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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2016

A Ciência é uma boa política?

Vida

Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. Sonhe com aquilo que você quiser. Vá para onde você queira ir. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido. Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar, duram u…

“Precisa-se”

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa …

Sábado

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior. Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo cor…

Paradoxo da sociedade livre

A pessoa ou instituição que encarregamos de nos tornar felizes têm o direito de se queixarem se lhes recordarmos que, apesar de tudo, continuamos livres e senhores de recalcitrar. Tudo o que não conseguimos realizar sós, diminui a nossa liberdade. O doente nas mãos do médico é como a sociedade nas mãos do salvador - herói ou partido.  Como? Encarregamo-nos de organizar a sociedade - isto é, vós próprios, e depois, pretendeis continuar livres.  Precisamente porque não existe sociedade económica pura, toda a organização científica da economia contém em si a afirmação de uma mística - quer dizer, um credo estatal que atinge também a vida interior, e, assim como o organizador deve eliminar toda a heterodoxia económica, terá igualmente de eliminar as heterodoxias interiores.  Uma sociedade inteiramente orientada do ponto de vista económico e totalmente livre espiritualmente é uma contradição.  Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'

Quando somos felizes

- Parece-me uma grande felicidade que, quando se olhe para o mundo, pareça sempre que é a primeira vez que o fazemos.  - É uma grande tristeza — disse ela a soluçar.  - É a maior infelicidade. Eu, quando olho para as coisas quero que elas me sejam familiares, como o meu tio e o meu marido, como o pão que se come às refeições. Quero deitar-me sempre com o mesmo homem, com os mesmos lábios. Quero que os lençóis de hoje me pareçam os lençóis de ontem, mesmo que os bordados sejam completamente diferentes. Não quero que os beijos que recebo sejam novos, quero que sejam velhos, quero que sejam os de sempre. Não me quero sobressaltar como quando era jovem. Uma pessoa só pode ter paz quando está ao pé das mesmas coisas, quando nem repara nelas, porque elas já fazem parte de si, como se as tivesse comido e mastigado e engolido e agora fossem carne da sua carne e sangue do seu sangue. Só somos felizes quando já não sentimos os sapatos nos pés.  Afonso Cruz, in 'O Pintor Debaixo do Lava-Loiç…

Um Homem possui três estômagos

- Há muitos tipos dc comida — disse o coronel Mõller enquanto abanava o filho.- Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga, toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. E por fim há o estômago da cabeça, que se alimenta de palavras e de letras. Os primeiros dois estômagos do homem alimentam-se através da boca c do nariz, ao passo que o terceiro estômago se alimenta principalmente através dos olhos e dos ouvidos, apesar de usar tudo o resto dc um modo mais subtil.  — Para mim — disse o mordomo —, as palavras são uma grande palermice.  Afonso Cruz, in 'O Pintor Debaixo do Lava-Loiças'

A Era do Ecozóico - Leonardo Boff

Quem leu meu artigo anterior O antropoceno:uma nova era geológica deve ter ficado desolado. E com razão, pois, quis intencionalmente provocar tal sentimento. Com efeito, a visão de mundo imperante, mecanicista, utilitarista, antropocêntrica e sem respeito pela Mãe Terra e pelos limites de seus ecossistemas só pode levar a um impasse perigoso: liquidar com as condições ecológicas que nos permitem manter nossa civilização e a vida humana neste esplendoroso Planeta.  Mas como tudo tem dois lados, vejamos o lado promissor da atual crise: o alvorecer de uma nova era, a do Ecozóico. Esta expressão foi sugerida por um dos maiores astrofísicos atuais, diretor do Centro para a História do Universo, do Instituto de Estudos Integrais da Califórnia: Brian Swimme. Que significa a Era do Ecozóico? Significa colocar o ecológico como a realidade central a partir da qual se organizam as demais atividades humanas, principalmente a econômica, de sorte que se preserve o capital natural e se atenda as ne…

