Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2016

Dilemas morais e responsabilidade

Será que os dilemas morais proporcionam uma maneira de escolher teorias morais rivais? Os dilemas morais parecem oferecer uma maneira de testar duas das teorias morais mais importantes: o utilitarismo e o absolutismo moral. Quando falo de «absolutistas morais» refiro-me àqueles que defendem que há pelo menos uma regra moral simples e que não admite excepções, como «é sempre errado matar pessoas inocentes/quebrar promessas/dizer mentiras, etc.» Os utilitaristas rejeitam regras como estas, defendendo que podem haver circunstâncias em que infringir a regra é a única maneira de minimizar as más consequências, isto é, de evitar um mal maior. Numa forma de dilema muito discutida, um agente moral, A, encontra-se numa situação em que, se matar uma de vinte pessoas inocentes que estão prestes a ser executadas, fará com que as restantes dezanove sejam libertadas. Por outro lado, se A se recusar fazer isso, o seu captor matará todas as vintes pessoas. Chamarei a isto o dilema de Williams, pois …

Viver o Hoje

Nunca a vida foi tão actual como hoje: por um triz é o futuro. Tempo para mim significa a desagregação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a este fruto toda a sua polpa. O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe imutável e nele nos transladamos. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a idéia de imobilidade eterna. Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atu…

Põe quanto és no mínimo que fazes

Para ser grande, sê inteiro:
nada Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

Democracia e totalitarismos

«Se parece descabido, ou mesmo monstruoso, comparar, no plano político, o regime totalitário com o regime democrático em que vivemos, já não o é tanto quando se traça um paralelo entre os princípios «ideológicos» (na terminologia de Hannah Arendt) do totalitarismo e os efeitos sócio-económicos do capitalismo vigente e da globalização. Há certamente um «totalitarismo» próprio das «sociedades de controlo» (Foucault, Deleuze) actuais. A aplicação das novas tecnologias a todo o tipo de serviços, por exemplo, implica o imperativo, por exemplo, implica o imperativo de cumprir os regulamentos sob pena de exclusão. A globalização acentua e generaliza esse tipo de padrões únicos de comportamento – na necessidade de responder às exigências de produtividade do trabalho de seguir as vias impostas pela funcionalidade dos serviços de saúde, dee3ducação, de lazeres. Um exemplo emblemático já utilizado em Portugal, nos serviços prisionais, a pulseira magnética de localização a distância que o prision…

A Guerra

E tropeçavam todos nalgum vulto,
quantos iam, febris, para morrer:
era o passado, o seu passado — um vulto
de esfinge ou de mulher.

Caíam como heróis os que não o eram,
pesados de infortúnio e solidão.
(Arma secreta em cada coração:
a tortura de tudo o que perderam.)


Inimigos não tinham a não ser
aquela nostalgia que era deles.
Mas lutavam!, sonâmbulos, imbeles,
só na esp'rança de ver, de ver e ter
de novo aquele vulto
— imponderável e oculto —
de esfinge, ou de mulher.

David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão"

Memória

Tudo que sou, no imaginado
silêncio hostil que me rodeia,
é o epitáfio de um pecado
que foi gravado sobre a areia.

O mar levou toda a lembrança.
Agora sei que me detesto:
da minha vida de criança
guardo o prelúdio dum incesto.

O resto foi o que eu não quis:
perseguição, procura, enlace,
desse retrato feito a giz
pra que não mais eu me encontrasse.

Tu foste a noiva que não veio,
irmã somente prometida!
— O resto foi a quebra desse enleio.
O resto foi amor, na minha vida.

David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão"

Uma análise da relação entre a Religião e do Riso - a partir de Umberto Eco

O riso é a fraqueza, a corrupção, a insipidez de nossa carne. É o folguedo para o camponês, a licença para o embriagado, mesmo a igreja em sua sabedoria concedeu o momento da festa, do carnaval, da feira, essa ejaculação diurna que descarrega os humores e retém de outros desejos e de outras ambições... (ECO, 1989, p. 487). O riso não só teria o poder de suspender a razão como de desarmá- la. Na linguagem de Jorge de Burgos, liberta o indivíduo do medo do demónio, tornando-o vulnerável às suas armadilhas. Se o homem tiver a liberdade de rir, isso poderá levá-lo a afrontar a autoridade instituída e, talvez, o próprio Deus. Parte-se do princípio de que toda religião fundamenta-se no temor. De modo paradoxal, o crente ama e teme a divindade. Assim, o temor é fundamental, e quem ri tende a não temer. O argumento de Burgos é expresso desta maneira: O riso libera o aldeão do medo do diabo, porque na festa dos tolos também o diabo aparece pobre e tolo, portanto controlável. Mas este livro pod…

