menos dela podemos tomar consciência; é voluntária, ou pelo menos podemos percebê-la e assumi-la como tal. Olivier Reboul in http://www.educ.fc.ul.pt

George Orwell e "O triunfo dos porcos" - por Adriana Cristina Duarte de Carvalho

George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair, nasceu a 25 de Junho de 1903 na Índia numa família inglesa de “classe média-alta” como ironicamente se coloca em The Road to Wigan Pier (1933). Trabalhou como operário numa fábrica, foi professor primário e um severo crítico da sociedade que viveu, sendo muitos os contributos de revolta, pacífica, mas genial. Jornalista, autor político e novelista de uma sinceridade crua e necessária, transformou habilidosamente os seus testemunhos de vida em obras literárias com um reconhecimento modesto do público dos nossos tempos. Viajando e experimentando classes sociais variadas devido aos tempos controversos, Blair acaba por voltar a Inglaterra, terra onde passou grande parte da sua juventude, para casar, adotar um filho, publicar os seus últimos e mais reconhecidos trabalhos e ser hospitalizado no Hospital da Faculdade de Londres por sofrer de tuberculose. Acaba por morrer aos 46 anos no dia 21 de Janeiro de 1949. Mestre do humor e da sátira obs…

Educação, ensino e instrução

O que poderemos nós considerar por ensinar? Bem, quando se fala em ensinar, vem-nos logo à cabeça a escola, o professor a ensinar aos alunos como se lê, a ensinar a fazer contas, a ensinar que Afonso Henriques foi o fundador de Portugal, e por aí fora. Ora bem, e o que é que se aprende na escola? Em princípio serão os conteúdos programáticos, os saberes temáticos e teoréticos, dos quais constam a Matemática, a Língua Portuguesa, a História, e por aí fora. Assim sendo, quais serão as principais figuras desta interacção? O aluno e o professor, decerto. Quando afirmo aluno e professor, não quero que se fique com a sensação que o ensino apenas se dá entre aluno e professor. Um pai pode muito bem ensinar ao seu filho de cinco ou seis anos como se fazem contas de somar, e isso não o intitula com o grau de professor. Mas o que gostaria de salientar aqui é que o que se ensina são saberes teoréticos, e é isso que distingue o ensinar das outras actividades acima mencionadas, o educar e o instr…

Os princípios da Bioética - por José Bastos

A Bioética é, independentemente de todos os seus meios e ramos, constituída por cinco princípios base que se aplicam a qualquer um dos ramos, nunca perdendo o seu valor e ordem. É a partir destes que são delimitadas as fronteiras que separam um progresso aceitável e ético, de uma evolução desordenada e desrespeitosa para com a Natureza e os Seres Vivos. “Tratam (…) do direito dos indivíduos à saúde, do direito dos pacientes, do direito à assistência, das responsabilidades jurídicas dos pacientes e dos profissionais da saúde, das responsabilidades sobre as ameaças à vida no planeta, do direito ambiental, dos direitos com respeito às novas realidades tecnológicas da medicina e da biologia (incluindo as novas tecnologias genéticas), etc.”3 Os princípios são os seguintes: 1º-Princípio da Autonomia: Este primeiro princípio exige que o profissional que exerce a determinada disciplina tenha respeito para com o paciente e as suas escolhas e vontades (regras religiosas, capacidade de escolha, …

Educação e sistema económico

No campo económico-educacional, mesmo o neoliberalismo levantando a bandeira que o Estado deve ter uma interferência mínima (senão nula) na economia, ele não o priva de fortalecer o seu sistema. Dessa forma, os rankings dos sistemas públicos escolares, que parecem ser algo inovador e moderno, são meramente um alinhamento Estatal com a política neoliberal mundial. E como outra forma de fortalecimento neoliberal na educação o “Estado ainda repassa as suas funções próprias para a comunidade ou para as empresas” (LIBANEO, 2003, p.112), fazendo surgir, assim, um novo paradigma educacional, baseado na capacitação e na produção. in www.profblog.org/