Escrever é esquecer

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.  Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso. Fernando Pessoa - Livro do Desassossego

Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Noite no museu

Existência, finitude e morte

Ao ‘existirmos’, afirmamos por esse mesmo facto a nossa finitude: não existimos em nós próprios, mas fora de nós (ex-sistentia). E se somos finitos, somos também vulneráveis, expostos ao espaço e ao tempo, numa vulnerabilidade que bem retratou Goya ao representar o deus Kronos, deus do tempo, a devorar o seu próprio filho, num ato que ia repetindo ao longo dos anos, numa visão bem humana do que poderia afinal ser a ‘eternidade’. No entanto, para a maior parte de nós, a finitude não significa imediatamente a morte, mas uma vida que se vai desenrolando entre o nascimento e a morte, fora de qualquer definição substancial ou absoluta do ser humano que, mesmo a existir, teria de expressar-se na linguagem finita de um espaço e tempo concretos. Quer isto dizer, por outras palavras, que mesmo a existir essa definição substancial ou absoluta do ser humano, a linguagem em que se expressaria seria relativa, sujeita a interpretação, o que já de si lhe retiraria o caráter tão substancial ou absolu…

Sísifo

Recomeça... Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII

Crónica da madrugada

Estou rodeado de noite e de silêncio. Uma ou outra luz, no prédio da frente. Sei que no apartamento da direita mora um contabilista. Homem consumido e fatigado, conheço-o de vista, arredonda a conta ao fim do mês com trabalhos esparsos. A noite, agora, foi rasgada pelo silvo de uma ambulância. Aproximo-me da janela, movido sei lá bem porquê?, e observo a caminhada de um retardatário. De onde vem? Do trabalho ou da noitada? Começo a adivinhar-lhe a vida e o destino. Faço estas aproximações desde que me conheço. Ainda não há muitos anos procurava calcular em que se ocupavam os transeuntes pelo som dos passos, construir as suas vidas, conjecturar das suas histórias; fabular, enfim. Mas as coisas e as pessoas alteraram-se. Eu próprio me modifiquei e ao modo de avaliar os outros. Volto à secretária, batuco nas teclas, acabei de escrever acerca de Jorge Amado, vou ser avô pela segunda vez, e dentro de poucos dias. Estou contente e atento. Não digo que estou feliz porque tudo o que me rodei…

Dialética, deus e o ateísmo

O segredo da dialéctica hegeliana consiste, em última análise, apenas em negar a teologia em nome da filosofia e, em seguida, em negar outra vez a filosofia por meio da teologia. A teologia é que constitui o começo e o fim; no meio, encontra-se a filosofia, enquanto negação da primeira posição; mas a negação da negação é a teologia. Primeiro, põe-se tudo ao contrário, mas em seguida restabelece-se tudo no seu antigo lugar, como em Descartes. A filosofia hegeliana é a última grandiosa tentativa para restaurar o Cristianismo, já perdido e morto, por meio da filosofia e, claro está, mediante a identificação, tal como em geral acontecia nos tempos modernos, da negação do Cristianismo com o próprio Cristianismo. A tão celebrada identidade especulativa do espírito e da matéria, do infinito e do finito, do divino e do humano, nada mais é do que a contradição fatal dos tempos modernos – a identidade da fé e da descrença, da teologia e da filosofia, da religião e do ateísmo, do Cristianismo e…

Conheço a minha sorte...

