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Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2014

Em busca do sentido da vida - por Vergílio Ferreira

Como exprimir em duas linhas o que venho tentando explicar já não sei em quantos livros? A vida é um valor desconcertante pelo contraste entre o prodígio que é e a sua nula significação. Toda a «filosofia da vida» tem de aspirar à mútua integração destes contrários. Com uma transcendência divina, a integração era fácil. Mas mais difícil do que o absurdo em que nos movemos seria justamente essa transcendência. Há várias formas de resolver tal absurdo, sendo a mais fácil precisamente a mais estúpida, que é a de ignorá-lo.  Mas se é a vida que ao fim e ao cabo resolve todos os problemas insolúveis - às vezes ou normalmente, pelo seu abandono - nós podemos dar uma ajuda. Ora uma ajuda eficaz é enfrentá-lo e debatê-lo até o gastar... Porque tudo se gasta: a música mais bela ou a dor mais profunda. Que pode ficar-nos para já de um desgaste que promovemos e ainda não operamos? Não vejo que possa ser outra coisa além da aceitação, não em plenitude - que a não há ainda - mas em resignação. Fi…

A natureza da actividade filosófica - por I. Petrone

"(...) è una visione del mondo in termini d’intelligibilità ed è fondazione della possibilità dell’esperienza. È, quindi, di sua natura, una sintesi espirituale dell’esperienza, una ideale composizione e deduzione della medesima, una intuizione della natura intima delle cose e delle relazioni, ossia del loro nascimento ideale dalla virtù operosa dello spirito, una illuminazione impressa e derivata sui prodotti della consapevolezza dello spirito produttore, un ritorno dello spirito sulla sua interiorità produttiva." Igino Petrone in Il Diritto nel Mondo dello Spirito
A filosofia "é visão do mundo em termos de inteligibilidade e é fundação da possibilidade da experiência. É, portanto, pela sua natureza, uma síntese espiritual da experiência, uma composição ideal e dedução da mesma, uma intuição da natureza íntima das coisas e das relações, isto é, em virtude do seu nascimento ideal enquanto virtude trabalhadora do espírito, uma compreensão impressa e derivada da autoconsciê…

A impossibilidade da metafísica como ciência - Kant

O conhecimento científico, embora não tenha o seu fundamento na experiência, começa com ela e por isso só pode ser conhecimento de realidades empíricas. Conhecer é estabelecer relações de causalidade entre aquilo que se relaciona com o sujeito. Como é que as coisas se podem relacionar comigo? Se se manifestarem no espaço e no tempo, ou seja, se eu as puder espacializar e temporalizar mediante as formas da minha sensibilidade. Isto quer dizer que o conhecimento científico não é produzido pela sensibilidade, mas só pode ser acerca dos dados que esta recebe. Todo o conhecimento possível ao homem está limitado ao campo dos objectos que eu posso enquadrar no espaço e no tempo, aos dados da intuição empírica ou sensível. Assim, os dados sensíveis são o que a sensibilidade coloca ao dispor do entendimento e do seu conceito por excelência: o conceito de causa. A relação causal que este estabelece, está limitada aos dados sensíveis ou fenómenos. O vínculo causa-efeito consistirá então em expli…

Ateísmo, valores e a busca do sentido - Ricardo Araújo Pereira

Lo ignoramos

La luna ignora que es tranquila y clara
Y ni siquiera sabe que es la luna;
La arena, que es la arena. No habrá una
Cosa que sepa que su forma es rara.
Las piezas de marfil son tan ajenas
Al abstracto ajedrez como la mano
Que las rige. Quizá el destino humano
De breves dichas y de largas penas
Es instrumento de Otro. Lo ignoramos;
Darle nombre de Dios no nos ayuda.
Vanos también son el temor, la duda
Y la trunca plegaria que iniciamos.
¿Qué arco habrá arrojado esta saeta
que soy? ¿Qué cumbre puede ser la meta?

Jorge Luis Borges in La rosa profunda 

O Amor é um Exagerador - por Miguel Esteves Cardoso

As coisas boas, como o amor e a sabedoria, não trazem a felicidade pela simples razão que as coisas boas têm, para ser boas, de ser «boas por si mesmas». Não podem ser boas por aquilo que trazem. Pelo contrário, têm um preço. O mais das vezes, o preço do amor e da sabedoria, ambos artigos finos, artigos de luxo, coisas boas, é a infelicidade. Quando se ama, ou quando se estuda muito, fica-se sujeito às vontades e às verdades mais alheias. Nada depende quase nada de nós. E sofre-se. Irritam as pessoas que esperam que o amor traga a felicidade. É como esperar que os morangos tragam as natas. O amor não é um meio para atingir um fim — não é através do amor que se chega à felicidade. O amor é um exagerador — exagera os êxtases e as agonias, torna tudo o que não lhe diz respeito (o mundo inteiro) numa coisa pequenina. Assim como a arte tem de ser pela arte e a ciência pela ciência (seria um horror ouvir alguém dizer «Eu quero ser pintor ou biólogo para ganhar muito dinheiro e ir a muitas …

