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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2016

O teu banco só tem duas pernas?

Quando estudava nas Belas-Artes, e porque não havia dinheiro para pagar um modelo, puseram-nos a desenhar um banco de madeira. Naquela altura, não imaginaria nada mais aborrecido do que chegar à faculdade e desenhar bancos à vista. Por isso, esbocei rapidamente aquilo que via, pousei o lápis e comecei a deambular pela sala a ver os trabalhos dos meus colegas. O professor perguntou-me se já tinha acabado o exercício. Disse-lhe que sim e ele perguntou-me se o poderia ver. Levei-o até ao meu cavalete e mostrei-lhe o esboço. O teu banco só tem duas pernas? Respondi que, do ângulo em que estava, só se viam duas pernas, as outras estavam escondidas pelas da frente. Ele insistiu que aquele era um banco com duas pernas. Argumentei que estava bem desenhado, com rigor, mostrava um banco visto daquele sítio em que me encontrava. E, numa exposição, vais dizer isso aos espetadores? Que o banco afinal tinha quatro pernas, mas que do ângulo em que te encontravas só se viam duas? Percebi o sarcasmo …

VI Festival Internacional de Polifonia Portuguesa

Teatro Clássico em Aveiro – Rei Édipo 1, 2 e 3 de julho – 21.30h. – Museu de Aveiro

A necessidade compele o herói trágico à acção, leva-o a agir, a escolher, a sofrer. É livre quando escolhe, mas do exercício da liberdade nasce o sofrimento. O trágico resulta da junção da fragilidade humana, expressa nas catástrofes provocadas por forças transcendentes, cujos desígnios não são inteligíveis para o homem, com a grandeza do indivíduo destruído, agónica expressão da liberdade humana. Do confrontoentre a liberdade humana e o poder do destino nasce uma relação de causa efeito entre acção e sofrimento. Quando a vontade individual entra em conflito com a ordem do universo acontece o trágico, na passagem da felicidade à desgraça que resulta de um erro grave do herói, hamartia, erro provocado pela falta de lucidez. Assim, não raro desempenha a culpa, culpa pessoal ou hereditária, papel de primeiro plano na tragédia. Muito se tem discutido a culpa de Édipo, mas não parece que seja na peça de Sófocles esse o motivo principal. O que move a acção em Rei Édipo é a procura de senti…

Uma casa cheia de Livros

Os livros, esses animais sem pernas, mas com olhar, observam-nos mansos desde as prateleiras. Nós esquecemo-nos deles, habituamo-nos ao seu silêncio, mas eles não se esquecem de nós, não fazem uma pausa mínima na sua vigia, sentinelas até daquilo que não se vê. Desde as estantes ou pousados sem ordem sobre a mesa, os livros conseguem distinguir o que somos sem qualquer expressão porque eles sabem, eles existem sobretudo nesse nível transparente, nessa dimensão sussurrada. Os livros sabem mais do que nós mas, sem defesa, estão à nossa mercê. Podemos atirá-los à parede, podemos atirá-los ao ar, folhas a restolhar, ar, ar, e vê-los cair, duros e sérios, no chão.  (...) Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, até a louc…

O Esplendor

E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta,
Letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha.

O que de sonho jaz nas encadernações vetustas,
Nas assinaturas complicadas (ou tão simples e esguias) dos velhos livros.

(Tinta remota e desbotada aqui presente para além da morte,
O que de negado à nossa vida quotidiana vem nas ilustrações,
O que certas gravuras de anúncios sem querer anunciam.

Tudo quanto sugere, ou exprime o que não exprime,
Tudo o que diz o que não diz,
E a alma sonha, diferente e distraída.

Ó enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos!