Conheço a minha sorte. Algum dia se associará ao meu nome a lembrança de algo ingente – de uma crise como jamais outra existiu na terra, da mais profunda colisão de consciência, de uma decisão proferida contra tudo aquilo que, até hoje, foi objecto de fé, de exigência e de sacralização. Não sou um homem, sou dinamite. – E com tudo isto nada há em mim de um fundador de religião – as religiões são afazeres da ralé, e eu preciso sempre de lavar as mãos depois de estar em contacto com homens religiosos... Nada quero com «crentes», penso que sou demasiado malicioso para acreditar em mim mesmo; nunca falo às massas... Sinto uma angústia aterradora de que, um dia, me venham a canonizar; adivinhar-se-á porque é que antes publico este livro; ele impedirá que comigo se cometam patifarias... Não quero ser santo algum, prefiro antes ser um arlequim... Sou porventura um arlequim... E apesar disso ou, antes, não apesar disso – pois, até hoje, nada houve de mais mentiroso do que um santo – a verdade…

O crivo das 3 peneiras

Augustus procurou Sócrates e disse-lhe: - Sócrates, preciso contar-lhe algo sobre alguém! Você não imagina o que me contaram a respeito de…  Nem chegou a terminar a frase, quando Sócrates ergueu os olhos do livro que lia e perguntou: - Espere um pouco, Augustus. O que vai me contar já passou pelocrivo das três peneiras?  - Peneiras? Que peneiras?  - Sim. A primeira, Augustus, é a da verdade. Você tem certeza de que o que vai me contar é absolutamente verdadeiro?  - Não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram!  - Então suas palavras já vazaram a primeira peneira. Vamos então para a segunda peneira: a bondade. O que vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?  - Não, Sócrates! Absolutamente, não!  - Então suas palavras vazaram, também, a segunda peneira. Vamos agora para a terceira peneira: a necessidade. Você acha mesmo necessário contar-me esse fato, ou mesmo passá-lo adiante? Resolve alguma coisa? Ajuda alguém? Melhora alguma coisa?  - Não, Sócra…

Condição e Liberdade

Não é por acaso que os pensadores de hoje falam mais frequentemente da condição do homem do que de sua natureza. Por condição eles entendem, com mais ou menos clareza, o conjunto dos limites a priori que esboçam sua situação fundamental no universo. As situações históricas variam: o homem pode nascer escravo em uma sociedade pagã ou senhor feudal ou proletário. O que não varia é a necessidade para ele de ser no mundo, no trabalho, em meio aos outros e de ser mortal. Os limites não são nem subjetivos, nem objetivos, ou antes, eles têm uma face objetiva e uma face subjetiva. São objetivos porque se encontram em toda parte e em toda parte são reconhecidos; são subjetivos porque são vividos e nada são se o homem não os vive, isto é, se ele não se determina livremente em sua existência em relação a eles. E, embora os projetos possam ser diferentes, pelo menos nenhum deles permanece completamente estranho para mim, pois todos eles se apresentam como uma tentativa para superar os limites, o…

Liberdade

“Como a substância da matéria é o peso, assim devemos dizer que a liberdade é a substância, a essência do espírito. Qualquer um tem um conhecimento imediato de que a liberdade, dentre outras características, pertence ao espírito. A filosofia, no entanto, nos ensina que todas as características do espírito só existem por meio da liberdade, todas elas são apenas meios para a liberdade, todas a procuram e a produzem. Que a liberdade seja a única verdade do espírito, isso é um conhecimento da filosofia especulativa... A matéria tem a sua substância fora de si, o espí- rito é o estar junto de si mesmo (Bei-sich-selbst-Sein). E isso é, precisamente, a liberdade, pois, quando sou dependente, então relaciono-me com um outro que não sou eu; eu não posso ser sem um exterior; eu sou livre quando estou junto a mim. Este estar junto de si mesmo do espírito é autoconsciência, a consciência de si próprio.” (Vorlesungen uber die Philosophie der Geschichte, Werke 12, p. 30).

