Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2013

IV Ciclo CinemaVida - 18/Maio/2013

Dando continuidade ao debate à volta de temas complexos sobre a Vida e que requerem uma reflexão consensual e profunda, o ISCRA, vai realizar no próximo dia 18 de Maio, Dia da Vida, a quarta edição do Ciclo CinemaVida.  Desta vez o debate recairá sobre dois temas inquietantes da atualidade. A manhã desse dia iniciará com a questão: «Vida humana e deficiência: quem pode definir que vidas são dignas?». Esta reflexão inicia com a projeção do filme: «O Escafandro e a Borboleta» (ver trailer), seguido de colóquio com Doutor Filipe Almeida (Diretor do Serviço de Humanização do Hospital de S. João - Porto; Presidente da Direção do CEB; Comissão de Ética Investigação Clínica). À tarde a grande pergunta temática refere: «Ética e indústria farmacêutica: quantas vidas justificam a descoberta de um medicamento?». Para chegar a uma resposta será projetado o filme «O Fiel Jardineiro»(ver trailer), seguido de colóquio com Doutora Ana Sofia Carvalho (Professora Associada da UCP. Diretora do Institut…

A capacidade simbólica humana

(Texto em Português do Brasil) Designa-se o ser humano como homo sapiens sapiens. Justamente o fundamento da possibilidade da linguagem reside no caráter racional dos seres humanos. O homem não fala porque tem língua, mas sim inteligência. O homem se manifesta como um ser que fala precisamente por que tem inteligência e conhece. Mas não basta com a racionalidade para expressar o específico do homem. Como o termo razão não basta para abarcar toda a riqueza da vida cultural do homem. O que distingue também o homem dos animais irracionais é sua capacidade de converter em signo tudo o que toca, sua capacidade simbólica: o homem é um animal symbolicum. (...) Graças à linguagem, à religião e à ciência, os seres humanos construíram um universo simbólico que lhes permite entender e interpretar, articular e organizar, sintetizar e universalizar sua experiência. Na linguagem o homem descobre seu poder inusitado, a capacidade de construir um mundo simbólico.
É notável a importância dessas reflexõ…

TED - Filosofia na vida - por Alain de Botton

“Dadá não significa nada.” - O dadaísmo

O movimento Dadá, (dadaísmo) surgiu a partir da Europa em 1915. O nome escolhido aleatoriamente de um dicionário, deve-se a Tristan Tzara. Aos nossos olhos muitas das intervenções dadaístas parecem infantis mas temos que ter em conta o momento em que surgiram: uma Europa em guerra, onde a falta de lógica impera na vida e nas acções que a rodeiam; a imbecilidade e o absurdo são agora uma espécie de espelho crítico da própria realidade. Este movimento manifesta-se sobretudo nas artes plásticas e nas letras de um modo simultaneamente destrutivo e construtivo, fútil e profundo, "artístico e antiartístico". Aqui fica o registo de um poema de Tristan Tzara: "Pegue num jornal.
Pegue numa tesoura.
Escolha no jornal um artigo com o comprimento que pretende dar ao seu poema.
Recorte o artigo.
Em seguida, recorte cuidadosamente as palavras que compõem o artigo e coloque-as num saco.
Agite suavemente.
Depois, retire os recortes uns a seguir aos outros.
Transcreva-os escrupulosamente pe…

Falaram-me os homens em humanidade - Alberto Caeiro

Falaram-me os homens em humanidade, Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Filosofia do Jazz

“Foi por volta dos anos 30 que a Europa se rendeu aos improvisos de Louis Armstrong e de Duke Ellington. Escritores próximos a Virginia Woolf Assumiram o estilo intimista de Ella Fitzgerald e de Sarah Vaughan. À exceção de um ou outro, muitos foram os intelectuais, especialmente os poetas da Beat Generation, que se encantaram com a música sincopada de Charles Parker e Dizzy Gillespie. Em um de seus romances mais importante (A Náusea), Sartre tecia um rasgado elogio ao jazz e suas variáveis. Havia muita coisa em comum entre esta música afro-americana e a filosofia. Arrisco dizer que desde os antigos e certos elementos do jazz já faziam parte da investigação filosófica. Louis Armstrong e Duke Ellington, o primeiro de origem humilde e o outro de classe média, um de Chicago o outro de Washington, transformaram o jazz na arte do estilo e do improviso. Desses dois sugiram mais e mais estilos numa profusão de experimentações. Primeiro veio o Hot, depois o Sweet e o Bebop, o Cool, o Progressi…