O Mundo percebido e o Mundo da Ciência - Merleau-Ponty

O mundo da percepção, isto é, o mundo que nos é revelado por nossos sentidos e pela prática da vida, parece à primeira vista aquele que melhor conhecemos, pois não são necessários nem instrumentos, nem cálculos, para alcançá-lo, bastando a nós, aparentemente, abrir os olhos e deixar-nos viver para nele penetrar. Entretanto, isso é apenas uma falsa aparência. Eu gostaria de mostrar nessas conversas que ele é, em uma larga medida, ignorado por nós enquanto permanecermos na atitude prática ou utilitária, que foi preciso muito tempo, esforços e cultura desnudá-lo, e que um dos méritos da arte e do pensamento modernos (entendo por isso a arte e o pensamento a partir dos últimos 50 ou 70 anos) é  fazer-nos redescobrir esse mundo em que vivemos, mas que somos sempre tentados a esquecer. Isto é particularmente verdadeiro na França. É um traço não apenas das filosofias francesas, mas ainda daquilo que se chama um pouco vagamente o espírito francês, reconhecer à ciência e aos conhecimentos cie…

Educação para os valores

A resposta de Platão à necessidade de se resgatar o velho sentido da Ética, da Justiça e da Moral, perdidos durante o período de crescimento e enriquecimento de Atenas, contaminados pela hipocrisia, é a "volta a uma sociedade mais simples". Mas não uma volta ao passado real, antes a um passado imaginário situado em algum lugar no futuro no qual os velhos valores – renovados a partir das indagações e críticas de Sócrates – possam orientar uma sociedade estável que tende à perfeição. Carlos Ceia

Educação: a dificuldade da motivação do professor

(...) como é que a sociedade pode compreender que eu me esforço por ser melhor professor todos os dias? O professor de hoje acaba por ter que negociar consigo próprio diferentes formas de motivação para ser capaz de acreditar que o que faz é socialmente válido. Contudo, nada mais devia ser exigido a quem chega a um estado de graça único que nos leva a ouvir dentro de nós a voz que comanda a nossa vida. O professor é o Deus e o Diabo de si próprio e nessa condição não se deve condenar o professor a beber da mesma cicuta a que Sócrates foi obrigado só por pensar mais do que o poder constituído. Carlos Ceia

John Locke, o problema do conhecimento

"Dizer que há verdades impressas na alma, que a alma não apercebe ou não entende, é, parece-me, uma espécie de contradição, pois a acção de imprimir não designa outra coisa senão fazer aperceber certas verdades. (...) Dizer que uma noção está gravada na alma e sustentar ao mesmo tempo que a alma não a a conhece e que não teve ainda nenhum conhecimento dela, é fazer desta impressão um puro nada. Não se pode de todo assegurar que uma certa proposição esteja no espírito , quando o espírito ainda não a apercebeu nem descobriu nenhuma ideia em si próprio. (...) E assim esta grande questão reduzir-se-á unicamente a dizer que aqueles que falam de princípios inatos falam muito impropriamente; mas que no fundo eles crêem na mesma coisa que os que negam que os haja; porque não penso que alguém tenha alguma vez negado que a alma fosse capaz de conhecer várias verdades. É esta capacidade, diz-se, que é inata; e é o conhecimento de tal ou tal verdade que se deve chamar adquirida. Mas se é is…

Educação: os legisladores

Homens algemados de pernas e pescoços desde a infância, numa caverna, e voltados contra a abertura da mesma, por onde entra a luz de uma fogueira acesa no exterior, não conhecem da realidade senão as sombras das figuras que passam, projectadas na parede, e os ecos das suas vozes. Platão
O Legislador nunca imagina que podem existir mais ideias para além das ideias que ele próprio transforma em lei. Para ele, as suas ideias são a verdadeira realidade. Ele não sofre, porque nunca concluirá que não pode ser um Legislador omnipotente, porque sabe que, enquanto estiver na condição de Legislador, nunca passará de poderoso a impotente. O Legislador nunca se coloca no lugar do humano, por isso podemos concluir que é ele que está verdadeiramente dentro da caverna, embora, na vida prática, o mundo em que assim se vive seja um mundo povoado apenas de sombras tristes. Carlos Ceia

