Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2016

Assim como sou não tenho nem fim nem vida - Álvaro de Campos

Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o unive…

Beleza

Dos prados às pessoas, de Safo ao canto das aves, a beleza tem seduzido e confundido a humanidade. Platão viu a beleza como o objecto do desejo e uma porta de entrada no transcendental. S. Tomás de Aquino viu-a como um atributo do Ser e uma dádiva de Deus. Mas a beleza também pode ser perigosa, como a de Carmen, perturbante, como a do David de Miguel Ângelo, ou até imoral, como a da música de Strauss quando Salomé beija a boca inerte de João Baptista. O que queremos dizer exactamente por «beleza» e que lugar deverá ela ocupar nas nossas vidas? Nesta obra directa e estimulante, Roger Scruton alega que a beleza tem tanta importância quanto a que Platão lhe atribuía e que ela não deve ser vista como um mero sentimento subjectivo daquele que a contempla. Pelo contrário, a beleza é fundamental para uma vida bem vivida e o mundo não seria um lugar aprazível sem o interesse generalizado que ela desperta. "Durante mais de 30 anos, Roger Scruton foi um eloquente admirador da beleza vulga…

A Ideia de Bem

Ao contrário dos sofistas, para os quais tudo dependente em última instância de interesses particulares, Platão concebe toda a sua filosofia em torno de um ideal supra humano: a ideia de Bem. 1.O Bem, o Belo, o Uno e o Ser são as quatro ideias que Platão colocou acima de todas as outras ideias e das quais todas provém. Todas elas se implicam entre si, como se fossem aspectos de uma mesma coisa.  2. A ideia de Bem é o fim para que tende todo o ser vivo. O bem é o fundamento da teoria do conhecimento, mas também da ontologia.  3. A ideia de Bem é comparada na República com o Sol, cuja luz torna os objectos da natureza visíveis, conferindo-lhes importância, valor e beleza. O Bem é desta forma aquilo que dá o ser aos objectos do conhecimento. 4. O Bem e o Belo proporcionam ao cosmos a sua ordem, medida e unidade. No Timeu afirma: "Tudo o que é bom é belo. Ora, o belo não é desprovido de medida, de modo que um ser vivo, destinado a ser belo, deve ter-se por proporcionado...".  A…

Ainda ontem pensava que não era

Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:
" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."

E no meu sonho eu respondo-lhes:
"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."

Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
"Quem és tu?"

Kahlil Gibran

O Contrário

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola.
Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas.
Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.
O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente?
Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência?
O ódio é também uma maneira de se estar com alguém.
Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.
Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam.
Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios …

30º encontro APF

Mais informações em http://www.apfilosofia.org/eventos

Reflexão sobre os direitos fundamentais

Se todas as pessoas cumprissem com os seus deveres fundamentais e respeitassem os correspondentes direitos das outras, isto é, se o comportamento de todas as pessoas estivesse em conformidade com o que prescreve o ordenamento jurídico, não chegaria a desencadear-se qualquer conflito de interesses, porque estes, só surgem a partir do momento que as normas jurídicas são desrespeitadas. Porém, os direitos fundamentais podem ser definidos como direitos subjectivos de pessoas físicas ou jurídicas, garantidos por normas de nível constitucional que limitam o exercício do poder estatal. Para vermos o alcance e a importância da disciplina dos direitos fundamentais, basta lembramos que, a Declaração Universal dos Direitos Humanos dedica os primeiros cinco artigos à pessoa e aos seus direitos fundamentais. Põe o homem no centro de tudo, sujeito a direitos e deveres. Contudo, pensamos que quando se dá o devido lugar a pessoa humana é possível construir-se uma sociedade justa e respeitadora dos di…