Os opostos e o sincretismo mítico - Mircea Eliade

“O que nos revelam todos esses mitos e esses símbolos, todos esses ritos e essas técnicas místicas, essas lendas e essas crenças que implicam, com maior ou menor clareza, a coincidentia oppositorum, reunião dos contrários, a totalização dos fragmentos? Antes de tudo, uma profunda insatisfação do homem com a sua situação atual, com aquilo que se chama condição humana. O homem sente-se dilacerado e separado. Nem sempre lhe é fácil tomar consciência perfeita da natureza dessa operação, pois às vezes ele se sente separado de ‘alguma coisa’ poderosa, outra coisa que não ele; outras vezes sente-se separado de um ‘estado’ indefinível, atemporal, do qual não guarda lembrança precisa, mas do qual se lembra no mais profundo de seu ser: um estado primordial de que usufruía antes do tempo, antes da História. Essa preparação constituiu-se como uma ruptura, nele e no Mundo. Foi uma ‘queda’, não necessariamente no sentido judaico-cristão do termo, todavia uma queda, já que traduzida por uma catástr…

Que valores na Res Publica? - Baptista-Bastos

"O mundo actual semelha-se ao mito de Sísifo. Anda de baixo para cima e de cima para baixo, infinitamente sem encontrar o recto caminho, e carregado pelo peso de um rochedo que, mais tarde ou mais cedo, irá rolar pela encosta. Há muitos anos que não dispomos de dirigentes à altura das mudanças do mundo. Guiam-se, todos, à Direita e à Esquerda, pela mesma cartilha. Removeram a ideologia e as convicções do calendário político. Ao contrário de Sísifo, que recusa, obstinadamente, a derrota, eles submeteram-se às consequências desta união no vazio.
Que valores vão defender os participantes na Res Publica?" Baptista-Bastos in jornaldenegocios.pt/opiniao/

Filosofia económica/política - Michael Spence - O FIM DA SOBERANIA ORÇAMENTAL NA EUROPA?

O falecido Milton Friedman afirmou que uma moeda comum - ou seja, uma união monetária - não pode ser mantida sem uma profunda união económica e política. Com isto, ele queria dizer uma economia aberta que garantisse o fluxo livre de bens, trabalho e capital, em conjunto com uma autoridade central orçamental disciplinada e um banco central forte. Estes dois últimos são os pilares de uma moeda forte. Funcionam em conjunto. Mas as outras peças não são menos importantes.
A Zona Euro, que actualmente enfrenta um desequilíbrio orçamental e um risco em matéria de dívida soberana, tem um banco central autónomo e forte, mas é fragmentada em termos orçamentais e apenas parcialmente unida em termos políticos.
O Tratado de Maastricht impõe uma disciplina orçamental ao definir limites aos défices e às dívidas dos governos - uma estrutura, claramente, definida para impedir que alguns países se aproveitam da disciplina fiscal de outros. Maastricht foi criado para evitar situações como a que está a o…

ULYSSES - O mito é o nada que é tudo (Fernando Pessoa)

O mytho é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

Fernando Pessoa in Mensagem

Absurdo e sentido - Nietzsche

Uma vez admitidos dois factos: que o devir não tem fim e que não é dirigido por qualquer grande unidade na qual o indivíduo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta só uma escapatória possível: condenar todo esse mundo do devir como ilusório e inventar um mundo situado no além, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo não é senão construído sobre as suas próprias necessidades psicológicas e que ele não é de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a última forma do niilismo, que implica a negação do mundo metafísico e que a si mesma se proíbe de crer num mundo verdadeiro. Alcançado este estado, reconhecemos que a realidade do devir é a única realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam à crença em outros mundos e em falsos deuses - mas não suportamos este mundo que não temos já a vontade de negar.
(...) Que se passou portanto? Chegámos ao sentimento do não valor da existência quando c…