Porque necessitamos nós de dar? - por Ana Miguel Borba Souto Dias

O mundo não é justo, aliás, se o fosse não teríamos a noção do que a justiça é. Descrevemos algo como justo uma vez que já sentimos a injustiça na pele, sendo nos ápices cruciais que estes dois termos se confrontam. Podemos também, a partir disto, exemplificar e tornar mais credível o facto de que dois vocábulos, com essências radicalmente adversas, podem obrar mediante um pacto.  O altruísmo pactua com o egoísmo, e o egoísmo pactua com o altruísmo. Deste modo, por mais que manifestem a conceção de batalha, neste contexto, ela não existe.  Porque necessitamos nós de dar? Já vimos que o Ser Humano por si só necessita algo. E necessitar de algo para possibilitar a sobrevivência não basta necessitar o que é fundamental ao nosso metabolismo. Por muito satisfeitos que possamos estar a nível fisiológico, essa satisfação não compensa, de longe, a falta da outra metade, das necessidades adquiridas. Sem elas sentimo-nos vazios, pobres – pobreza, como já visto, no sentido da manifestação de de…

Educação - ser professor hoje...

O professor de hoje não tem tempo para reflectir sobre o seu lugar na sociedade, porque a sociedade também não tem tempo para ele e, sobretudo, porque a sociedade pós-industrial nem sequer reconhece a nobreza e a complexidade do seu trabalho. Se ao homem, como afirma Sócrates, basta saber o que é bom para que ele seja bom, será possível ao professor saber o que é ser professor para o ser?  Carlos Ceia 

Filosofia e cidadania - por Ricardo Jorge M. Pinto

“A filosofia é (…) uma atitude reflexiva. Ela busca as raízes e os fundamentos dos problemas sobre os quais se propõe reflectir (…) e ainda examina as questões de modo global, no seu conjunto ou meio em que está inserido. (…) Abre os horizontes (…) em dimensão transdisciplinar. Torna-nos mais críticos e capazes de exercer a nossa própria cidadania.”
Este excerto foi retirado de um projecto de voluntariado do Colégio de São Joaquim, São Paulo, Brasil, e não tem autores declarados. No entanto, é uma articulação de conceitos simples e correctos. A filosofia, como disciplina, é definida como o estudo de todos os problemas, e fica então já delineada uma ligação de necessidade (quase obrigatoriedade) entre a filosofia e a cidadania sem-rumo; se esta se encontra com problemas de “identidade”, a sua melhor companhia é a filosofia - para saber o que é e como tem de agir. Sendo a cidadania a actuação do cidadão e (principalmente) a sua participação na vida política da sua sociedade tendo em vi…

Educação, autonomia e Filosofia

"Ensinar filosofia" é promover o pensamento autónomo e o desenvolvimento de competências críticas: isto faz-se oferecendo problemas, os problemas próprios da filosofia. Do outro lado, e na construção das respostas individuais, espera-nos a tarefa da compreensão dos autores e a competição Hercúlea com as melhores teorias que a Humanidade produziu! A formulação clara dos problemas é, por isso, fundamental e as melhores respostas serão aquelas que concorrem com os melhores argumentos. F. Lopes

A Ideologia não existe - Gilles Deleuze

"Todas as sociedades são, ao mesmo tempo, racionais e irracionais. São forçosamente racionais pelos seus mecanismos, engrenagens, sistemas de ligação, e mesmo pelo lugar a que assignam o irracional. No entanto, tudo isto pressupõe códigos ou axiomas que não são produto do acaso, mas que também não têm uma racionalidade intrínseca. Como na teologia: tudo é de facto racional se se aceita o pecado, a imaculada concepção, a encarnação. A razão é sempre uma região talhada no irracional. Não de todo ao abrigo do irracional, mas uma região atravessada pelo irracional e definida apenas por um certo tipo de relações entre factores irracionais. No fundo de toda a razão, o delírio, a deriva. Tudo é racional no capitalismo, salvo o capital ou o capitalismo. Um mecanismo bolsista é efetivamente racional, pode compreender-se, aprende-lo, os capitalistas sabem dele servir-se; no entanto, é completamente delirante, é demente. É neste sentido que dizemos: o racional é sempre a racionalidade de u…

