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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2013

A alma - Platão

[Sócrates] – (...) decerto não aceitarás, nem dito por ti mesmo, que, sendo a harmonia algo de compósito, possa algum dia ter existido antes desses mesmos elementos que a deverão constituir... Ou será que aceitas? [Símias] – Claro que não, Sócrates – disse. – Ora vês – prosseguiu –, que é exactamente o teu caso quando, por um lado, defendes que a alma existia já antes de entrar numa forma e num corpo humano e, por outro, afirmas que é composta... de coisas que ainda nem sequer existiam? Na realidade, a harmonia a que tu comparas a alma nada tem a ver com esta, pois primeiro vem a lira, as cordas, os sons ainda não harmonizados, e só por último é que ela se constitui a partir de todos eles, para ser a primeira a desaparecer. Ora parece-te que uma tal concepção esteja em consonância com a anterior? – De modo nenhum – respondeu Símias. – E, no entanto, se há assunto que exija consonância é bem este da harmonia... – É um facto – admitiu. – Consonância que no teu caso se não verifica... Ma…

Cientistas Filósofos ou Filósofos Cientistas ?

Dadas as afirmações que antecedem e outras do mesmo sentido referidas quer neste trabalho quer noutros locais pode compreender-se porquê a filosofia e as ciências estiveram durante muito tempo confundidas uma com a outra e que inclusivamente muitos cientistas tenham visto na ciência perspectivada pela filosofia uma entidade mais válida para resposta a questões não prováveis pelo método experimental. Hoje ainda, e apesar dos limites entre uma e outra ( Ciência e Filosofia ) estarem de alguma forma mais clarificados, os resquícios dessa indeterminação anterior sob a qual foram formados culturalmente muitos cientistas e da necessidade de se dar resposta ao não – provável fazem ainda os seus estragos ( ? ) na compreensão desses mesmos limites. É o que entende, entre outros, Louis Althusser em " Filosofia e Filosofia espontânea dos Cientistas ". Segundo Althusser, em altura de crises científicas, alguns cientistas reconhecem que sempre encerraram dentro de si um filósofo adormec…

A interpretação da linguagem política

"Pela boca morre o peixe" dizia a minha avozinha, que até nem era pescadora, nem das bordas marítimas. Os excessos da linguagem política têm vindo a tornar-se familiares, e nem sequer havemos de levá-los a mal, porque a política, mais que a arte do possível, é a arte do excesso. Excesso de promessas, na sua versão mais suave (ou soft, ou light, como agora dizem os tecnocratas da informação) e mais aliciante: com promessas ninguém se ofende; excesso de discursos e de declarações literariamente sumptuosas, porque a habilidade oratória passou-se dos púlpitos para as amplificações sonoras dos comícios e das assembleias, e para as megafonias dos cortejos propagandísticos de eleições ou reivindicações; excesso de acusações mútuas, porque a falta de argumentos para a defesa ou sustentação das opiniões próprias, crêem eles e elas que só pode ter um sucedâneo à altura: a acusação fácil e fútil aos adversários políticos, que às vezes até são amigos de bairro, daqueles das exibicionais…

Educação: a importância dos Valores

Durkheim considerava que os valores míticos e religiosos, que funcionaram como crenças nas sociedades tradicionais, serviram para exercer o controlo e a coesão sociais, e para inspirar as avaliações e as motivações das pessoas. É assim que, nas sociedades tradicionais de solidariedade mecânica, os indivíduos estão integrados por valores comuns, que se lhes impõem, garantindo a coesão social. Já nas sociedades modernas de solidariedade orgânica verifica-se, segundo Durkheim, uma erosão dos valores, graças ao aumento do individualismo e à desintegração das ligações sociais originadas pelo desenvolvimento da divisão do trabalho.  Parsons (1951), que consagrou a existência de quatro subsistemas interdependentes - cultural, político, económico, societal -, remete cada um deles para quatro tipos de valores. O subsistema cultural mantém os modelos valorizados da acção, o subsistema político assegura a função de realização das finalidades colectivas, o subsistema societal assegura a função d…