23 de Abril - Dia Mundial do Livro

Cansaço - Fernando Pessoa

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..…

O criador dos deuses - Crítias (fragmento b25)

Outrora, houve um tempo em que o homem vivia sem leis
Como um fauno, respeitando apenas a força;
Em que os bons não obtinham qualquer recompensa,
Em que os maus também ficavam impunes;
Só depois, os homens estabeleceram leis de repressão […]
Para que a lei reinasse como senhora soberana,
E desse modo dominasse a sua louca desmesura.
A partir de então era possível castigar os faltosos.
Seguidamente, como as leis reprimiam os delitos
Proibindo que se realizassem às claras os crimes,
Mas não em segredo, foi então, creio eu,
Que um sábio, que sabia por sabedoria profunda,
Forjou para os mortais os Deuses
Para inspirar o temor aos maus, que se escondem
Para agir, ou falar, ou mesmo para pensar.
Essa é a razão por que introduziu Deus,
Dizendo-lhes que goza de uma vida eterna,
E que pelo entendimento entende e vê e julga
Todos os actos cometidos; que a sua natureza é divina,
Que ele perscruta todas as intenções dos mortais
E que tem meios para ver tudo o que eles fazem.
Mesmo quando calasse…

Crítica e Filosofia - por Bertrand Russell

A característica essencial da filosofia, que a torna um estudo diferente da ciência, é a crítica. A filosofia examina criticamente os princípios usados na ciência e na vida quotidiana; procura inconsistências que possam existir nestes princípios, e só os aceita quando, em resultado de um inquérito crítico, não surgiu qualquer razão para os rejeitar. [...] Contudo, quando falamos da filosofia como uma crítica do conhecimento, é necessário impor uma certa limitação. Se adoptamos a atitude do céptico completo, colocando-nos completamente fora de todo o conhecimento, e pedindo, desta posição exterior, para sermos obrigados a regressar ao interior do círculo do conhecimento, estamos a exigir o impossível, e o nosso cepticismo nunca poderá ser refutado. Pois toda a refutação tem de começar com algum pedaço de conhecimento que os contendores partilham; nenhum argumento pode começar da dúvida nua. Logo, para que algum resultado se alcance, a crítica do conhecimento que a filosofia usa não po…

Utopia por Rui Pereira

Numa conferência recente, ouvi a expressão "utopia crítica". Suponho que o autor recorreu a essa fórmula para esconjurar as perversões a que as utopias nos conduziram no passado. Em nome da sociedade sem classes, por exemplo, sacrificou-se a liberdade individual e o princípio democrático. A utopia crítica seria, assim, um "não lugar" (é precisamente esse o significado de "utopia" em grego) que nunca se esquece do que é: um programa inatingível, com objectivos inexequíveis, mas que suscita em nós uma constante vontade de aperfeiçoamento.
A "Utopia" de Thomas Morus – como as utopias de Swift, Voltaire ou do ícone da música popular John Lennon (‘Imagine’) – surgiu como crítica filosófica e política de uma sociedade amarrada a preconceitos e tradições injustas. A morte anunciada das utopias, no século passado, constituiu um poderoso estímulo ao ressurgimento desses preconceitos e tradições, em nome do realismo e do pragmatismo. Regimes "empenha…

Zaratustra - um modo de ser Filósofo

Nietzsche alcançou a imortalidade com o famoso "personagem" Zaratustra: não é um "vulgar" sábio: não retiramos conhecimento directo da leitura de Nietzsche sobre qualquer dos assuntos tratados. De facto, Zaratustra apenas questiona, divaga e filosofa por temáticas da sociedade e natureza humanas. Não chega a lugar nenhum - nem quer chegar. Não cria uma nova moral, não sugere formas de mudar o mundo, melhorar a sociedade ou as relações humanas. Antes analisa os problemas do mundo real a fundo e trata as inconsistências da nossa sociedade frontalmente.
Zaratustra é um filósofo no sentido mais "original" que a palavra pode ter: questiona todas as coisas pelo prazer de questionar e de evidenciar as incongruências, os absurdos. Está longe das certezas, longe da inteligibilidade directa, longe de tudo. Vaga sem rumo, repete e diz coisas novas. Não busca a compreensão, revela a dúvida como princípio básico. Fernando Pessoa explica muito bem este quadro:

