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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2013

Para quê complicar?

Para quê complicar inutilmente,
Pensando, o que impensado existe?
Nascem ervas sem razão dada
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.Ricardo Reis

Jornalismo: a grande mutação - por M.M.Carrilho

Um dos domínios em que hoje melhor se vê tudo a mudar é sem dúvida no jornalismo: está tudo em transformação, mas ainda sem se perceber bem quais serão as novas formas que virão a impor-se no futuro, quais os seus valores e os seus objectivos. Foi por isso bem escolhido o tema com que o semanário Expresso decidiu fechar as comemorações dos seus 40 anos, que incidiu na pergunta sobre se "o jornalismo (que temos) é útil à democracia". O debate, pelas várias descrições que pude ler, andou muito em torno da responsabilidade dos media na degradação do regime democrático português e das suas mais ou menos visíveis relações com o poder político. É um tema decisivo para quem se interesse pela qualidade e vitalidade da democracia, que, a meu ver comporta, para lá das suas implicações mais imediatas, duas dimensões fundamentais: a primeira decorre do impacto das novas tecnologias no jornalismo tradicional. A segunda incide na legitimidade e na especificidade do jornalismo no novo mund…

Feliz Natal!!!

(Des)fazer o mito do Natal

Para os frequentadores do Café Africano, no Dafundo, ele é “o Pai Natal”. Ninguém sabe em que rua ele vive ou qual o seu verdadeiro nome. É a primeira vez que o vejo e já anseio por lhe tirar o retrato. Quase tudo no Pai Natal é raro: a longa barba branca, a malinha de couro batido, a gravata azul com jogadores de golfe bordados. Ele lembra-me Walt Whitman. Não que eu tenha conhecido o homem, mas o facto é que me lembra. O Pai Natal parece-me absolutamente inacessível, mergulhado em algum arcano que apenas os Iniciados sabem ler entre as linhas de um jornal diário. Penso numa forma de o abordar, mas chega alguém da rua e senta-se à sua frente. Tresanda a vinagre de tinto e não se cala. O Euclides diz-me que é “um chato”. O Pai Natal não o olha sequer. Levanta-se devagar e começa a arrumar as suas coisas – os óculos, a caneta, o bloco-notas – na malinha. É o meu momento. Digo-lhe que tem uma barba extraordinária e que gostava de lhe tirar o retrato. Ele devolve-me um grande sorriso e …

(Não) Nascer Assim - Natal Solidário

Chegados a Dezembro impõe-se falar de Natal. (E quem diz falar, diz escrever!) E por mim, podia ser Natal todo o ano. Não só porque gosto do convívio em família em torno da mesa, nem mesmo só porque ganho em média 5 quilos de felicidade a cada Natal que passa, mas porque parece que por estas alturas as pessoas “acordam” para os dons da bondade, fraternidade e solidariedade. E quanto mais não fosse, só por isso, já valia a pena que fosse Natal todo o ano! Imbuídos do espírito solidário, que gostamos de sentir e viver lá por casa (sempre que nos é possível), desta feita, aproveitando a deixa e a idade da mais pequena, decidimos incluí-la na seleção e recolha de brinquedos e roupas usadas, mas em bom estado, que decidimos dar a quem mais precisa. Não o fazemos só no Natal, mas por norma, por esta altura, o coração aperta com o frio que se faz sentir e os sacos alargam-se para caber a maior parte da recolha que fazemos. Até este ano, e porque achávamos que a mais pequena ainda não tinha …