Ética e política - por José Manuel Santos

O conflito entre ética e política, ou, mais explicitamente, entre consciência moral e razão de estado, é antiquíssimo. Na Antigona, de Sófocles, esse conflito foi magistralmente levado à cena. A ordem política acaba por levar a melhor sobre a revolta da consciência moral que teimou em cumprir o seu dever; a vitória amarga do político é, ao mesmo tempo, a legitimação do uso da violência por parte dos representantes legítimos do estado (condenação à morte da heroína). Numa tentativa de resolver um conflito a que o trágico confere a fatalidade do destino, os pensadores antigos (Platão e Aristóteles) encaram a ética e a política como estando numa relação de continuidade e unidade. Em Platão o rigor e a bondade da capacidade de comandar a si próprio, relação ética, é transferido para o comando exercido sobre os ``muitos'', na relação propriamente política. Por outro lado, o principal objectivo do político é ``tornar os cidadãos (eticamente) melhores''. Em Aristóteles a unid…

Educação para os Valores

Os valores não devem ser encarados como algo abstracto ou estanque, nem como um código de conduta imposto de fora para dentro. A educação em valores na família e na escola deverá incrementar a capacidade de discernimento dos alunos e consciencializá-los da importância das suas escolhas. Assim, a educação consolida os valores e virtudes já existentes nos alunos e incentiva a superação de erros e defeitos. 
Martinelli

Religião e Séc. XXI

Há aquele dito, constantemente repetido, atribuído a André Malraux: "O século XXI será religioso ou pura e simplesmente não será." Mas ele negou ser o seu autor. Prevenindo para o perigo do vazio espiritual da civilização ocidental - "civilização das máquinas e da ciência superpotente, mas incapaz de dar ao Homem uma razão de viver" -, o que disse foi: "Nunca disse isso. O que digo é mais incerto. Não excluo um acontecimento espiritual à escala planetária." Segundo a revista Philosophie magazine, no número de Setembro, donde tiro as citações, a expressão de Malraux acabaria por antecipar o grande abalo, à escala do planeta, da passagem do racionalismo das Luzes ao retorno do religioso nas suas múltiplas facetas. Ainda no quadro do Iluminismo, E. Renan escreveu, em O Futuro da Ciência, que "a humanidade que sabe" iria substituir "a humanidade que crê". Depois, os "filósofos da suspeita", Marx, Nietzsche e Freud, denunciarão a …

Filosofia: ler para entender

Tem em mente que quando lês filosofia, estás a tentar entender um pensamento. É muito diferente de ler um jornal. A postura de leitura tem de ser totalmente diferente, mais concentrada.Filosofia é um tipo de escrita persuasiva. Ao ler um texto filosófico, estamos em contacto com a opinião do autor, que nos está a tentar convencer de que a opinião dele é plausível - e a dos outros não.A melhor forma de entender filosofia é com doses homeopáticas. Não podemos pensar em quantidade, mas sim em profundidade. Ler uma página de um romance pode demorar um minuto. Uma folha de um livro de filosofia deve ser lida com mais calma. Dez minutos por página é um tempo razoável quando se está a ler pela primeira vez.Antes de começar a ler, escreve num papel os principais pontos de vista do autor. Presta atenção na estrutura do texto também. Se for um ensaio, lê o primeiro e último parágrafo. Se for um livro, lê o índice e depois o discurso de abertura.Agora que já sabes as dicas de pré-leitura, é hora…

Educação: defender a escola pública - por João Ruivo

As mais recentes medidas da tutela que visam o regresso a uma concepção conservadora do papel da escola e da função dos docentes (aumento do número de alunos por turma, segregação por níveis de aprendizagem, entre outros) colocam na ordem do dia, e uma vez mais, a defesa da escola pública. Não estranha que nesta escusada conjuntura de desalento e de fortes emoções os profissionais do ensino com mais consciência social e cultural vejam os perigos que espreitam a escola democrática, erguida sobre a estrutura de ensino elitista que o Portugal do pós abril herdara da ditadura. Convenhamos que o então ainda sonho de pensar uma escola que promovesse a igualdade de oportunidades e atenuasse as desigualdades sociais se viria a revelar como um dos grandes mitos educativos das últimas décadas do século XX.  Porém, tal não invalida que mesmo os mais céticos não reconheçam que as democracias europeias estão longe de poder inventar uma outra instituição capaz de corresponder, com tanta eficácia, à…