"(.…

Em volta da significação do texto - a desconstrução textual

«Não há nada fora do texto»
Jacques Derrida
"O texto é ou não é, dependendo da sua desconstrução. Adoro ouvir as diferentes interpretações de um mesmo texto...como gostaria de participar na desconstrução de uma pessoa, para lhe retirar a essência do nosso ser... Com isto não quero dizer que gostaria de destruir o texto ou a pessoa, mas antes desmontá-los, para obter o leque de componentes e significados possíveis que fazem deles outros textos, diversas pessoas, e ainda outros, e ainda mais outros e outros e outros... Desfiar uma toalha de renda para apreciar, no final, o fio que a fez tão delicada, tão gravemente branca, tão bela e única... E desse fio, desfiar outros finíssimos, quase imperceptíveis, quase cabelos, quase nada. É banal, por exemplo, fazermos isto com as cartas de amor, em plena adolescência. Dar a ler um texto impregnado de amor e de intenções incertas, numa folha de carta colorida e com cheirinho a perfume, à melhor ou às melhores amigas é um meio de acumulação de…

A polissemia da Arte

"A representação do corpo na criação artística contemporânea multiplica-se e desdobra-se como metáfora do homem, convertendo-se num conceito dinâmico, encaminhando-o para a expressão de si mesmo, de si ante o mundo, transformando-se em gesto, movimento, grafismo ou performance, como forma de comunicar simultaneamente o corpo, o mundo e a arte. Na actualidade o corpo da arte, tal como o individuo, é uma espécie de mutante, assume identidades ambíguas, retalhadas e múltiplas, transgredindo fronteiras do seu ser, do seu parecer, do seu encenar, em corpos sem órgãos ou órgãos sem corpos que estabelecem relação com outros, preconizando diálogos por espaços vazios, intervalos e silêncios. A arte assume a polissemia do individuo e da comunicação em obras abertas, que pressupõem passagens por diversas leituras, remetendo o espectador para um papel activo na construção de imagéticas, entre o que é dado a ver e o que esta oculto, de modo explicito ou intuitivo, como pressuposto artístico…

Estes amam o povo... por Agostinho da Silva

"Estes amam o povo, mas não desejariam, por interesse do próprio amor, que saísse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as superstições e as lendas; vêem-se generosos e sensíveis quando se debruçam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; é muito interessante o animal que examinam, mas que não tente o animal libertar-se da sua condição; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posição; em nome da estética e de tudo o resto convém que se mantenha.
Há também os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir é o domínio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um coração de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o vão desejo de mandar; nestes não encontraremos a frase preciosa…

Ciências Naturais e Ciências Humanas

Na Idade Moderna, com a chamada revolução científica do século XVII, teve início a separação e a distinção entre a Filosofia e a Ciência, com o consequente desdobramento da última, nos séculos posteriores, em Ciências Exactas, Naturais e Humanas ou Sociais, ou melhor, em diferentes maneiras de realização do ideal de cientificidade.
É comum dizer-se que a Ciência, como um modo de conhecer o real, distinto daquele da Filosofia, só teve o seu advento no século XVII, com os trabalhos de Galileu e Descartes, visando estabelecer método, conceitos e objectos de estudo, a partir da experimentação e do modelo da linguagem matemática. Observa-se, assim, primordialmente, a matematização da Natureza e, neste caso, a concepção de Ciência de Galileu é exemplar, porque, para ele, "o grande livro da Natureza está escrito em caracteres matemáticos", estando ausente dessa concepção de ciência toda a referência ao subjectivo e ao qualitativo (tal como concebido por Aristóteles). Para Galileu,…