Educação: o pedagogo

O pedagogo tem que ter uma atitude aberta e, para além de se preocupar com os resultados do seu ensino e com a obtenção dos objetivos propostos, deverá conseguir que se projete no futuro uma visão desejada das coisas, ainda que incertas e não acabadas. É preciso uma pedagogia que contribua para que o indivíduo encare o amanhã com um sorriso. Um amanhã em que possam intervir os seus atos, a sua iniciativa, a sua singularidade, sem necessidade de renegar a sua história nem o vivido anteriormente. in http://aviagemdosargonautas.net

Distinção entre conhecimento puro e empírico - Kant

«Necessitamos agora de um critério pelo qual possamos distinguir seguramente um conhecimento puro de um conhecimento empírico. É verdade que a experiência nos ensina que algo é constituído desta ou daquela maneira, mas não que não possa sê-lo diferentemente. Em primeiro lugar, se encontrarmos uma proposição que apenas se possa pensar como necessária, estamos em presença de um juízo a priori (...). Em segundo lugar, a experiência não concede nunca aos seus juízos uma universalidade verdadeira e rigorosa, apenas universalidade suposta e comparativa (por indução), de tal modo que, em verdade, antes se deveria dizer: tanto quanto até agora nos foi dado verificar, não se encontram excepções a esta ou àquela regra. Portanto, se um juízo é pensado com rigorosa universalidade, quer dizer, de tal modo que nenhuma excepção se admite como possível, não é derivado da experiência, mas é absolutamente válido a priori. (...) Pois onde iria a própria experiência buscar a certeza se todas as regras, s…

Educação e ensino

A educação tem por finalidade formar o homem, quer pela “escola dos sentimentos”, isto é, a família, quer pela instrução. O ensino não é senão essa parte da instrução que tem por fim cultivar o homem, formando o seu juízo. É tão falso acreditar que isso basta como acreditar que se pode passar sem isso. Olivier Reboul in educ.fc.ul.pt - Tradução de Olga Pombo

O mecanicismo da natureza - Descartes

«Eu não sei de nenhuma diferença entre as máquinas que os artesãos fazem e os diversos corpos que a natureza por si só compõe, a não ser esta: que os efeitos das máquinas não dependem de mais nada a não ser da disposição de certos tubos, que devendo ter alguma relação com as mãos daqueles que os fazem, são sempre tão grandes que as suas figuras e movimentos se podem ver, ao passo que os tubos ou molas que causam os efeitos dos corpos naturais são ordinariamente demasiado pequenos para poderem ser percepcionados pelos nossos sentidos. Por exemplo, quando um relógio marca as horas por meio das rodas de que está feito, isso não lhe é menos natural do que uma árvore a produzir os seus frutos.» Descartes, Princípios da Filosofia

Educação: o que é ensinar?

O ensino distingue-se também pelo seu conteúdo: o saber, que não é nem um saber-fazer, nem uma crença. Saber é compreender. E compreender, como tão bem demonstrou Piaget, tem como característica essencial a reversibilidade. Quando um rato aprende a percorrer um labirinto por tentativas e erros, é incapaz de o fazer no sentido inverso. Pelo contrário, o homem que compreende um itinerário pode percorrê-lo tanto na ida como na volta. O hábito é irreversível assim como o saber de cor. Em contrapartida, compreender o que se sabe é escapar a toda a ordem temporal. Compreende-se uma máquina quando se é capaz de a desmontar e de a tornar a montar, um raciocínio quando se pode percorrer nos dois sentidos as suas “longas cadeias de razões”, um texto literário quando se apreende a sua estrutura e a sua finalidade profunda. Olivier Reboul in educ.fc.ul.pt - Tradução de Olga Pombo

Ciência, aprendizagem e indução - Aristóteles

Só aprendemos, com efeito, por indução ou por demonstração. Ora a demonstração faz-se a partir de princípios universais, e a indução a partir de casos particulares. Mas é impossível adquirir o conhecimento dos universais a não ser pela indução, visto que até os chamados resultados da abstracção não se podem tornar acessíveis a não ser pela indução. (...) Mas induzir é impossível para quem não tem a sensação: porque é nos casos particulares que se aplica a sensação; e para estes não pode haver ciência, visto que não se pode tirá-la de universais sem indução nem obtê-la por indução sem a sensação.» Aristóteles, Segundos Analíticos