Educação e Neoliberalismo

Qualidade total, modernização da escola, adequação do ensino à competitividade do mercado internacional, nova vocacionalização, incorporação das técnicas e linguagens da informática e da comunicação, abertura da universidade aos financiamentos empresariais, pesquisas práticas, utilitárias, produtividade, essas são as palavras de ordem do discurso neoliberal para a Educação. O que significam? O termo qualidade total aproxima a escola da empresa. Em outras palavras, trata-se de rimar a escola com negócio. Mas não qualquer negócio. Tem de ser um bem administrado. O raciocínio neoliberal é tecnicista. Equaciona problemas sociais, políticos, económicos como problemas de gerência adequada e eficiente ou inadequada e ineficiente. Por exemplo, ao comparar a escola pública de primeiro e segundo ciclos à escola particular, a retórica neoliberal diz que a qualidade da primeira é inferior à da segunda porque a administração da escola pública é ineficaz, desperdiça recursos, usa métodos atrasados.…

Mito - classificação quanto ao conteúdo

- Mito teológico – relata o nascimento dos deuses, os seus matrimónios e genealogias;  - Mito cosmogónico – debruça-se sobre a criação e o ordenamento do mundo e os seus elementos constitutivos;  - Mito antropogónico – apresenta a criação do homem;  - Mito soteriológico – apresenta o universo da iniciação e dos mistérios, das catábases e dos percursos purificadores;  - Mito cultural – narra a actividade de heróis que, tal como Prometeu, melhoram as condições do homem;  - Mito etiológico – explica a origem das coisas e das pessoas; pesquisa as causas por que se formou uma tradição, procurando em especial encontrar episódios que justifiquem nomes;  - Mito naturalista – justifica miticamente os fenómenos naturais, telúricos, astrais, atmosféricos;  - Mito moral – relata as lutas entre o Bem e o Mal, entre anjos e demónios, entre forças e elementos contrários;  - Mito escatológico; descreve o futuro, o homem após a morte, o fim do mundo” Não é por acaso que muitos relatos se iniciam com a…

Educação: a greve - entrevista a Santana Castilho

Cosmogonia Helénica

A mitologia grega é um marco importante na evolução do pensamento da época e ainda um meio necessário para a compreensão da mentalidade no mundo helénico, caracterizada por uma ordem, uma fonte de inspiração para um mundo mais civilizado. Através da mitologia antiga podemos sentir a história, a história daqueles tempos e a história dos deuses, dos heróis e dos homens, que estão ligados pelo inconsciente imaginário. Na sua fantasia, os gregos povoaram o céu e a terra, os mares e os mundos subterrâneos de divindades, ao mesmo tempo que criaram uma categoria intermediária para os semi deuses e para os heróis. No quadro temático dos deuses, Zeus, deus do Céu luminoso e de todos os fenómenos atmosféricos, ocupa um lugar destacado, pois tudo vê, tanto o presente como o futuro. Zeus, sábio e justo, é o grande deus do panteão helénico. Ele personifica a força do bem utilitário num mundo e numa época ainda dominados pela barbárie. Torna-se o soberano supremo dos deuses e dos homens através de…