Do monismo do mito ao pluralismo das ordens de inteligibilidade

A partir de Gusdorf, Georges (1979), Mythe et Métaphysique, in TPU 3, M.E., Lisboa, pp. 65-67 "Georges Gusdorf tentou, em primeiro lugar, reabilitar a mitologia que é, para ele, “uma primeira metafísica”. Vê na consciência mítica “um enriquecimento e um alargamento da razão”. Para este filósofo, trata-se, não de perder a razão, mas de a salvar regressando ao “homem integral”, realizando “a promoção do instinto a espiritual”. Um tal projecto separa radicalmente Georges Gusdorf do racionalismo e do intelectualismo e, não deixa criticar severamente essas correntes filosóficas às quais censura “desencarnarem a pessoa”. Georges Gusdorf esboça um regresso aos mitos que têm, segundo ele, a vantagem de enunciar a matéria da realidade humana e de desenvolver os valores no estado selvagem.
O papel da filosofia é, pois, o de retomar os mitos para operar uma purificação e uma discriminação. Há mitos de ascensão e de queda, de humano e de inumano. A razão concreta deve-lhes fazer o inventário…

Verdade, construção da realidade e modelação matemática na Ciência

"Segundo Edwards e Hamsom (1990) "um modelo matemático é o produto da transferência de um conjunto de elementos matemáticos (como sejam, funções ou equações), com vista à obtenção de uma representação matemática de uma parcela do mundo real". Já para Swetz e Hartzler (1991), "modelo matemático de um objecto ou de um fenómeno real é um conjunto de regras ou leis, de natureza matemática, que representam adequadamente o objecto ou o fenómeno na mente de um observador". Entre estas duas definições existem algumas diferenças, sobretudo no que se refere à aplicação da Matemática para explicar uma parcela do real. O modo como a teoria e as aplicações da Matemática se relacionam é então designado por matematização ou modelação matemática. Isto significa, como afirma Ian Stwart, "Qualquer descrição matemática do mundo real é um modelo. Manipulando o modelo esperamos compreender algo da realidade. E já não perguntamos se o modelo é verdadeiro, perguntamos unicam…

Louvor da Dialéctica - por Bertolt Brecht

A injustiça caminha hoje com passo firme.
Os opressores instalam-se pra dez mil anos.
A força afirma: Como está, assim é que fica.
Voz nenhuma soa além da voz dos dominadores
E nas feiras diz alto a exploração: Agora é que eu começo.
Mas dos oprimidos dizem muitos agora:
O que nós queremos, nunca pode ser.

Quem ainda vive, que não diga: nunca!
O certo não é certo.
Assim como está, não fica
Quando os dominadores tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem se atreve a dizer: nunca?
De quem depende que a opressão continue ? De nós.
De quem depende que ela seja quebrada? Igualmente de nós.
Quem for derrubado, que se levante!
Quem estiver perdido, lute.
A quem reconheceu a sua situação, quem poderá detê-lo?
Pois os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
E do Nunca se faz : Hoje ainda!

Bertolt Brecht

A perda de tempo - Adriano Moreira

A única coisa que humanamente é possível fazer com o tempo é seguramente não o perder, porque a liberdade que tem de se escoar não é facilmente oponível. É por isso que, havendo um acordo generalizado sobre a gravidade da crise económica e financeira que se tornou global, mas que atinge mais gravemente os países que foram abrangidos pela fronteira da pobreza, como acontece ao Norte do Mediterrâneo, é necessário avaliar o tempo perdido em debates repetidos sobre banalidades, como o sentido de uma palavra que se distingue numa talvez dispensável intervenção oratória, relacionar a dimensão da autoridade de um órgão estadual com uma divagação que não se relaciona com qualquer interesse nacional, fazer depender a credibilidade de uma conclusão com a análise demorada de um ambiente que desapareceu, em suma, como já foi dito "passamos o tempo envolvidos em discussões inúteis, concentrados no que é conhecido e naquilo que se repete". Numa data e circunstância em que a opinião públic…