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Ser um morcego

Ao contrário de alguns animais, a nossa mais-valia não é termos uma grande visão no espaço, mas sim uma grande visão no tempo. Os nossos sentidos não são tão impressionantes no que respeita à distância ou à acuidade, mas somos muito capazes no tempo, em especial na previsão de eventos. Conseguimos prever colheitas, percebemos inúmeros ciclos naturais e, usando essa faculdade, obtemos proveitos que nos distinguem dos animais. Há um grau de falibilidade a ter em conta, mas, de um modo geral, algumas das previsões que fazemos, esquecendo as económicas, conseguem ter um alcance impressionante. Em relação aos animais, temos mais tempo do que espaço. Thomas Nagel escreveu um artigo, um dos mais comentados da filosofia da mente, em que usa uma analogia: não conseguimos saber como é que um morcego vê o mundo. Podemos, enquanto humanos, portarmo-nos como morcegos, pendurarmo-nos de cabeça para baixo, comer insectos, etc. Mas não percebemos o mundo como um morcego, mas sim como um homem a faze…

A ousadia da dissonância

Sim, achava que um dia seria possível concretizar a utopia. Aquilo de acreditar que o mundo pode mudar definitivamente para melhor, sem olhar para trás. Coisas de adolescente com rastas. Houve uma altura em que acreditei sem reservas que se se mostrasse a verdade às pessoas, elas iriam aceitá-la, o mundo tornar-se-ia mais justo, o amor ao próximo venceria. Isso é discurso de miss, miúda. Paz na Terra e fim da fome no mundo. Tola. Para já, por achar que se pode chegar à verdade. Se é que há só uma verdade para cada coisa. Aquilo do mito da caverna e de só conseguirmos vislumbrar o vulto da verdade e nunca a sua forma concreta… Temo que seja assim, como Platão nos conta. Depois, por acreditar que perante a possibilidade de saber a verdade, todos nós quereríamos de facto conhecê-la. Ou que, conhecendo-a, iríamos mudar as regras do jogo. No filme Matrix, quando Neo percebe que não terá de lutar apenas contra o agente Smith, mas que todos os que estão na Matrix podem tornar-se agentes, res…

Teatro Clássico em Aveiro – Rei Édipo

1, 2 e 3 de julho – 21.30h. – Museu de Aveiro
Vai a Oficina de Teatro “ Capitão Grancho” apresentar, nos dias 1, 2 e 3 de Julho, no Museu de Aveiro, a peça Rei Édipo de Sófocles. A Comissão Diocesana de Cultura felicita a direcção artística, a encenadora, os actores, os técnicos (de som e luz), pelo magnífico serviço que prestam aos aveirenses, já que escasseiam as ocasiões em que é possível assistir em Aveiro à representação de peças de teatro clássico. Que um grupo de teatro amador ouse levar à cena um dos textos mais emblemáticos do drama europeu não só merece nota como reclama a presença de numeroso público. A actualidade do teatro antigo dispensa demonstração, tão frequentes têm sido ao longo do último século as suas reelaborações na literatura, na música, na dança ou no cinema, tantas têm sido as encenações modernas de tragédias clássicas, em espectáculos singulares ou em festivais. Num livro que fez época, Jean Marie Domenach proclamou o retorno do trágico, partindo de um press…

Lugar para nascer

Os sírios Aya e Mahmoud Kattan vão ter um filho português em agosto. Chegaram a Penela em outubro, depois de passarem por um campo de refugiados, e o nascimento da criança será o renascimento da normalidade possível, insegura porque os pais não têm ainda trabalho. Para os três outros filhos do casal, a normalidade chegou quando se instalaram na casa nova e começaram a brincar com os amigos da creche. Esta família de cinco, quase seis, faz parte do número inimaginável de 65,3 milhões de pessoas que estão fora do sítio onde pensaram que poderiam viver. O total é enganador, porque se refere ao último dia de 2015 e a cada minuto há 24 pessoas que saem da sua terra - 34 mil por dia. "Não é apenas uma crise de números, é uma crise de solidariedade", disse Ban Ki Moon, o secretário-geral das Nações Unidas. Mas os números existem, foram divulgados ontem pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados: uma em cada 113 pessoas, a nível mundial, está nesta situação. Por iss…