Economia sem educação? Só na Playstation - por Nicolau do Vale Pais

É óbvio que estamos a pagar demasiados impostos para não nos arrogarmos o direito de discutir o lugar do Estado ou da coisa pública nas nossas vidas; em boa verdade, se mandarmos a política e o partidarismo às malvas, e nos concentrarmos realmente em prazos de análise fora do quadrado eleitoralista - a 10, 20 ou 30 anos, portanto - concluímos que todas as vitórias a que assistimos durante o século XX foram só e apenas possíveis com altos níveis de comprometimento entre governantes e governados. Foi assim que se venceu uma taxa de analfabetismo surreal; foi assim que ultrapassámos a Alemanha ao nível dos cuidados públicos no parto e no neo-natal (olé...). Para o melhor e para o pior, é assim que podemos hoje discutir um modelo de televisão pública em vez de o ver encerrado à força, e é assim que ainda estamos - e estou convencido, estaremos - longe dos desastres violentos como a praça Taksim. No centro destas transformações está o Estado Democrático. Muitas vezes ínvio, outras tantas …

Política da educação e educação da política

Quando estará este Ministério da Educação disponível para refletir e debater com os professores as questões de fundo e disfunções da escola pública (currículos, programas, práticas pedagógicas, a obscena burocracia em que as escolas soçobraram, qualidade e caminhos do ensino profissional, obviamente, processos de formação e avaliação de professores, etc.)? Até quando estarão os professores dispostos a consentir que a arrogância e o folclore pseudo-reformista das políticas educativas deste Governo abastardem irremediavelmente as suas vidas e penhorem o futuro do País? Luís Filipe Torgal in educare.pt

Eu não fui ensinada por mágicos ou feiticeiros... (Inês Gonçalves - 12º ano)

Estudo no 12º ano, tenho 18 anos. Sou uma entre os 75 mil que têm o seu futuro a ser discutido na praça pública. Dizem que sou refém! Dizem que me estão a prejudicar a vida! Todos falam do meu futuro, preocupam-se com ele, dizem que interessa, que mo estão a prejudicar… Ando há 12 anos na escola, na escola pública. Durante estes 12 anos aprendi. Aprendi a ler e a escrever, aprendi as banalidades e necessidades que alguém que não conheci considerou que me seriam úteis no futuro. Já naquela altura se preocupavam com o meu futuro. Essas directivas eram-me passadas por pessoas, pessoas que escolheram como profissão o ensino, que gostavam do que faziam. As pessoas que me ensinaram isso foram também aquelas que me ensinaram a importância do que está para além desses domínios e me alertaram para a outra dimensão que uma escola “a sério” deve ter: a dimensão cívica. Eu não fui ensinada por mágicos ou feiticeiros, fui ensinada por professores! Esses professores ensinaram-me a mim e a milhares …

Educação e cultura

“Tenho em mente um ensino educativo. A missão desse ensino é transmitir não o mero saber, mas uma cultura que permita compreender a nossa condição e nos ajude a viver; que favoreça, ao mesmo tempo, um modo de pensar aberto e livre.”
Edgar Morin

Educação: como estamos?

O Positivismo de Teófilo Braga

A presença de Teófilo Braga no pensamento português é pautada pela forma como defendeu o ideal positivista, que alcançara considerável projecção da segunda metade do nosso século XIX. Todavia, na fase inicial da sua evolução intelectual, Teófilo foi um pensador romântico. Daí o seu interesse pelas manifestações espirituais do povo português, desde a literatura à religião, à arte, às tradições e aos costumes, aspecto que aliás nunca abandonaria a sua conformação intelectual, mesmo depois da adesão ao positivismo. (...) Deixa-se então seduzir pelo triunfalismo positivista, defendendo que à segunda metade do século XIX estava destinada a realização plena da última fase do espírito, com a entrada final da consciência no estado positivo e com a consequente transformação pacífica das instituições políticas e sociais, que, a não operar-se, geraria fenómenos revolucionários de trágicas consequências . (...) À luz de uma concepção unilinear e universalizante, deitando o passado no leito precu…

Educação: educar é...

Educar é o mesmo
que pôr um motor num barco…
há que medir, pensar, equilibrar…
… e pôr tudo a andar.           

Mas para tal
há que ter na alma
um pouco de marinheiro…
um pouco de pirata…
um pouco de poeta…
e um quilo de paciência concentrada.

Porém consola sonhar,
enquanto se trabalha,
sonhar que esse barco, esse menino,
irá muito longe pela água.

Sonhar que esse navio
levará a nossa carga de palavras
até portos distantes, até ilhas longínquas.

