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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2012

Se o resgate é isto, prefiro o sequestro - por Ricardo Araújo Pereira

Enquanto eu beneficiava de vantagens indevidas no mundo económico-financeiro, o leitor investia milhões em aplicações de alto risco; enquanto eu regulava toscamente o mercado, o leitor especulava sem freio em Wall Street. Não admira, por isso, que sejamos também nós a sofrer os efeitos da crise No dia 13 de Abril de 2011, uma comissão do Senado americano encarregada de investigar a causa da crise financeira, apresentou um relatório no qual concluía que os responsáveis pela catástrofe eram duas pessoas: o leitor e eu. Por desatenção ou má consciência, o leitor resolveu ignorar o relatório até hoje. Lamento, mas não vou permitir que continue a fazê-lo. São 639 páginas, o resumo de uma investigação de dois anos que incluiu mais de 150 entrevistas e depoimentos, consultas com dúzias de especialistas e a análise de milhões de documentos. No fim, a comissão considerou que a crise por que passamos é o resultado de produtos financeiros complexos de alto risco, conflitos de int…

Este país não é para corruptos - por Ricardo Araújo Pereira

Em Portugal, há que ser especialmente talentoso para corromper. Não é corrupto quem quer. Portugal é um país em salmoura. Ora aqui está um lindo decassílabo que só por distracção dos nossos poetas não integra um soneto que cante o nosso país como ele merece. "Vós sois o sal da terra", disse Jesus dos pregadores. Na altura de Cristo não era ainda conhecido o efeito do sal na hipertensão, e portanto foi com o sal que o Messias comparou os pregadores quando quis dizer que eles impediam a corrupção. Se há 2 mil anos os médicos soubessem o que sabem hoje, talvez Jesus tivesse dito que os pregadores eram a arca frigorífica da terra, ou a pasteurização da terra. Mas, por muito que hoje lamentemos que a palavra "pasteurização" não conste do Novo Testamento, a referência ao sal como obstáculo à corrupção é, para os portugueses do ano 2010, muito mais feliz. E isto porque, como já deixei dito atrás com alguma elevação estilística, Portugal é um país em salmoura: …

Repensar a educação, repensar os professores - Crónica de Joaquim Azevedo

Há uma área científico-técnica, a medicina, que cuida como nenhuma outra da formação dos futuros profissionais do mesmo ramo: os médicos. A formação inicial é de seis anos (nem com o chamado processo de Bolonha se intimidaram!), seguida de outros seis de formação especializada, acompanhada por profissionais mais experientes. Os alunos que acedem a estes cursos têm médias superiores a 17,7. É obra! Tratam­-nos da saúde e lidam com a nossa vida, compreende-se. Quanto à formação dos profissionais que cuidam da educação pré-escolar e escolar de todos os cidadãos portugueses, os educadores e os professo­res, a sua formação passou de um nível que nem sequer era superior (no pós-25 de Abril), para uma formação superior e, recentemente para o nível de segundo ciclo, ou seja, para cinco anos de formação inicial. Tratam da nossa educação, compreende-se! Não, não se compreende. Enquanto os alunos que acedem aos cursos de medicina têm as maiores classificações que existem no sistema português de …

"Desafios actuais à Trilogia Educativa: Pais-Filhos-Escola" - Divulgação a pedido do ISCRA

Divulgação a pedido do ISCRA

Boas Férias - Crónica por Ricardo Araújo Pereira

Esta é a altura do ano em que os portugueses, depois de um ano de trabalho (os que ainda têm trabalho), pegam nas suas economias (aqueles que não tinham o dinheiro em bancos que faliram), e vão agora de férias (aqueles que podem dar-se ao luxo de ter férias). E vão, de certeza, com a sensação de que deixam o País arrumado. O Presidente da República diz que a situação é insustentável. Um antigo Presidente e um candidato à Presidência dizem que ele não pode dizer que a situação é insustentável. O primeiro-ministro diz que estamos muito bem. A oposição diz que ele não pode dizer que estamos muito bem. Portanto, podemos ir de férias descansados. E esclarecidos. A primeira tarefa do cidadão que começa a gozar o merecido descanso é pagar a não menos merecida sobretaxa de IRS sobre o subsídio de férias. O cidadão sabe, porque já lho disseram, que andou a viver acima das suas possibilidades, e por isso chegou a hora de pagar. O cidadão, que tem a mania das grandezas, pensou que p…

O trauma da morada - crónica MEC

Um dos grandes problemas da nossa sociedade é o trauma da morada. Por exemplo. Há uns anos, um grande amigo meu, que morava em Sete Rios, comprou um andar em Carnaxide. Fica pertíssimo de Lisboa, é agradável, tem árvores e cafés. Só tinha um problema. Era em Carnaxide. Nunca mais ninguém o viu. Para quem vive em Lisboa, tinha emigrado para a Mauritânia! Acontece o mesmo com todos os sítios acabados em -ide, como Carnide e Moscavide. Rimam com Tide e com Pide e as pessoas não lhes ligam pevide. Um palácio com sessenta quartos em Carnide é sempre mais traumático do que umas águas-furtadas em Cascais. É a injustiça do endereço. Está-se numa festa e as pessoas perguntam, por boa educação ou por curiosidade, onde é que vivemos. O tamanho e a arquitectura da casa não interessam. Mas morre imediatamente quem disser que mora em Massamá, Brandoa, Cumeada, Agualva-Cacém, Abuxarda, Alformelos, Murtosa, Angeja… ou em qualquer outro sítio que soe à toponímia de Angola. Para não falar na Cova da Piedade…

Ócio - por Anselmo Borges

Entre as muitas características que nos distinguem dos outros animais, como a linguagem duplamente articulada, a autoconsciência, o pensamento abstracto, a orientação para o mundo como um todo e a capacidade de distanciamento da imediatidade no espaço e no tempo, a elaboração de teorias científicas, a avaliação segundo juízos morais, está também o trabalho. O homem também se define como homo faber. Karl Marx viu bem: "O homem diferencia-se dos animais a partir do momento em que começa a produzir os seus meios de vida." Enquanto o animal colhe o que a natureza lhe oferece, o homem transforma-a. Trabalha para satisfazer as suas necessidades, estabelecendo uma relação de intercâmbio com a natureza: obtém dela o que lhe falta e, por outro lado, ao transformá-la, transforma-se a si mesmo. Mundanizando-se, o homem humaniza o mundo e humaniza-se a si próprio, autorrealiza-se. Ao mesmo tempo que elabora os produtos de que precisa, aperfeiçoa a natureza e forma-se a si mesmo teórica e…