Vida e Liberdade

A negação da liberdade é uma velha teoria que não tem em conta a vida prática tal como realmente é e tal como de facto é experimentada; é uma teoria que a própria vida continuamente contradiz. A liberdade é um dado fundamental da nossa existência humana que não pode remeter-se a nenhum outro e que por isso mesmo não se pode eliminar nem contradizer. Nós sabemo-nos livres, nós experimentamo-nos constantemente perante novas decisões que reclamam o nosso parecer e frente às quais nós mesmos, como que a partir do mais íntimo do nosso ser pessoal, somos obrigados a tomar uma posição por esta ou aquela possibilidade de agir, por este ou aquele valor que nos interpela e exige uma resposta adequada. Encontramo-nos com frequência imersos no dilema da escolha, na necessidade a que não podemos fugir de ter de optar, elegendo entre várias possibilidades, talvez de grande importância e de graves consequências. Reflectimos, pesamos os prós e os contras, procuramos descobrir a conduta mais sensata …

A natureza do conhecimento (apontamento)

A nível da natureza do conhecimento encontramos duas posições:
- para o Realismo, os universais existem objectivamente , seja na forma de realidades em si, transcendentes em relação aos particulares (como em Platão, universais ante rem ), ou como imanentes encontrados nas coisas individuais (como para Aristóteles, universidade in re ). - para o Idealismo, sendo o primado do EU subjectivo , no entanto não significa necessariamente reduzir a realidade ao pensamento. Assim, na filosofia idealista, o postulado básico é que Eu sou Eu, no sentido de que o Eu é objecto para mim (Eu). Ou seja, a velha oposição entre sujeito e objecto se revela no idealismo como incidente no interior do próprio eu, uma vez que o próprio Eu é o objecto para o sujeito (Eu).
Podemos, considerá-lo em várias perspectivas, tais como:
1. Qualquer teoria filosófica em que o mundo material, objectivo , exterior só pode ser compreendido plenamente a partir de sua verdade espiritual, mental ou subjectiva . Seus opostos …

Ode ao Povo

Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o povo. Estes homens estão sob o peso do calor e do Sol, transidos pelas chuvas, roídos do frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o povo, e são os que nos alimentam. Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos. Estes homens são o povo, e são os que nos vestem. Estes homens vivem debaixo das minas, sem o Sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o…

Questões sobre a Deontologia kantiana (apontamento)

1. Por que razão é a ética de Kant uma ética deontológica? Considera – se que a ética kantiana é deontológica porque defende que o valor moral de uma ação reside em si mesma – na sua intenção – e não nas suas consequências. Em geral, uma teoria é deontológica se considera que agir moralmente consiste em cumprir o dever pelo dever e que há deveres absolutos, ou seja, deveres que é obrigatório cumprir independentemente das consequências.
2. Segundo Kant, uma ação pode ter boas consequências e não ter valor moral. Porquê?
As consequências de uma ação não têm qualquer relevância para determinar o valor moral dessa ação, quer essas consequências sejam boas ou más, uma vez que o valor moral de uma ação é determinado pela intenção do agente. Uma ação com valor moral pode ter boas consequências mas não são as boas consequências que a tornam moralmente valiosa.
3. O que é agir por dever?
Agir por dever é fazer do cumprimento do dever a única razão de ser da minha ação. Faço do cumprimento do dev…

Kant: síntese em 10 pontos (apontamento)

"1 – O sentido do Iluminismo.- “O que é a Ilustração? É a saída do homem da sua menoridade, da qual ele mesmo é responsável. Menoridade, ou seja, incapacidade de se servir do seu entendimento sem a orientação de outrem, menoridade da qual ele mesmo é responsável, pois a causa reside não na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem para se servir dele sem a tutela de outrem. Sapere aude! Tem coragem para te servir do teu próprio entendimento! Essa é a divisa das Luzes!” [Kant, Immanuel. “Respuesta a la pregunta: Qué es la Ilustración?” In: Kant, Erhard, Freiherr von Moser, e outros. Qué es Ilustración? - Estudo preliminar de Agapito Mestre; versão espanhola de Agapito Mestre e José Romagosa – 3ª. Edição, Madrid: Tecnos, 1993, p. 17]. 2 - Kant marcou definitivamente os rumos da filosofia ocidental, desatrelando-a da metafísica e colocando-a, de maneira firme, no contexto da denominada perspectiva crítica ou transcendental. Não temos acesso à essência substancial…