A metafísica num relance

Os filósofos têm discordado acerca da natureza da metafísica. Aristóteles e os medievais dão-nos duas explicações diferentes da disciplina. Por vezes caracterizam-na como a tentativa de identificar as primeiras causas, em particular deus ou o motor imóvel; por vezes como a muito geral ciência do ser enquanto ser. Acreditavam, contudo, que estas duas caracterizações identificam uma só disciplina. Os racionalistas dos séculos XVII e XVIII, por contraste, alargaram o âmbito da metafísica. Entenderam que esta se ocupava não só da existência e natureza de deus, mas também da distinção entre mente e corpo, da imortalidade da alma e do livre-arbítrio. Os empiristas e Kant eram críticos quer quanto à concepção aristotélica da metafísica quer quanto à concepção racionalista, argumentando que estas procuram transcender os limites do conhecimento humano; mas mesmo Kant pensou que pode haver um tipo legítimo de conhecimento metafísico. O seu objectivo é delinear as estruturas mais gerais que supo…

A um deus desconhecido

Há momentos na nossa vida em que tudo muda. Na minha isso aconteceu quando conheci o João. Estávamos em Coimbra no final dos anos 80 e a minha juventude acabava de se tornar universitária. Cheguei para estudar Engenharia Mecânica na Faculdade de Ciências e Tecnologia na senda de tornar real uma profissão que as desigualdades do Estado Novo tinham roubado ao meu pai; e cumprir uma vaidade da minha mãe: ter um filho a estudar na Universidade de Coimbra; cidade do fado, da saudade e dos doutores. Muitos anos depois, frente a uma página de papel, cabe-me agora recordar aquela tarde remota (onde é que eu já li isto) quando, num dia de outono como este, o João José Cardoso me levou a conhecer a rádio. Foi nesse dia, exatamente há um quarto de século, que a minha vida se transformou para sempre. No estúdio da rádio, na cabina de som, encontrava sem esperar um novo "sentido para a vida". O promitente engenheiro dava folga às sebentas da mecânica, da física e da álgebra e abraçava s…

Quem pode, foge

Uma dupla obrigação obriga-me a colocar aqui esta opinião, a de pai, mas sobretudo a de professor. Quem pode, foge. Muitos sujeitam-se a perder 40% do vencimento. Fogem para a liberdade. Deixam para trás a loucura e o inferno em que se transformaram as escolas. Em algumas escolas, os conselhos executivos ficaram reduzidos a uma pessoa. Há escolas em que se reformaram antecipadamente o PCE e o vice-presidente. Outras em que já não há docentes para leccionar nos CEFs. Nos grupos de recrutamento de Educação Tecnológica, a debandada tem sido geral, havendo já enormes dificuldades em conseguir substitutos nas cíclicas. O mesmo acontece com o grupo de recrutamento de Contabilidade e Economia. Há centenas de professores de Contabilidade e de Economia que optaram por reformas antecipadas, com penalizações de 40% porque preferem ir trabalhar como profissionais liberais ou em empresas de consultadoria. Só não sai quem não pode. Ou porque não consegue suportar os cortes no vencimento ou porque n…

A Europa que não quero!

Falta grandeza à generalidade das lideranças europeias, a grandeza que só a educação para o outro e para os valores humanos e uma sólida cultura sustentam! A União Europeia, para se afirmar como poder à escala mundial, já deveria ter resolvido, ou ter numa fase avançada de resolução, os problemas das pessoas em termos de igualdade e mobilidade sem fronteiras e uma integração significativa dos serviços, do comércio e dos capitais. Contudo, é cada vez mais notória a falta de investimento robusto e continuado em políticas solidárias dirigidas para a coesão social e capazes de “puxar” pelos povos e nações que, tendo passado a integrar a União Europeia, não viram cumprir-se as suas expectativas de convergência com os padrões médios de desenvolvimento sócio-económico da União. No processo de integração europeia tem faltado uma visão clara do que é essencial e do que é acessório, de que foi exemplo caricatural o estranho e excessivo investimento de energia e de recursos na uniformização da …