Divagações de um médico nas fronteiras entre a filosofia e a ciência

No início era a pretensão de escrever um ensaio sobre a epistemologia da medicina. Sonhava este vosso criado evocar António Damásio e "Ao encontro de Descartes" (quiçá a seu livro de mais fácil leitura) para recordar que o autor nega ser filósofo, de forma peremptória, reportando-se ao papel de homem de ciência. Ora, parece por demais evidente que a obra científica deste nosso compatriota tem implicações filosóficas de grande magnitude. Depois, tencionava dissertar sobre o carácter filosófico da obra de outros grandes cientistas. Diria mesmo que há cientistas cuja actividade intelectual é de tal modo prenhe de consequências filosóficas que têm lugar em ambas comunidades; filosófica e científica. Algo como Viriato, que é herói nacional dos dois lados do Guadiana. Aludiria, por exemplo, a Heisenberg, o físico quântico e ao seu princípio da incerteza
Seguidamente, citaria Comte, que predisse o fim da Filosofia - que se exauriria à medida que dela emergissem as diversas ciência…

Base de dados - Filosofia

Aqui fica uma ligação interessante a uma Base de dados sobre o ensino da Filosofia nas mais diversas áreas: BASE DE DADOS - FILOSOFIA


Tocqueville - Democracia: despótica ou liberal?

Alexis de Tocqueville foi um dos observadores mais argutos do fenómeno democrático e um dos críticos mais subtis da tradição política francesa - que contrastou com a inglesa e a americana. A sua obra-prima, "De la démocratie en Amérique", foi publicada em França em dois volumes em 1835 e 1840. O livro obteve sucesso imediato, embora Tocqueville viesse a ser esquecido na sua França natal, até ser reabilitado por Raymond Aron, na segunda metade do século XX. No mundo de língua inglesa, pelo contrário, foi sempre considerado um clássico do pensamento político. Entre nós, a primeira tradução integral foi apenas publicada em 2000 (Cascais, Principia). (...). No centro da reflexão tocquevilliana está a emergência da era democrática, entendida como a da igualdade de condições, por contraste com a desigualdade aristocrática. Tocqueville vê na democracia muitas vantagens, mas também muitos perigos, sobretudo os da centralização e do despotismo político. Observou que "os homens …

Filosofia e paixão

Não há filosofia sem paixão, sem criatividade, sem irreverência sob o risco de se transformar em saber doutoral e estéril. No entanto não há verdadeira paixão sem filosofia, isto é, sem organização e profundidade sob o risco de se converter em sentimento fútil e espúrio. A filosofia é e será sempre racional mas a reinvindicação plena da racionalidade não pode confundir-se com um qualquer reducionismo que oblitere e empobreça a real complexidade humana. O homem não se reduz à dimensão racional como não se reduz a qualquer outra dimensão porque o característico do homem é a superação e a construção. Se a filosofia é vida e reflexão sobre a vida não pode o filósofo confinar-se ao domínio da racionalidade nem estabelecer leituras únicas do real. A imaginação, o sonho, a afeição e o sentir na sua multiplicidade são instrumentos que o filósofo não pode escamotear a não ser que desvalorize o próprio homem. Um filósofo sem estilo próprio não é um filósofo mas uma máquina pensante ou um imitad…

Democracia: paradigmas e limites - Adriano Moreira

Em relação a todos os modelos e sistemas de governo, a regra de que sempre existe um limite de validade, ou, talvez mais exactamente, de autenticidade, que marca o início da disfunção, parece suficientemente documentada.
Pelo que respeita à democracia, cujas raízes estão, para os ocidentais, na longínqua Atenas e no discurso que Péricles pronunciou perante o túmulo de um soldado morto na Guerra do Peloponeso, se tivéssemos de a avaliar pelo que deixaram escrito Xenofonte, Platão, ou Aristóteles, mal poderíamos compreender o peso que tem no nosso património cultural, vista a pouca benevolência com que se referiram a esta espécie de regime.
Curtido pela guerra, Churchill havia de celebrizar o conceito de que a democracia é o pior dos regimes, com excepção de todos os outros, subscrevendo a convicção de que esta criação ocidental é uma componente do património da humanidade. Todavia, a submissão das palavras leva a que o conceito nominativo conheça uma variedade equívoca de conteúdos, ai…