A tipologia das acções em Kant

Acções Conformes ao Dever, mas feitas por Interesse. Exemplo: um comerciante honrado pratica preços justos, sejam os seus clientes experientes ou não. Contudo, é o seu interesse pessoal (adquirir boa reputação para aumentar o número de clientes e os lucros) que o motiva a cumprir o dever de ser honesto. Age bem (cumpre o que é devido), mas não o faz por dever. Cumprir o dever não é o único e exclusivo motivo que esteve na base da sua decisão. Acções Conformes ao Dever, mas feitas por Inclinação Imediata Exemplo: uma pessoa caridosa gosta de ajudar os outros quando estes precisam.É uma bela alma, um coração generoso, o seu temperamento inclina-a para tais actos. Contudo, Kant avisa-nos de que não devemos deixar-nos iludir por esta ocasional coincidência entre a inclinação e o dever ao ponto de pensarmos que sentimentos afectuosos conferem valor propriamente moral às nossas acções. A pessoa caridosa cumpre o dever porque lhe agrada ajudar os outros. O seu objectivo é ajudar o próximo. Po…

Tertúlias à Quarta - É possível uma sociedade sem corrupção?

A Ética Kantiana

O que é uma acção moralmente válida? Diremos imediatamente que é uma acção que cumpre o dever ou evita infringi-lo. Quando dizemos a verdade em vez de mentir;quando não cometemos qualquer fraude na declaração de impostos; quando socorremos os necessitados ou não nos apossamos de bens alheios estamos a agir bem, a fazer o que é devido. Mas será que agir bem, cumprir o dever - o que é sempre louvável - é suficiente para que uma acção seja moralmente válida? Kant diz que não. Então o que é, para Kant, uma acção moralmente válida? É uma acção em que cumprimos o dever - isso é importante - por dever - isto é mais importante. O que quer dizer cumprir o dever por dever? Significa cumprir o dever tendo como único e exclusivo motivo o respeito pelo dever, isto é, o cumprimento do dever é um fim em si mesmo. Exemplifiquemos: há uma norma moral que me diz que não devo mentir. Suponhamos que na minha declaração de impostos não cometo qualquer fraude, não falsifico qualquer dado. É claro que cump…

O Utilitarismo de Stuart-Mill

Imaginemos a seguinte situação: Alberto sabe que Vicente é infiel à sua mulher. Mulherengo aparentemente incorrigível, Vicente gaba-se junto dos amigos das suas várias incursões extramatrimoniais. Esta ausência de escrúpulos morais é, para Alberto, extremamente indecente. A mulher de Vicente é uma amiga de longa data que Alberto considera estar a ser humilhada sem disso se aperceber. Debate-se então com um dilema ou conflito moral: - Se conta a verdade, poderá causar um enorme desgosto a uma mulher que, por razões que só o coração conhece, ama profundamente o marido; - Se decide não intervir, pactua com atitudes que considera detestáveis. Alberto acaba por revelar a verdade. Julga ser esse o seu dever, considerando que dizer a verdade é mais importante do que causar um desgosto. Agiu bem? Vemos que duas normas morais, "Deves dizer a verdade" e "Não deves causar sofrimento aos outros", estão em conflito. Reconhecendo a importância de ambas - caso contrário não have…

Onésimo Teotónio Almeida, Honoris Causa pela UA

Académico, ensaísta, autor de contos e crónicas, Onésimo Teotónio Almeida, professor da Brown University, EUA, cultiva e vive, através da escrita e da investigação, a teia de relações que estabeleceu entre as suas raízes nos Açores, a comunidade emigrada nos EUA, a vida académica, Portugal e o mundo. Na Brown, uma das mais prestigiadas universidades norte-americanas, completou o MA e o PhD, ambos em Filosofia, e tornou-se professor. “Rideo, ergo sum” - “Eu rio, logo existo” - afirma, sobre si próprio, no título de uma das suas crónicas. A Universidade de Aveiro (UA) atribui ao professor o Doutoramento Honoris Causa na Cerimónia Comemorativa dos 40 anos da instituição, a 16 de dezembro. Algo que considera inesperado, mas "bonito" e criador de um vínculo mais forte à UA. Não querendo forçar, neste momento, a elaboração de um ensaio nem de uma resposta demasiado longa, como acha que um filósofo e ensaísta que reflete sobre o papel inovador dos portugueses no pensamento empírico …