Inveja: a emoção que existe mas ninguém tem

É considerada uma emoção secundária e um dos sete pecados mortais. Há sobre ela anedotas, citações, textos inteiros, teses académicas, mas quando se sai à rua parece que ninguém a conhece. Afinal o que é a inveja e por que a temos? E poderá ter um lado bom? No jargão chamam-lhe«dor de cotovelo» e não será por acaso. Recentemente, recorrendo à análise de imagens de ressonância magnética, o investigador japonês Hidehiko Takahashi, publicou na revista Science um estudo que mostra que sentir inveja ativa o córtex singulado anterior, a zona cerebral que processa a dor física. Mais, a dor da inveja é tão forte que – concluiu este ano um grupo de investigadores da Bradley University, nos Estados Unidos da América, e da Nanyang Technological University, em Singapura – pode levar a uma tristeza extrema e causar mesmo depressão. Os utilizadores do Facebook foram os alvos do estudo e, segundo os investigadores, tudo se processa mais ou menos assim: hoje uma publicação com dois pratos de comida …

Novos paradigmas da educação

Alguns discursos de responsáveis e estudiosos da educação são muito inquietantes. Esses discursos têm vários ingredientes, um dos quais é precisamente o uso de expressões como "novos paradigmas", "modernidade", "pós-modernidade" e outros deste género. Nestas linhas vou procurar mostrar alguns dos problemas de que enfermam este tipo de discursos. Em primeiro lugar, estão ultrapassados. Os chamados "novos paradigmas" são ideias que se baseiam em livros que têm quase 40 anos. Tomemos a ideia de que o projecto da modernidade "faliu" e que estamos a transitar para a "pós-modernidade". Estas ideias estão longe de ser novas ou aceitáveis. O escândalo Sokal devia fazer as pessoas das "ciências" da educação pensar duas vezes neste tipo de ideias. Só porque alguns intelectuais fizeram um dado diagnóstico cultural temos de o aceitar dogmaticamente, sem discussão? Por outro lado, olhe-se para a realidade: quais são as melhores…

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos E o sentimento do mundo, Mas estou cheio de escravos, Minhas lembranças escorrem E o corpo transige Na confluência do amor. Quando me levantar, o céu Estará morto e saqueado, Eu mesmo estarei morto, Morto meu desejo, morto O pântano sem acordes. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. Sinto-me disperso, Anterior a fronteiras, Humildemente vos peço Que me perdoeis. Quando os corpos passarem, Eu ficarei sozinho Desfiando a recordação Do sineiro, da viúva e do microscopista Que habitavam a barraca E não foram encontrados Ao amanhecer Esse amanhecer Mais noite que noite.
Carlos Drumond de Andrade 

O problema dos universais em Platão

Na sequência da filosofia do orfismo e dos pitagóricos que influenciou grande parte dos filósofos pré-socráticos, Platão referiu-se à teoria das Ideias ou das Formas a que faz referência, nomeadamente, na Alegoria da Caverna da última parte da “República”. Segundo ele, os objectos individuais ou particulares do mundo sensível pertencem, na sua multiplicidade, a um género que os integra em uma Forma ou Ideia de origem divina ou — se quiserem evitar uma linguagem metafísica tradicional — com origem no Além-espaço-tempo. Não só eu partilho desta teoria de Platão, como a teoria quântica moderna lhe dá alguma razão, como adiante será demonstrado. A oposição a Platão começou com os Cínicos quando diziam a Platão que “eu vejo um cavalo, e não a cavalidade”. Mais tarde, Roscelino (o primeiro filósofo da escolástica medieval) dizia que os universais eram flatus vocis (sopros da voz) porque era apenas nomes (e daí o termo “nominalismo”) e etiquetas graças às quais podemos representar as classes…

O conceito de "eudemonia"