Crónica das palavras

Há muito se perdeu a noção de que as palavras têm honra. Políticos servem- -se delas para mentir, ocultar, dissimular a verdade dos factos e as evidências da realidade. Mas também escritores e jornalistas as debilitam e as entregam às suas pessoais negligências. Não é, somente, uma questão de gramática e de estilo; mas é, também, uma questão de gramática e de estilo. Há escritores e jornalistas que o não são à força de o querer ser. A confusão instalou-se, com a cumplicidade leviana de uma crítica pedânea e de um noticiário predisposto a perdoar a mediocridade e a fraude. As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos clássicos. Recomendo o paliativo. Eis-me às voltas com as Viagens na Minha Terra. Garrett não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o po…

Escola, sociedade e educação humanista

A escola está inserida num contexto social bastante complexo e as possibilidades de escolha em todos os setores são tantas que a escola, não deve priorizar o acumular de informações, mas em conjunto com a família e a sociedade, discutir valores, construir uma visão de mundo mais crítico e indicar caminhos para construir uma vida significativa.  Não adianta saber muito e não ter a capacidade de discernir sobre o que realmente vale à pena na construção de uma vida com sentido e realizações. No mundo da era digital, a educação humanista é uma tarefa urgente, pois precisamos ajudar os nossos alunos a realizarem escolhas significativas, que possam realmente proporcionar uma vida livre e transformar para melhor o mundo em que vivemos. in rokaercher.blogspot.pt

Ética e acção educativa

Se educar, para além de tudo, consiste em oferecer e transmitir um modo de viver e de entender a vida, a escola deve ser uma comunidade em que se vivem os valores que são transmitidos como formas de viver e de entender a vida às gerações mais novas; educar é acreditar que existem coisas (símbolos, técnicas, factos, memórias e valores) que podem ser conhecidas e que merecem sê-lo; mas educar é um acto de coragem que, segundo Kant, está reservado aos seres humanos, pois a educabilidade é, indubitavelmente, uma dimensão que caracteriza o homem e implica valores; mas todo o acto de valoração traz consigo um processo de hierarquização e de organização holística das diversas categorias de valores; esta estruturação valoral define a imagem distintiva da personalidade individual; os próprios estádios do processo valorativo correspondem aos aspectos psicológicos da formação da personalidade. É neste sentido que D´Hainaut refere que os valores estão na origem das políticas e das práticas educa…

Falsificacionismo - K. Popper

A lógica de procedimento científico proposto por Popper está de acordo com o "modus tollens":

Hipótese → consequência Não se verifica a consequência. Logo, a hipótese não é verificada.

Nesta perspectiva, uma teoria ou hipótese nunca é comprovada, podendo, apenas, ser refutada. Uma teoria científica aceita-se enquanto hipótese, enquanto mera conjectura, enquanto capaz de fornecer um quadro geral válido de inteligibilidade, não desmentido pelos factos. Inerente a esta perspectiva refutacionista ou falsificacionista está a crítica de SirKarl Popper ao procedimento indutivo, característico do método verificacionista. Com efeito, por maior que seja o número de observações particulares, não há justificação lógica para a sua generalização a todos os casos. Se a hipótese é sempre um enunciado geral porque pretende ser a explicação para todos os casos da mesma espécie e se as consequências deduzidas da hipótese geral, com que se pretende validá-la, são sempre particulares, ao verificar…

Dicionário de expressões: " Paraísos fiscais"

"A Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Económica (OCDE) estima em cerca de um bilião de dólares o capital privado acumulado em paraísos fiscais. Cinco vezes mais do que há duas décadas. A mesma fonte admite que mais de um milhão de empresas, sobretudo norte-americanas e europeias, usa estas praças. Sejam os “off shoresfiscais” Estados ou regiões autónomas, todos têm quadros legais que atraem os capitais porque a imposição fiscal é reduzida ou nula e a identidade dos seus proprietários é ciosamente protegida. Também a atribuição de licenças para a abertura de empresas é facilitada. É por isto que os paraísos fiscais surgem associados a estratégias de lavagem de dinheiro. Tolerados, quando não protegidos, por países democráticos das regiões mais ricas do mundo, os paraísos fiscais suscitam críticas em todo o mundo. A crise financeira de 2007 e 2008 trouxe para a ribalta a realidade da fuga de capitais e o G20 prometeu agir em nome da transparência. Embora com resistências e …

Dicionário de expressões: "Pensamento único"