Dedução transcendental dos conceitos puros do entendimento - Kant

Segunda Secção  DEDUÇÃO TRANSCENDENTAL DOS CONCEITOS PUROS DO ENTENDIMENTO  §15  DA POSSIBILIDADE DE UMA LIGAÇÃO EM GERAL

O diverso das representações pode ser dado numa intuição simplesmente sensível, isto é, que não seja mais do que receptividade, e a forma desta intuição pode encontrar-se a priori na nossa capacidade de representação, sem que seja algo diferente da maneira como o sujeito é afectado. Simplesmente, a ligação (conjunctío) de um diverso em geral não pode nunca advir-nos dos sentidos e, por consequência, também não pode estar, simultaneamente, contida na forma pura da intuição sensível, porque é um acto da espontaneidade da faculdade de representação; e já que temos de dar a esta última o nome de entendimento, para a distinguir da sensibilidade, toda a ligação, acompanhada ou não de consciência, quer seja ligação do diverso da intuição ou de vários conceitos, quer, no primeiro caso, seja uma intuição sensível ou não sensível, é um acto do entendimento a que aplicaremos…

Entre o que vejo - Alberto Caeiro (F.Pessoa)

Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo
Passa um momento uma figura de homem.
Os seus passos vão com "ele" na mesma realidade,
Mas eu reparo para ele e para eles, e são duas cousas:
O "homem" vai andando com as suas ideias, falso e estrangeiro,
E os passos vão com o sistema antigo que faz pernas andar.
Olho-o de longe sem opinião nenhuma.
Que perfeito que é nele o que ele é — o seu corpo,
A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças,
Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar.

Alberto Caeiro, poemas inconjuntos

Definir o conhecimento científico para Kant

Para Kant, falar de ciência é falar de um determinado conjunto de conhecimentos que se exprimem em enunciados a que dá o nome de juízos sintéticos apriori. Um conhecimento científico é expresso num juízo, constitui uma síntese ou unidade e não deriva da experiência. Para melhor se entender o que é um juízo científico, Kant distingue-o dos juízos analítico e sintético a posteriori. Todos os juízos consistem na relação entre um sujeito e um predicado, podendo este ser afirmado ou negado do sujeito. A relação, como veremos imediatamente, assume várias formas e tem fundamentos diversos. 2. l. O juízo analítico Que relação existe entre o sujeito e o predicado? O predicado está contido no sujeito e portanto basta analisar o sujeito para explicitar ou revelar o predicado. É um juízo explicativo, pois o predicado somente explica aquilo em que o sujeito consiste, revela a sua essência. E um juízo de identidade ou uma tautologia, pois no predicado repete-se por outras palavras o que o sujeito é,…

A estética transcendental de Kant

Esta parte da Crítica da Razão Pura tem o nome de Estética (do grego aisthésis que significa sensação) transcendental (significa condição de possibilidade a priori de algo) porque investiga as condições a priori que tornam possível a recepção de impressões sensíveis ou sensações. Essa investigação chegou a várias conclusões importantes: 1 — Todo o conhecimento começa com a experiência. Para conhecermos é preciso que algo nos seja dado. Ora é a intuição que nos dá objectos, ou seja, algo para conhecer. Toda a nossa intuição é sensível consistindo na recepção de dados empíricos ou impressões sensíveis mediante duas formas que temos de as receber: o espaço e o tempo. A experiência é precisamente esta recepção, espácio-temporalmente condicionada, de dados empíricos. Sem ela nada teremos para conhecer, não haverá objectos para o nosso conhecimento. Por isso todo o conhecimento começa com ela. 2 — Espaço e tempo não são coisas nem impressões sensíveis. São as formas que tenho de "…

Discurso do Método - Descartes

Não sei se deva falar-vos das primeiras meditações que fiz [na Holanda, para onde me retirara]; porque são tão metafísicas e tão pouco vulgares que não agradarão talvez a toda a gente. E todavia vejo-me de certo modo obrigado a falar-vos delas, para que se possa avaliar se os fundamentos que escolhi são bastante firmes. De há muito tinha notado que, pelo que respeita à conduta, é necessário algumas vezes seguir como indubitáveis opiniões que sabemos serem muito incertas, como já atrás foi dito. Mas agora, que resolvera dedicar-me apenas à descoberta da verdade, pensei que era necessário proceder exactamente ao contrário, e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se após isso acaso ficaria qualquer cousa nas minhas opiniões que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, eu quis supor que nada há que seja tal como eles o fazem imaginar. E, porque há homens que se enganam ao racio…