Estritamente falando, o termo "eudemonia" é uma transliteração da palavra grega para prosperidade, boa fortuna, riqueza ou felicidade. Em contextos filosóficos a palavra grega "eudaimonia" tem sido tradicionalmente traduzida simplesmente por "felicidade", mas muitos estudiosos e tradutores contemporâneos tentaram evitar esta interpretação por poder sugerir conotações que nada ajudam no espírito do leitor acrítico. (Por exemplo, não se refere a um estado emotivo, nem é coextensional com a concepção utilitarista de felicidade, apesar de ambas as noções poderem, em alguns pensadores, contar como aspectos da eudemonia.) Dado que a palavra é composta pelo prefixo eu- (bem) e pelo substantivo "daimon" (espírito), tem-se proposto em alternativa expressões como "viver bem" ou "florescimento". Mas o consenso aparente é que "felicidade" é adequado se o termo for apropriadamente compreendido no contexto filosófico da antiguid…

“Não Te Rendas Jamais”

Procura acrescentar um côvado à tua altura. Que o mundo está
à míngua de valores
e um homem de estatura justifica
a existência de um milhão de pigmeus
a navegar na rota previsível
entre a impostura e a mesquinhez
dos filisteus. Ergue-te desse oceano
que dócil se derrama sobre a areia
e busca as profundezas, o tumulto
do sangue a irromper na veia
contra os diques do cinismo
e os rochedos de torpezas
que as nações antepõem a seus rebeldes.
Não te rendas jamais, nunca te entregues,
foge das redes, expande teu destino.
E caso fiques tão só que nem mesmo um cão
venha te lamber a mão,
atira-te contra as escarpas
de tua angústia e explode
em grito, em raiva, em pranto.
Porque desse teu gesto
há de nascer o Espanto.


Eduardo Alves Da Costa in acasadevidro.com

Paraísos artificiais - Jorge de Sena

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

O cântico das aves – não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

Jorge de Sena 3/5/47

"O artista não é um imitador" - Isabel Rosete

(A Martin Heidegger e a todos os artistas)
Não! Claro que Não! O Artista não é um imitador E a Arte não é Mimésis, Cópia pura e simples da realidade! A Arte dá-se no des-florar da Verdade, No brilho da sua adveniência essencial, Que é o Belo; A Arte dá-se na plena libertação dos Sentidos E do Sentir, onde todas as emoções Surgem e se exprimem Em múltiplas linguagens. A Arte é Matéria e Forma, Talento e Génio, Inspiração e Respiração sem limites, O Dizível e o Indizível, O Latente e o Manifesto, O In-habitual na excentricidade De um fazer-ser da Imaginação Criadora, sempre em estádio De pleno engenho des-velador e purificador. A Arte sorve uma outra mundividência Que nos aliena do quotidiano, Numa dádiva epifânica que por ele Se mostra e sempre nos Fala Do íntimo das coisas-mesmas, Sempre tão próximas! Sempre tão distantes!» Isabel Rosete, in "FLUXOS DA MEMÓRIA"

Homem, animal político

Assim, a família é uma comunidade formada de acordo com a natureza para satisfazer as necessidades quotidianas.(…) Por outro lado, a aldeia é a primeira comunidade formada por várias famílias para satisfação de carências além das necessidades diárias. A aldeia parece ser, por natureza e no mais elevado grau, uma colónia de lares. (…) A cidade, enfim, é uma comunidade completa, formada a partir de várias aldeias e que, por assim dizer, atinge o máximo de auto-suficiência. Formada a princípio para preservar a vida, a cidade subsiste para assegurar a vida boa. É por isso que toda a cidade existe por natureza, se as comunidades primeiras assim o foram. A cidade é o fim destas, e a natureza de uma coisa é o seu fim, já que, sempre que o processo de génese de uma coisa se encontre completo, é a isso que chamamos a sua natureza, seja de um homem, de um cavalo ou de uma casa. (…)Estas considerações evidenciam que uma cidade é uma daquelas coisas que existem por natureza e que o homem é, por …