A ética de Kant por James Rachels

Como muitos outros filósofos, Kant pensava que a moralidade pode resumir-se num princípio fundamental, a partir do qual se derivam todos os nossos deveres e obrigações. Chamou a este princípio “imperativo categórico”. Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) exprimiu-o desta forma: Age apenas segundo aquela máxima que possas ao mesmo tempo desejar que se torne lei universal. No entanto, Kant deu igualmente outra formulação do imperativo categórico. Mais adiante, na mesma obra, afirmou que se pode considerar que o princípio moral essencial afirma o seguinte: Age de tal forma que trates a humanidade, na tua pessoa ou na pessoa de outrem, sempre como um fim e nunca apenas como um meio. Os estudiosos têm-se perguntado desde então por que razão pensava Kant que estas duas regras são equivalentes. Parecem exprimir concepções morais diferentes. Serão, como Kant pensava aparentemente, duas versões da mesma ideia básica, ou são simplesmente ideias diferentes? Não nos vamos deter nes…

A ética de John Stuart Mill

O princípio da maior felicidade O utilitarismo é um tipo de ética consequencialista. O seu princípio básico, conhecido como o Princípio da Utilidade ou da Maior Felicidade, é o seguinte: a acção moralmente certa é aquela que maximiza a felicidade para o maior número. E deve fazê-lo de uma forma imparcial: a tua felicidade não conta mais do que a felicidade de qualquer outra pessoa. Saber por quem se distribui a felicidade é indiferente. O que realmente conta e não é indiferente é saber se uma determinada acção maximiza a felicidade. Saber se a avaliação moral de uma acção a partir do Princípio da Maior Felicidade depende das consequências que de facto tem ou das consequências esperadas é um aspecto da ética de Mill que permanece em aberto. Apesar de haver pessoas que não o aceitam, o princípio básico dos utilitaristas é hoje central nas disputas morais. Mas há cento e cinquenta anos foi uma ideia revolucionária. Pela primeira vez, filósofos defendiam que a moralidade não dependia de …

Chronica mensal da política das letras e dos costumes - Jan. a Fev. de 1873

"(...) Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem immediatamente de manter os abusos. Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a melhor politica. Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma. Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se como se é homem de bem. Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o partido, - isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de gov…

Manifesto Ético e Político

Em tempos de neoliberalismo, no contexto da desumanização crescente das relações sociais, ‘remar contra a maré’, como diz o professor José Paulo Netto, em termos éticos, significa não compactuar com a reprodução de valores que neguem os direitos humanos e sociais, não se omitir diante das injustiças e opressões e discriminações. Tais atitudes éticas – se não são trazidas para o âmbito da ação política – permanecem apenas como objeto de uma indignação que não transforma objetivamente a realidade. Uma das crenças liberais mais poderosas é a de que a barbárie, assim como as desigualdades, são constitutivas da natureza humana. A visão que Marx nos legou fornece os fundamentos para a desmontagem deste pensamento. Por isso, ‘remar contra a maré’, com esse referencial crítico e histórico, nos permite recusar esta naturalização e tomar nosso destino nas mãos, conscientes de que os homens são os autores de sua história. Maria Lucia Barroco, Manifesto Ético e Político in interacoes-ismt.com

Valores Ético-Políticos - por Guilherme d’Oliveira Martins

“ Charles Péguy dizia que tudo começa em mística e acaba em política. Desde sempre que a actividade política vive condicionada por esta verificação. No começo, estão os ideais, os princípios, a generosidade das causas, mas o confronto com a realidade suscita a necessidade de conciliar, de encontrar compromissos, de lidar com a complexidade dos fenómenos sociais. Sempre assim aconteceu. Por isso, os cidadãos estão colocados sempre perante o dilema que contrapõe a formulação abstracta dos valores ético-políticos e a aplicação prática e impura dos mesmos. Daí as desilusões, a predominância do curto prazo e do imediato e o esquecimento da mística e dos ideais. E, nos dias de hoje, a força dos meios de comunicação de massa, só reforça esta transigência com o imediato e com a ilusão. Res non verba, coisas e não palavras, diziam os clássicos, para sinalizar à vida política a necessidade de cuidar da resolução dos problemas, em lugar do primado das respostas vagas e das promessas. Jorge de S…