Sonhar que, quando um dia
a nossa própria barca estiver a dormir,
seguirá em barcos novos
a nossa bandeira hasteada.

Gabriel Celaya

Marx no Séc. XXI - Robert Kurz

Quem for tido por morto vive mais. Na qualidade de teórico ativo e crítico, Karl Marx já foi dado por morto mais de uma vez, mas sempre conseguiu escapar da morte histórica e teórica. Tal feito se deve a um motivo: a teoria marxista só pode morrer em paz juntamente com o seu objeto, ou seja, com o modo de produção capitalista. Esse sistema social, que é "objetivamente" cínico, regurgita sobremodo de exigências de comportamentos tão descaradas impostas aos seres humanos, produz ao lado de uma riqueza obscena e insípida uma pobreza em massa de tal dimensão, é marcado em sua dinâmica de cólera cega pelo potenciamento de catástrofes tão incríveis que a simples sobrexistência desse sistema necessita, inevitavelmente, sempre fazer ressurgir temas e pensamentos de crítica radical. Por sua vez, o ponto essencial dessa crítica consiste na teoria crítica daquele Karl Marx que, há quase 150 anos, já analisara, sem ser superado, a lógica destrutiva do processo de acumulação capitalista…

Educação - o lugar da "Filosofia da Educação"

Numa época em que, como a nossa, os sinais de mediatização são cada vez mais poderosos em todo o planeta, num momento em que, como o presente, a sociedade portuguesa dá sinais de estar a ser sujeita a um processo de mediocratização cada vez mais preocupante, não nos parece legítimo que se possa continuar a pensar a educação - e tal pressupõe, necessariamente, que a pensemos não apenas hoje mas também ontem e amanhã - sem questionar o papel dos media, em especial da televisão. À História e à Filosofia da Educação compete-lhes estarem atentas, interessadas e disponíveis para questionar o passado, compreender o presente e ajudar a construir o futuro.
Olga Pombo in http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo

Poética, Retórica, Dialética e Analítica (Lógica)

Possibilidade, verosimilhança, probabilidade razoável e certeza apodíctica são, pois, os conceitos-chave sobre os quais se erguem as quatro ciências respectivas: a Poética estuda os meios pelos quais o discurso poético abre à imaginação o reino do possível; a Retórica, os meios pelos quais o discurso retórico induz a vontade do ouvinte a admitir uma crença; a Dialética, aqueles pelos quais o discurso dialético averigua a razoabilidade das crenças admitidas, e, finalmente, a Lógica ou Analítica estuda os meios da demonstração apodíctica, ou certeza científica. Ora, aí os quatro conceitos básicos são relativos uns aos outros: não se concebe o verossímil fora do possível, nem este sem confronto com o razoável, e assim por diante. A conseqüência disto é tão óbvia que chega a ser espantoso que quase ninguém a tenha percebido: as quatro ciências são inseparáveis; tomadas isoladamente, não fazem nenhum sentido. O que as define e diferencia não são quatro conjuntos isoláveis de caracteres fo…

Educação e transformação

" Cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar como mundo que encontra à sua volta. Porque cada um de nós é um ente extraordinário, com lugar no céu das ideias e, se nos soubermos lavar da lama que se nos pegou quando aparecemos na terra, seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário, e transformaremos o mundo"
"Entrevista com Agostinho da Silva", p.162

Filosofia e Poesia - por Olavo de Carvalho

A filosofia é a busca da sabedoria, a poesia é a sabedoria em busca dos homens. Isto é tudo, e não há mais diferença alguma. São como as duas colunas do templo, o Rigor e a Misericórdia — aquilo que a sabedoria exige, aquilo que a sabedoria concede. Por esta razão não podem nem se desentender de todo, nem identificar-se por completo. Nem pode a filosofia deixar de ser uma poesia que se recolheu ao estado de experiência interior, nem pode a poesia deixar de ser uma filosofia in nuce. Pela mesma razão a filosofia, ao contrário da poesia, não está nunca totalmente na obra, e sim metade no filósofo mesmo: o portador do saber é o homem, não o livro. O livro, o tratado, a aula, nunca é senão a condensação do saber nuns quantos princípios gerais e sua exemplificação numas quantas amostras; e o saber, o verdadeiro saber, se abriga naquele núcleo vivo de inteligência que permanece no fundo da alma do autor após encerrado o livro, e que saberá dar a esses princípios outras e ilimitadas encarna…

Educação - É por isto que eu protesto!