"Termo cunhado em 1995 por Ignacio Ramonet, primeiro num editorial do jornal Le Monde Diplomatique, do qual foi diretor entre 1990 e 2008, e posteriormente no ensaio “O pensamento único e os novos senhores do mundo”. De acordo com Ramonet, a queda do Muro de Berlim tornara categórica uma doutrina do consenso que já vinha sendo forjada pelo menos desde os acordos de Bretton-Woods. Este “novo catecismo” neoliberal – que encontra formulação lapidar no “there is no alternative”, de Margaret Thatcher – glorifi ca o mercado, estimula a concorrência e a desregulamentação, promove a mundialização da produção e dos fluxos financeiros, fomenta as privatizações e desconsidera o papel do Estado, corrói os direitos sociais e arbitra a favor do capital em detrimento do trabalho. Ao mesmo tempo que se impõe materialmente, o neoliberalismo origina uma narrativa sobre si próprio que o entende como desejável e inevitável. O pensamento único é esse estreitamento férreo das fronteiras do debate e essa…

Democracia e cinismo

“Observou-se com frequência que o resultado a longo prazo mais seguro da lavagem do cérebro é um género particular de cinismo – uma recusa absoluta de acreditar na verdade na verdade de qualquer coisa, por mais bem estabelecida que possa estar essa verdade. Por outras palavras, o resultado duma substituição coerente e total de mentiras à verdade de facto não é as mentiras passarem a ser aceites como verdade, nem que a verdade seja difamada como mentira, mas que o sentido através do qual nos orientamos no mundo real – e a categoria da verdade relativamente à falsidade conta-se entre os recursos mentais para prosseguir esse objectivo – fique destruído.” (H.Arendt, "Verdade e Política". Em Entre o passado e o futuro: oito exercícios sobre o Pensamento Político).  A revolta contra a falsidade, contra o mundo das mentiras, indica o primeiro acto de liberdade. Neste caso, a liberdade é a vida dentro da verdade, uma revolta contra o inautêntico, contra o próprio medo do sistema, as…

O falso e o mau convergem

Interpreta-se de modo superficial e por vezes malicioso a preciosa liberdade de pensamento como o direito quanto ao falso e assim, por equivalência, o homem teria tanto o direito de seguir o bem quanto o mal. Ora, se o homem, apelando à sua liberdade, tivesse o direito de escolher o Bem ou o Mal - que são o aspecto prático do Verdadeiro e do Falso - então teria o direito de cometer qualquer delito, e punir o praticante do delito seria ir contra um seu direito. No caso do Bem e do Mal percebe-se a falácia de conceder direito ao Mal; não no caso do Falso. Ora, a possibilidade de escolher entre o Bem e o Mal, entre a Vida e a Morte, longe de cancelar o dever de escolher o Bem e a Vida, é o pressuposto lógico daquele dever: se o homem não tivesse a possibilidade de fazer o Mal, não teria o dever de evitá-lo e de fazer, ao invés, o Bem. Assim há apenas a possibilidade de fazer o Mal, não o direito; não houvesse a possibilidade, não haveria nem direito nem o dever de escolher apenas o Bem.…

Ter menos dedos

Django Reinhardt tinha menos dedos do que a maior parte dos guitarristas. Um acidente, um incêndio, fez que tivesse de reinventar a sua maneira de tocar guitarra devido à imobilização de dois dedos da mão esquerda. Usava um cigarro na boca, cabelo preto muito bem penteado e um bigodinho de galã de cinema. Os seus dois dedos operacionais da mão esquerda (o polegar não conta, que só servia para apoiar o braço do instrumento) tinham a liberdade de se passear pelas notas que a guitarra tem escondida na sua madeira e nas suas cordas. Com menos dedos do que os outros virtuosos, acabou por demonstrar que mais importante do que ter carne e matéria, é ter o espírito necessário para se conseguir fazer as coisas mais incríveis que se conseguem fazer com uma guitarra. O guitarrista de jazz, Pat Martino, quando acordou de uma operação a um aneurisma, não se lembrava de como tocar guitarra. Reaprendeu a ouvir os próprios discos. Platão diria que a vida de Pat Martino seria uma corroboração da anamn…