Educação para Kant

Kant considera, contudo, que "a educação é o maior e o mais difícil problema que pode ser proposto ao homem" (KANT,1984:77), e, seguindo Rousseau, exige que não se aprendam pensamentos, que não se encha a cabeça das crianças com ideias de outros, porque o que é importante é aprender a pensar. "Importa, antes de mais, que as crianças aprendam a pensar". (KANT, 1984:83). Maria de Jesus Fonseca in ipv.pt

Querelas da Retórica e da lógica

Vem a propósito assinalar que muitas das actuais críticas à retórica não passam de mera transposição para os nossos dias desta querela platónica da antiguidade, pelo que não será pela novidade que poderão surpreender. Sucede até que, pelo menos no que respeita à forma de encarar a persuasão inerente ao acto retórico, o mérito vai para Platão, o qual, depois dos ataques que lhe desferiu numa obra da juventude (Górgias), soube reconhecer, já na maturidade, o incontornável papel que a mesma desempenha em toda a argumentação. Confirma-o, nomeadamente, no “Fedro”, quando, depois de admitir o exagero das suas censuras, resolve pôr a retórica a dizer de sua justiça, nesta muito esclarecedora interpelação: “de que estais a tagarelar, homens de pouca monta? Não sabeis por acaso que eu não obrigo ninguém, que ignore a verdade, a aprender a falar, mas, posto que o meu conselho tenha algum merecimento, primeiro cumpre aprender a verdade e só depois se dedicar à minha prática? Eis, por conseguint…

Educação para o Futuro

"Eis um princípio da arte da educação que os homens que fazem planos de educação, particularmente deveriam ter sob os seus olhos: não se deve somente educar as crianças segundo o estado presente da espécie humana, mas segundo o seu estado futuro, possível e melhor, quer dizer, conforme à Ideia de Humanidade e ao seu destino total. Este princípio é de grande importância. Os pais, de ordinário, só educam os filhos com vista a adaptá-los ao mundo actual, por mais corrompido que ele esteja. Deveriam, pelo contrário, dar-lhes uma educação melhor, a fim de que um melhor estado possa daí surgir no futuro." Kant in Réfléxions sur l' éducation

Solidariedade... falta

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht (1898-1956)

Que se entende por religião? por Anselmo Borges

Quando se fala em religião em sentido estrito, é necessário começar por distinguir um duplo pólo: a religião refere-se ao pólo subjectivo, isto é, ao movimento de transcendimento e entrega confiada a uma realidade sagrada, que é o pólo objectivo - o Sagrado ou Mistério. O religioso diferencia-se, pois, do profano, já que indica o modo concreto e peculiar de assumir a existência na perspectiva do Sagrado. Todas as religiões têm em comum o facto de estarem referidas a um âmbito de realidade que é o Sagrado, e são um sistema organizado de mediações - crenças, práticas, símbolos, lugares... - nas quais o Homem religioso exprime o seu reconhecimento, adoração, entrega à Transcendência enquanto fonte de sentido e salvação. A religião enquadra-se na experiência radical de dependência, implicando um núcleo com esses dois pólos: um pólo objectivo, constituído pela presença de uma realidade superior de que se depende, e um pólo subjectivo, que consiste na atitude de reconhecimento dessa realida…

Educação e Filosofia

“O ponto de vista da educação permite-nos compreender os problemas filosóficos no lugar em que eles surgem e crescem, no seu lugar próprio, lá onde o “sim” e o “não” exprimem uma oposição prática. Se se vir na educação, a formação das tendências fundamentais, intelectuais e afectivas, que têm por objecto a natureza e os nossos semelhantes, podemos chegar ao ponto de definir a filosofia como a teoria geral da Educação”  Dewey, Democracy and Education, p.328