A autoridade manda crer; a razão demonstra - por Francisco Sanches

"Não esperes de mim um estilo ataviado e polido. Empregá-lo-ia se quisesse mas a verdade escapa-se quando estamos a escolher muito as palavras e usamos de rodeios: isso é nem mais nem menos que enganar. Se é isso que desejas, recorre a Cícero, pois é esse o seu ofício. O que eu disser será bastante belo, se bastante verdadeiro. As belas frases convêm aos retóricos, aos poetas, aos áulicos, aos namorados, às cortesãs, aos proxenetas, aos aduladores, aos parasitas e semelhantes, para os quais o falar bem é um fim. Para a ciência basta, e é necessária mesmo, a propriedade, o que não pode conjugar-se com aquilo. Não exijas também de mim muitas citações, ou uma reverência para com os autores que é mais própria de um ânimo servil e inculto do que de um espírito livre e que busca a verdade. A autoridade manda crer; a razão demonstra; aquela é própria da fé; esta, da ciência. Dos outros, aquilo que me parecer verdadeiro, confirmá-lo-ei com a razão; o que me parecer falso, infirmá-lo-ei. …

Mito - um apontamento - por Olga Pombo

Na Grécia Antiga, os sentidos primordiais da palavra mythos eram os de palavra ou discurso. Na literatura grega, mythos surge com o sentido de história ou narrativa a transmitir através da palavra. O mito é, antes de mais, uma narrativa cuja existência depende da materialização na palavra falada ou escrita, do contar alguma coisa a alguém. Enquanto tal, o mito é a estrutura que permanece independentemente da sua materialização literária. Quer isto dizer que "um mito não é o mito". Ao longo dos tempos, um mesmo mito pode ser preenchido e enriquecido com diversos pormenores e actualizações. De realçar portanto o aspecto dinâmico, a possibilidade que o mito tem de evoluir, de ser enriquecido, ou pelo contrário, de ser empobrecido e, inclusivamente, de desaparecer. O mito é, assim, passível de construção, reconstrução e actualização. Os aspectos que caracterizam o mito na Antiguidade Clássica grega são o facto de este ser uma narrativa anónima, fabulosa, de aceitação colectiva …

Exame Nacional de Filosofia

Para todos os alunos que desejem fazer o Exame Nacional de Filosofia, as informações encontram-se AQUI.

Felicidade - por MEC

Cada vez mais se aproxima o tempo da felicidade vivida da saudade dela. Não só já tenho saudades de ontem, porque já passou, como começo a ter saudades das coisas enquanto estão a acontecer, por saber que vão acabar e ser capaz, sem querer, de pressentir as saudades que vou ter daqueles momentos, enquanto conseguir continuar a lembrar-me deles. Mesmo na cozinha, quando a Maria João e eu estamos a lavar louça, rindo e namorando e discutindo, ocorre-me cruelmente, enquanto ainda lá estou, que será daquela ocasião, só aparentemente banal, que teremos saudades quando dermos, de repente, valor à deliciosa ilusão da banalidade quotidiana. Não é quotidiana. É rara. Um momento sem angústia, sem impossibilidade ou sem sacrifício (ou sem a dor não só de existir como a de estar cá, como corpo fisicamente doloroso) parece-se cada vez mais com a alegria. É por esta razão que Schopenhauer é uma paixão da juventude. O prazer não é a ausência da dor. O prazer é um prazer que contém a tristeza e a dor…

De volta ao (des)acordo ortográfico

O acordo ortográfico é uma decisão política e como tal deve ser tratado. Não é uma decisão técnica sobre a melhor forma de escrever português, não é uma adaptação da língua escrita à língua falada, não é uma melhoria que alguém exigisse do português escrito, não é um instrumento de cultura e criação. É um acto político falhado na área da política externa, cujas consequências serão gravosas principalmente para Portugal e para a sua identidade como casa-mãe da língua portuguesa. Porque, o que mostra a história das vicissitudes de um acordo que ninguém deseja, fora os governantes portugueses, é que vamos ficar sozinhos a arcar com as consequências dele. O acordo vai a par do crescimento facilitista da ignorância, da destruição da memória e da história, de que a ortografia é um elemento fundamental, a que assistimos todos os dias. E como os nossos governantes, salvo raras excepções, pensam em inglês “economês”, detestam as humanidades, e gostam de modas simples e modernices, estão bem co…

A discriminação positiva

in http://50licoes.blogspot.pt/

A desobediência Civil - Gandhi