A estátua sabe-o

A estátua sabe-o. Ou pelo menos, intui-o. Sente-se pesada, como se carregasse nos ombros o peso de coisas que em si pousaram, sem que percebesse o quê ou quando. Mesmo não o sabendo, a estátua representa mais do que aquilo que o seu criador quis representar. Com aquele pássaro ali pousado, o seu sorriso transforma-se num outro sorriso. E faz-me pensar, enquanto a fotografo, que ali assim, de forma tão simples, se condensa uma imagem que nos reflecte e nos remete para nós próprios. Para aqueles momentos em que, como a estátua, sentimos um peso nos ombros, na cabeça, nas costas, como um fardo que temos de carregar sem saber bem porquê ou quem o pôs cá. Andamos, em periclitante equilíbrio, para o não deixar cair nem o chocalhar demasiado. O medo de que o fardo que carregamos possa ser mais pesado se o olharmos de frente obriga-nos a andar como se fôssemos um bêbado equilibrista, tropegamente a deslizar pelo fio de arame, tentando não cair nem deixar cair o peso extra que carregamos conn…

Confusão!

“ (…) A nossa sociedade tornou-se politeísta e pagã não por haver possibilidade de escolha entre tantas mercadorias, tantos partidos e tantos estilos de vida – como superficialmente pensam alguns — mas porque cada mercadoria, cada partido, cada estilo de vida que queira apresentar-se como vencedor tende a assimilar e a conter também as características de todas as outras mercadorias, de todos os outros partidos, de todos os estilos de vida concorrentes” Perniola, M. (1993) Do Sentir, Lisboa: Editorial Presença

Os estranhos que já conhecemos - Marco Gil

Tropeçamos uns nos outros e não nos apercebemos disso. Somos sugados pelo tempo, pelas preocupações, pelo dia-a-dia, pelas obrigações. A consulta é às 10h e temos que estar no consultório pelo menos dez minutos antes, a reunião com o chefe urge pela pontualidade e um segundo de atraso é um corte no ordenado. Vivemos contra o tempo e quando estamos a favor dele não o sabemos agarrar para o poder multiplicar. São assim as vidas feitas de rostos destapados que se cruzam e não se apercebem disso, que não sentem o sopro do frio, o encosto, o encosto mais forte, os passos acelerados. A Rita e o João partilham o mesma estação de metro há dez anos seguidos, interromperam a presença habitual apenas por doença e apesar de se cruzarem diariamente nunca deram conta um do outro. Ela já deixou cair a carteira mas ele não se recorda de a ter apanhado para lha entregar. O suspiro dos dias maus da Rita é invisível ao João. A paragem de autocarro nos subúrbios de Londres é porto de abrigo durante 15 mi…

A Natureza do Movimento Pan-Islâmico Radical

Além da influência de uma interpretação extremista da religião, o movimento pan--islâmico radical define-se pelo seu carácter internacionalista e pela sua natureza revolucionária. De acordo com uma análise recente elaborada por Daniel Pipes as sociedades muçulmanas criaram três respostas políticas à modernidade. Aqui, interessa considerar duas delas. A primeira, o secularismo, considera que os países islâmicos só se podem desenvolver se adoptarem os modelos políticos ocidentais, e afastarem o Islão da esfera pública. Como já vimos, esta solução em larga medida fracassou. Uma segunda ideologia política, o “Islamismo”, constitui uma resposta simultaneamente à modernização e ao fracasso dos modelos seculares. Segundo Pipes, o Islamismo apoia-se em três ideias centrais: a subordinação à lei islâmica, a rejeição de influências ocidentais, e a transformação da fé religiosa numa ideologia política. Este último ponto é fundamental. Como nota Pipes, “o termo “Islamismo” é útil no sentido em q…

Não queremos o mundo de Orwell nem o de Aldous Huxley! - Michael Burry

“Estamos de volta ao mesmo: tentar estimular a economia através de dinheiro fácil. Não resultou, mas é a única ferramenta da Reserva Federal. Entretanto, as suas políticas alargaram o fosso para os mais ricos, algo que alimenta o extremismo político. Parece que o mundo inteiro aposta em taxas de juro negativas e isso é tóxico. As taxas de juro são usadas como classificação do risco, pelo que, no actual ambiente económico, o mecanismo de atribuição desse preço está desequilibrado. Isso não é saudável para a economia. Estamos a colocar demasiado 'stress' sobre o sistema e isso vai, por certo, causar danos.” Quem manifestou esta convicção à revista “New York” foi Michael Burry, o génio que anteviu a crise económica de 2008 e acabou a ganhar milhões com as suas decisões à frente do fundo Scion Capital, tornando-se figura central no filme “A Queda de Wall Street”, inspirado na obra de Michael Lewis e nomeado para os Óscares do próximo dia 28 de Fevereiro. Dívida é aquilo que deixa…