A literatura como possibilidade de uma reflexão filosófica

A literatura assim como já havia sido dito pelo filósofo Aristóteles é uma das formas artísticas de representação de algo transcendental e real. Desta forma, o fazer literário exige por assim dizer, um esforço não apenas de significação e construção de palavras, mas algo para além das fronteiras da própria linguagem.  O filósofo Aristóteles, percebeu na poesia especificamente, um gênero literário que mais se aproxima da filosofia percebendo-a de maneira artística. Por que Aristóteles no séc. IV a.C. discutiu algo que atualmente parece ser tão banal aos olhos de alguns? Se para o estado que incutiu na cabeça dos súditos que a arte não possui utilidade prática e imediata, um pensamento filosófico-poético percebido por Aristóteles jamais poderá ter o espaço que deve, pois o estado o substituiu pela ciência. O pensador percebeu que há uma diferença básica, mas primordial entre o historiador e o poeta. Para Aristóteles o poeta é aquele que percebe diferentemente do contador de histórias q…

A Era da estupidez

Debate - Eutanásia, Ortotanásia e Distanásia.

Idiomas do Mundo

A ousadia da dissonância

Sim, achava que um dia seria possível concretizar a utopia. Aquilo de acreditar que o mundo pode mudar definitivamente para melhor, sem olhar para trás. Coisas de adolescente com rastas. Houve uma altura em que acreditei sem reservas que se se mostrasse a verdade às pessoas, elas iriam aceitá-la, o mundo tornar-se-ia mais justo, o amor ao próximo venceria. Isso é discurso de miss, miúda. Paz na Terra e fim da fome no mundo. Tola. Para já, por achar que se pode chegar à verdade. Se é que há só uma verdade para cada coisa. Aquilo do mito da caverna e de só conseguirmos vislumbrar o vulto da verdade e nunca a sua forma concreta… Temo que seja assim, como Platão nos conta. Depois, por acreditar que perante a possibilidade de saber a verdade, todos nós quereríamos de facto conhecê-la. Ou que, conhecendo-a, iríamos mudar as regras do jogo. No filme Matrix, quando Neo percebe que não terá de lutar apenas contra o agente Smith, mas que todos os que estão na Matrix podem tornar-se agentes, res…

Raciocínio - Fernando Pessoa

Uma das regras fundamentais do raciocínio é distinguir o fundamental e o acidental em determinada teoria, distinguir a teoria essencial e a aplicação particular que um ou outro lhe dê. Assim, se discutirmos o problema da existência de Deus, devemos começar por definir o que se entende por Deus nesse problema. Se se entende, como é de presumir, um ente espiritual supremo, criador do mundo, então, nesse sentido, examinaremos o problema, não o misturando com o problema acidental da existência ou não existência de um Deus omnipotente, ou bom, ou infinito. Este último é um conceito particular de Deus, não o conceito geral. É concebível um ente criador finito do mundo; é concebível um criador do mundo que não seja mau nem bom; é concebível um criador do mundo que não seja omnipotente. Cumpre, em suma, distinguir a ideia geral de Deus da ideia particular de Deus na Igreja Católica ou qualquer outra Igreja. Sem fazer esta distinção, não estaremos examinando o problema, mas outro problema. Por…

Eu era um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo...

Eu era um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas. Adorava admirar a beleza das coisas, descortinar no imperceptível, através do que é diminuto, a alma poética do universo. A poesia da terra nunca morre. É possível dizermos que as eras transactas foram mais poéticas, mas podemos dizer (...) Há poesia em tudo — na terra e no mar, nos lagos e nas margens dos rios. Há-a também na cidade — não o neguemos — facto evidente para mim enquanto aqui estou sentado: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia na trepidação dos carros nas ruas em cada movimento ínfimo, vulgar, ridículo, de um operário que, do outro lado da rua, pinta a tabuleta de um talho. O meu sentido interior de tal modo predomina sobre os meus cinco sentidos que — estou convencido — vejo as coisas desta vida de modo diferente do dos outros homens. Existe para mim — existia — um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigode…