"Há anos que as políticas educativas dos sucessivos governos têm privilegiado a mudança em detrimento da melhoria. Ora, estes caminhos são muito distintos. O paradigma da mudança repousa na iluminação dos detentores momentâneos do poder que, possuídos de uma divinal chama, decretam e despacham a toda a hora as mudanças. E estas ocorrem, fatalmente, no dia decretado. Por sua vez, o paradigma da melhoria assenta numa acção humilde, determinada e persistente de cada escola, envolvendo sobretudo professores, alunos e pais que, partindo da análise das suas fragilidades e potencialidades, ousam estabelecer e percorrer compromissos de melhoria gradual. A primeira via gera irresponsabilidade, a segunda sustenta-se na responsabilidade."
Joaquim Azevedo - J. Público


Filosofia e pedagogia

Não tenhamos ilusões, falta á nossa época a consciência da cultura, isto é, daquela coisa que em aparência mais a envaidece. A isso contribuiu a expansão democrática do ensino, que se preocupou mais de estender o uso do vocabulário do que intensificar e purificar numa minoria selecta a consciência das ideias. Devido a isto, multiplicaram os médicos, os engenheiros, os advogados, os técnicos, os leitores de jornais e em troca subtraiu os homens cultos. Causa última, sintoma definitivo desta mingua é que a nossa idade padece uma forma específica da incultura, precisamente o desconhecimento daquelas meditações em que se aclara o sentido da cultura e em consequência, o sentido da vida humana, é a incultura do médico sábio, do engenheiro sábio, do jurista sábio, a ignorância do geral que padece o sábio essencial. Do século X até aos nossos dias a época que se caracteriza pela sua incultura filosófica é o século XX, século do especialismo. Porque a consciência da cultura, não é, outra cois…

Educação - o saber do povo

" Não há nada que o homem entenda melhor que o tom com que nos dirigimos a ele, o sentimento que ele nos inspira. A ingénua crença na nossa incomensurável sabedoria relativamente ao povo antolha-se-lhe grotesca e em muitas ocasiões considera-a mesmo ofensiva.  E se, de repente, o povo também se convencesse (se o não sabe, suspeita-o) de que podia ensinar-nos alguma coisa, e nós, sem dar-lhe ouvidos, nem presumir semelhante coisa, rindo-nos das suas ideias e acolhendo com arrogância as suas instruções! E dizermos que o povo podia ensinar-nos muita coisa, quanto mais não fosse a maneira de o instruirmos." 
Dostoievski, in 'Diário de um Escritor'

Qual é o sentido da vida? - por Ana Soares

João Sobral afirma que ao falar do sentido “podemos dizer que o sentido de uma determinada coisa é ela em si mesma, é encontrá-la, descobrir o seu valor. (…) O sentido da nossa vida é, por isso, uma base onde assentam todos os nossos atos, todos os nossos desejos e todos os nossos objetivos. Uma base escolhida por nós próprios."(1) Esta última frase fez-me reflectir acerca deste tema. Se o sentido da nossa vida é uma base escolhida por nós, então nós próprios podemos colocarmo-nos na posição de um juiz, em que cada ser humano se pergunta se a sua vida tem sentido. E posta assim a pergunta, a resposta depende de cada um, uma vez que a vida é um conjunto de acontecimentos e sensações vividas no interior de cada um de nós. O que pode ter sentido para uma pessoa, pode não significar nada para outra.  O sentido da vida é como se fosse a folha com o verbo “ter” conjugado. Desta forma, não há dois conjuntos folha+verbo conjugados, iguais, pois também não há dois sentidos de vida exatam…