A cidade invisível

Nos últimos anos, por razões profissionais, tenho tido a oportunidade de regressar com frequência a Tarquinia, pequena cidade no litoral do Lácio, uma centena de quilómetros a norte de Roma. Com esta familiaridade dos regressos frequentes, posso dizer que conheço bem Tarquinia. Não apenas os becos, as tascas, as igrejas e as vistas de Tarquinia, mas também os seus habitantes. Tenho mesmo vários amigos, lá. Os meus amigos de Tarquinia já estão todos mortos. Partiram deste nosso mundo há alguns anos, numa época em que o nosso mundo era outro mundo completamente diferente. Conheço-os e identifico-os pelos seus retratos, pelos seus gostos e ócios, pelos amores que tiveram, pelos banquetes que organizaram, pelo medo que lhes assombrou os anos finais da sua existência e que tantos séculos depois eu partilho com eles: o medo do vazio absoluto depois das vidas plenas que eles levaram, que eu vou levando. Tarquinia recorda-me as duas cidades gémeas de Eusápia, descritas no livro As Cidades Inv…

Ternuras da memória

Saudades das trovoadas de setembro na Beira Alta, com o meu avô na varanda voltada à Serra, feliz com os relâmpagos
(como era surdo não escutava os trovões)
e a minha avó, apavorada num sofá, a rezar versos a Santa Bárbara Virgem que eu, com cinco ou seis anos, tinha decorado sei lá onde e lhe ensinava palavra a palavra. Lembro-me tão bem do pânico dela
– Chama o teu avô, chama o teu avô com lágrimas nos seus imensos olhos azuis
e das árvores ao longe subitamente luminosas, das duas lareiras, da janela para a igreja de São Miguel que a chuva quase apagava. E o meu avô, de casaco de linho branco e boquilha acesa, a assistir. Não me recordo de mais pessoas, nem pais, nem tios, nem irmãos, apenas nós três e os grandes castanheiros da casa, os braços da hera que o vento desprendia dos arames das paredes. O poço ao lado da porta da cozinha ao qual nunca ninguém se atirou, o som da roldana quando se puxava a corda do balde, a bomba manual da água que gemia, gemia e hoje parece-me impossível…

Os valores europeus são mais importantes do que os económicos

Se se viver na Itália ou na Espanha, é fácil defender a União Europeia. Pode-se apontar simplesmente as muitas áreas de política comum, salientar uma pequena lista de conquistas e concluir por aí a argumentação. Sim, há um aumento do euroceticismo nesses países. Mas se realizassem um referendo sobre a permanência, na UE não haveria dúvidas no resultado. A UE tornou-se parte do seu ADN político. É mais difícil defender a causa pró-europeia em relação ao Reino Unido. Mas eu vou tentar. É difícil porque o país não participa na maioria das áreas políticas importantes da UE: o euro, o espaço Schengen, de livre circulação, justiça e assuntos internos e a Carta dos Direitos Fundamentais. No início deste ano, David Cameron conseguiu adicionar mais alguns itens quando obteve o seu acordo especial no Conselho Europeu. O seu governo poderá cortar prestações associadas ao trabalho aos cidadãos da UE. E o primeiro-ministro conseguiu isentar o Reino Unido do objetivo de integração política e de um…

Em busca do Outro

Não é à toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei arduamente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido. O Caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada. 
Clarice Lispector, in Crónicas no "Jornal do Brasil"

A vontade de escrever

Quando conscientemente, aos treze anos de idade, tomei posse da vontade de escrever - eu escrevia quando era criança, mas não tomara posse de um destino - quando tomei posse da vontade de escrever, vi-me de repente num vácuo. E nesse vácuo não havia quem pudesse me ajudar. Eu tinha que eu mesma me erguer de um nada, tinha eu mesma que me entender, eu mesma inventar por assim dizer a minha verdade. Comecei, e nem sequer era pelo começo. Os papéis se juntavam um ao outro - o sentido se contradizia, o desespero de não poder era um obstáculo a mais para realmente não poder: a história interminável que então comecei a escrever (com muita influência de O Lobo das Estepes de Hermann Hesse), que pena eu não ter conservado: rasguei, desprezando todo um esforço quase sobre-humano de aprendizagem, de autoconhecimento. E tudo era feito em tal segredo. Eu não contava a ninguém, vivia aquela dor sozinha. Uma coisa eu já adivinhava: era preciso tentar escrever sempre, não esperar um momento melhor …

Se eu não existisse que falta faria?