Parlamentarismo e realidade - Antero de Quental

No ambiente subtil e esterilizador dessa conspiração permanente que é a essência do parlamentarismo… [os
partidos] perderam a noção da realidade; e enquanto o mundo se transforma vão repetindo maquinalmente as costumadas teses duma filosofia caduca e que nem já compreendem. Antero de Quental in Prosas.

A Ética - por Thomas Mautner

A palavra deriva do grego ethos, que significa hábito ou costume. O termo é usado em sentidos próximos, mas que se deve distinguir para evitar confusões:
1 Ética normativa: a investigação racional ou teoria dos padrões do correcto e do incorrecto, do mal e do bem, a respeito do carácter e da conduta, que uma classe de indivíduos deve aceitar.
Essa classe pode ser a humanidade em geral, mas também podemos pensar na ética médica, ética empresarial, etc., como um conjunto de padrões que os profissionais em questão devem aceitar e observar.
Este tipo de investigação e a teoria que dele resulta (exemplos conhecidos são a ética kantiana e a ética utilitarista) não descrevem o modo como as pessoas pensam ou se comportam, mas prescreve como devem pensar ou comportar-se. Chama-se assim “ética normativa”, visto que o seu principal objectivo é formular normas legítimas de conduta e para a avaliação do carácter. O estudo de como se deve aplicar as normas e os padrões gerais a situações problemát…

Adeus Madiba - Nelson Mandela

Morreu Madiba. Morreu Nelson Mandela. Homem de Estado, Presidente da África do Sul (1994-2013), o mais conhecido presidiário do mundo, defensor da liberdade e dos direitos dos desfavorecidos, paladino da igualdade de oportunidades e do fim de todas as formas de opressão, Nelson Mandela morreu hoje num hospital de Pretória onde tinha sido internado há mais de uma semana, pela terceira vez neste ano, sofrendo de uma infeção pulmonar. Tinha 95 anos de idade. A nação sul-africana chora o nonagenário que se encontrava fragilizado pela persistência de uma infeção pulmonar. Mandela tinha passado por um internamento hospitalar rápido, em 10 de março, para revisão do estado da infeção, que o mantivera internado 18 dias em dezembro de 2012. Ainda que ninguém possa estranhar que o fim chegue em idade avançada, Madiba tornou-se no símbolo universal que ninguém vê partir sem desgosto. A morte de Mandela foi anunciada esta noite pelo presidente da África do Sul, Jacob Zuma, em conferência de impre…

CONCURSO RÁDIOATIVIDADE!

Perelman: a Nova Retórica

Se na base de qualquer processo argumentativo, assente necessariamente na discursividade como modo da racionalidade, está a renúncia à violência, isso significa que o seu ponto de partida, a sua condição de possibilidade, tem de ser um acordo sobre um certo número de coisas. Se seguirmos as propostas de Perelman, constatamos que esse acordo prévio entre o orador e o interlocutor/auditório diz respeito ao que mutuamente se concede e admite comummente entre o orador e o seu auditório. Esse acordo exprime-se nas premissas da argumentação. Sem premissas acordadas, explicita ou implicitamente, não há argumentação possível, nem sequer comunicação. Assim, sendo a argumentação um discurso que se insere numa troca interlocutória recíproca ao nível da sociabilidade, terá de pressupor, ou partir de um acordo sobre o que seja, pelo menos, o real. Isto é, como premissa da argumentação existe um acordo sobre o que seja, e que defina e delimite o que é o real. Mas não só, o acordo prévio abrange tam…