Filosofia Árabe na Idade Média

No fundo do mar há riquezas incomparáveis, mas se queres segurança, busca-a na praia.
Saadi, in Jardim das Rosas
"O pensamento árabe representou, nas suas mais remotas origens, uma dinâmica projecção dos grandes sistemas filosóficos gregos, ainda que vazado em língua semítica e fundamente modificado sob a influência oriental. A dimensão desse facto torna-se imensa quando se considera que o Ocidente deve aos filósofos árabes muito da preservação, já a nível crítico, do platonismo e, sobretudo, do aristotelismo. A filosofia islâmica (“al-falsafa”) consubstancia o pensamento expresso em língua árabe, intimamente ligado aos dogmas religiosos e escatológicos que floresceram entre os séculos VII e XV. Excluem-se dessa denominação as tendências modernas e contemporâneas da filosofia árabe, analisadas apenas como floração do Oriente dentro e fora dos limites da Idade Média latina.  Nos primórdios, e em rigor até ao século IX, as especulações filosóficas do mundo árabe restringiam-se às di…

Educação e linguagem

"(...) os encarregados de educação devem exercer um controlo sobre a maneira como as crianças passam o tempo...Como até aos sete anos têm que ser criadas em casa, é lógico que, sendo tão pequenas, aprenderão coisas indignas a partir do que vêem ou ouvem. Deveria ser o primeiro dever do legislador, por conseguinte, banir o uso da linguagem ordinária. O uso da má linguagem de qualquer tipo, é a porta de entrada para o mau agir. Os jovens, especialmente, deveriam ser afastados da audição, ou impedidos de usar tal tipo de linguagem" Aristóteles, Política livro VIII

O Falsificacionismo em Popper

"Vários foram os epistemólogos e investigadores da história das ciências que contribuíram para uma superação da concepção positivista da ciência e de forma particular para o surgimento do que se veio a designar por "nova filosofia da ciência". De entre outros está Karl Popper. Este defendeu que não existe processo algum de indução pelo qual possam ser confirmadas as teorias científicas. Popper criticou aquilo a que chamou o mito do "observatismo", vigente no modelo de investigação positivista, segundo o qual a observação pode ser fonte segura do conhecimento. Segundo Popper, por detrás da ideia de indução, encontra-se a convicção errada de que o investigador pode observar e experimentar a realidade sem pressupostos e sem preconceitos. Não se pode admitir que o espírito do investigador se comporte como uma tábua rasa, já que tal seria ignorar o facto de que sempre se observa e se experimenta em função de problemas, teorias e modelos que condicionam a investiga…

Educação e responsabilidade do Estado Central

"Há anos que as políticas educativas dos sucessivos governos têm privilegiado a mudança em detrimento da melhoria. Ora, estes caminhos são muito distintos. O paradigma da mudança repousa na iluminação dos detentores momentâneos do poder que, possuídos de uma divinal chama, decretam e despacham a toda a hora as mudanças. E estas ocorrem, fatalmente, no dia decretado. Por sua vez, o paradigma da melhoria assenta numa acção humilde, determinada e persistente de cada escola, envolvendo sobretudo professores, alunos e pais que, partindo da análise das suas fragilidades e potencialidades, ousam estabelecer e percorrer compromissos de melhoria gradual. A primeira via gera irresponsabilidade, a segunda sustenta-se na responsabilidade." Joaquim Azevedo in Jornal Público (2005)

Matemática, lógica e realidade - Albert Einstein

"Como é que a matemática, que é um produto do pensamento humano e independente de qualquer experiência, se adapta duma maneira tão admirável aos objectos da realidade? A razão humana seria capaz, sem recurso à experiência, de descobrir só pela sua actividade as propriedades dos objectos reais? A esta questão é preciso, na minha opinião, responder do seguinte modo: na medida em que as proposições da matemática se relacionam com a realidade não são certas, e na medida em que elas são certas, não se relacionam com a realidade. A clareza perfeita sobre este assunto não podia ter-se tornado comum sem a tendência em matemática que é conhecida sob o nome de axiomática. O progresso realizado por esta última consiste em que a parte lógica e formal é cuidadosamente separada do conteúdo objectivo ou intuitivo. Segundo a axiomática, a parte lógica e formal constitui só o objecto da matemática, mas não o conteúdo intuitivo ou outro que lhe esteja associado. (...) A axiomática moderna desembar…