Eu, tu e a eutanásia

Li recentemente Eu e Tu, de Martin Buber, que é provavelmente o expoente máximo da filosofia dialógica moderna. Buber descreve uma sociedade baseada numa experiência permanente de diálogo. Nela, a humanidade de cada pessoa constrói-se integralmente na relação com o Outro. “Torno-me Eu no Tu; ao tornar-me Eu, digo Tu”. Torno-me mais pessoa em contacto com o Outro, e isso impele-me a reconhecê-lo como entidade semelhante a mim e estruturalmente distinta dos objectos que crio, possuo e tomo como meios. Por oposição, objectificar o Outro é um acto que me desumaniza. Uma singela constatação que se transformou na vingança poética que Buber arrastou consigo quando os nazis lhe arrancaram a sua cátedra, quando lhe coseram uma estrela amarela no braço e quando, inevitavelmente, o forçaram ao exílio, para escapar à morte. Lembrei-me muito de Martin Buber durante estes últimos dias, a propósito de uma entrevista feita pela TSF a Verónica Rocha, enfermeira portuguesa radicada na Bélgica. No decu…

Debate: Chomsky e Michel Foucault (legendado em pt.br.)

As relações de poder exercidas através do discurso

(Português do Brasil) Uma das formas que podemos entender como as relações de poder se dão na sociedade também se configura no discurso impetrado pelos media. O poder se exerce através do discurso, que pode ser compreendido como a sua materialização ideológica, seguindo as reflexões de Foucault. Esse poder se produz, na medida em que seus efeitos se materializam. Uma das formas onde esse processo se materializa é na construção da realidade dada a partir do discurso jornalístico. Ao publicizar fatos e por sua vez construir realidades, os media determinam um recorte temático e ideológico da vida cotidiana. A materialização da ideologia vai se revelar no olhar que os media lançam sob a realidade social, esse olhar e o próprio ‘fazer jornalístico’ são influenciados pelo social, pela história e cultura contemporânea. Essa visão de mundo construída pelos media veicula e transporta desse modo uma dada ideologia que manifesta como o poder é exercido e constituído através da linguagem. É atrav…

O absurdo do cúmulo da Felicidade

Agora pergunto-lhe: o que podemos esperar do homem enquanto criatura dotada de tão estranhas qualidades? Faça chover sobre ele todos os tipos de bênçãos terrenas; submerja-o em felicidade até acima da cabeça, de modo que só pequenas bolhas apareçam na superfície dessa felicidade, como se em água; dê a ele uma prosperidade económica tamanha que nada mais lhe reste para ser feito, excepto dormir, comer pão-de-ló e preocupar-se com a continuação da história mundial — mesmo assim, por pura ingratidão, por exclusiva perversidade, ele vai cometer algum acto repulsivo. Ele até mesmo arriscará perder o seu pão-de-ló e desejará intencionalmente o mais depravado lodo, o mais antieconómico absurdo, simplesmente a fim de injectar o seu fantástico e pernicioso elemento no âmago de toda essa racionalidade positiva. 
Fiodor Dostoievski, in "Notas do Subterrâneo"

Sou de outras coisas

Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro e sou amante da profunda liberdade sou parte inteira de uma vida vagabunda sou evadido da tristeza e da ansiedade
Sou doutras coisas fiz o meu barco com guitarras e com folhas e com o vento fiz a vela que me leva sou pescador de coisas belas, de emoções sou a maré que sempre sobe e não sossega
Sou das pessoas que me querem e que eu amo vivo com elas por saber quanto lhes quero a minha casa é uma ilha é uma pedra que me entregaram num abraço tão sincero
Sou doutras coisas sou de pensar que a grandeza está no homem porque é o homem o mais lindo continente tanto me faz que a terra seja longa ou curta tranco-me aqui por ser humano e por ser gente
Sou doutras coisas sou de entender a dor alheia que é a minha sou de quem parte com a mágoa de quem fica mas também sou de querer sonhar o novo dia

Fernando Tordo in Anticiclone