Informação e Conhecimento

A filosofia e as grandes questões da humanidade

O momento da escolha... Que profissões?

Poderá até continuar a ser uma vida de trabalho, mas dificilmente será sempre o mesmo. Esta é uma das tendências identificadas pela consultora Jason Associates: “Há hoje uma grande intensidade profissional, que acaba por criar a necessidade de uma segunda carreira quando a primeira cria uma sensação de esgotamento, o que acontece cada vez mais cedo”, disse à VISÃO a responsável pelo recrutamento de executivos da Jason, Filipa Leite Castro. O mercado laboral será de contrastes – e até surpresas. “Liga-se muito o futuro à tecnologia, mas há uma carência enorme de profissionais de relação. O digital trouxe muita informação, mas ficou a faltar a proximidade. Tudo o que envolva relação será necessário, porque o que conta é criar valor acrescentado.” Algumas áreas vão criar mais emprego. Desde que se adaptem. VENDAS E MARKETING Até aqui a área comercial era garantida, tendencialmente, por profissionais não licenciados. A função, como explica Filipa Leite Castro, exigia “muita negociação e r…

A estranha doença dos pais obcecados

Tenho andado para escrever sobre o tema dos “pais obcecados” há algum tempo. Hoje é o dia. Porquê? Porque hoje a escola dos meus filhos meteu à venda os bilhetes para a festa do final do ano. Para quem chegou ao assunto agora, pode parecer estranho que alguns pais tenham de pagar 8 euros para ver os próprios filhos cantar e fazer umas coisas em cima de um palco. Entende a escola que é mais confortável que se faça a festa num anfiteatro a sério, com cadeiras a sério para as famílias se sentarem, e que isso ajuda à formação das crianças para aprenderem a se comportar em frente a um público. Nada contra, é tudo verdade. Adiante, que o melhor está para vir. Há uns anos, os ditos bilhetes eram vendidos sem lugares marcados. Os pais seguiam para a FIL e à medida que chegavam encontravam um lugar para se sentarem. Ano após ano, a coisa começou a ficar descontrolada. Os pais iam cada vez mais cedo para as portas da FIL e quando estas abriam (bastante tempo antes do espetáculo), corriam que n…

O sistema ternário dos ensinos básico e secundário

Acabo de ler o artigo “Escolas públicas, vidas privadas”, saído no PÚBLICO (12/06/2016), da autoria de Manuel Carvalho, com o qual me identifico, quase diria por completo, reconhecendo-lhe o mérito de perspectivar esta temática para além do binário ensino oficial/ensino convencionado com a achega do ensino privado. Aliás, no meu longo deambular em quatro artigos de opinião neste jornal sobre uma polémica que está longe de terminada, titulei um deles: “Ensinos oficial, convencionado e privado” (13/11/2013). Nele chamava a atenção para o ensino privado, da forma seguinte: “Em plena época de grave crise económica, promover uma situação de favor para o ensino privado subsidiado pelos cofres do Estado, poderá ser uma forma de transformar o ensino privado, com longa e valiosa tradição (em minha lembrança e a título de mero exemplo, o Colégio Valssassina de Lisboa, membro-honorário da Ordem de Instrução Pública) num barco em perigo de adernar por, em nome da sua independência, dispensar quai…

Ramadão em viagem

Pára tudo. São seis e meia da tarde. Eis o sinal - a voz do muezzin a avisar, finalmente: após umas catorze horas de jejum, mais coisa menos coisa, é a hora do desjejum. As ruas ficam vazias. Em casa, a mesa começou a ser posta uma hora antes, devagar, para ter com que entreter o tempo de espera. A ementa varia, entre casas mais burguesas e citadinas e as famílias do campo. Mas geralmente começa-se com tâmaras, depois o pão, azeite, compotas, bolos fritos e passados por mel, que acompanham a harira árabe, o askif berbere - a sopa substancial que é presença constante nestas refeições de Ramadão. Chá, café com leite ou batidos de fruta com leite. E água - por onde eu começo, e por onde a maioria das pessoas com quem tenho estado termina. Depois espera-se duas ou três horas, a tentar desfazer o festim, e vem o jantar, uma refeição de tajine ou outro prato costumeiro. Quatro da manhã: é a hora da última refeição. Ou seja, depois de se jantar vai-se dormir e, às três e meia, quatro horas,…

Os sós

Quando perdi a casa perdi tudo. Antes tinha uma vida boa, mulher, emprego, carro, casa. Tinha tudo. Como é que tudo se dissipou? Houve tempos de fausto. O que é estar só? Como falar da solidão, um dos flagelos do homem moderno, sem acumular clichés? Há um artigo neste jornal cujo título diz mais do que todas as imagens do Mundo: “Velhos e sozinhos. A GNR é a família que aparece”. Não são só eles. Há cada vez mais solidão. Sós na multidão é frase fácil e batida mas verdadeira. E a tecnologia, no seu reverso sombrio, contribui para o afastamento físico. Velhos, doentes, sem abrigo, alienados da Internet, miseráveis do Mundo: estamos mais sós? 1. Ainda hoje não estou em mim, não entendo, o que te fiz eu para que te quisesses separar de mim, não entendo, dávamo-nos bem, não nos dávamos bem? E os miúdos, Miguel, porque os fizeste sofrer, desculpa, porque os fizemos sofrer assim? Quinze anos, Miguel, 15 anos não são 15 dias e eu amava-te, amei-te, ainda te amo, no princípio foi a estranhez…

A morte do Jornalismo

No final do séc. XX, com a massificação da internet no mundo ocidental, dizia-se que o online mataria o jornalismo em papel. Afinal, passados tantos anos, podemos observar que o que morreu não foi o jornalismo em papel, mas sim o jornalismo em si mesmo. Grupos empresariais a comprarem órgãos de comunicação social (OCS) não é de hoje, é de sempre. No entanto, hoje temos os "lobbies" a controlar a forma como as notícias são feitas. Hoje, a única coisa que interessa é a viralidade dos conteúdos — só a notícia que obtém muitos comentários e "shares" e "likes" nas redes sociais é a boa notícia. Hoje, as instituições que nos deveriam querer informar, querem apenas a nossa atenção e o nosso clique. Em apenas 15 anos a internet matou o jornalismo. Com algumas excepções, o jornalismo moderno gira à volta do "clickbait". Quantas vezes não vos aconteceu estar num site de notícias só a ver o que se passa e clicar num artigo porque tem um título chocante ou…

O direito de ridicularizar - Ronald Dworkin

A imprensa britânica e americana fizeram bem, no cômputo geral, em não reproduzir as caricaturas dinamarquesas que foram objecto do protesto de milhões de muçulmanos furiosos, recorrendo à destruição violenta e terrível um pouco por todo o mundo. Reproduzir as caricaturas teria muito provavelmente como resultado — e pode ainda ter esse resultado — que mais pessoas seriam mortas e mais propriedade seria destruída. Teria causado muito sofrimento a muitos muçulmanos britânicos e americanos porque os outros muçulmanos lhes teriam dito que a publicação das caricaturas tinha por objectivo mostrar desprezo pela sua religião, e ainda que tal impressão tivesse sido, na maior parte dos casos, incorrecta e injustificada, o sofrimento seria, contudo, genuíno. É verdade que os leitores e telespectadores que têm seguido esta história podem muito bem ter desejado ajuizar por si o impacto, humor e grau de ofensa das caricaturas, pelo que a imprensa pode ter sentido que tinha o dever de lhes dar essa …