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Mensagens

A mostrar mensagens de 2012

2013

A chegada de um Novo Ano pode ser um excelente convite à reflexão, à avaliação do que passou, ao sonhar e planear do futuro. É um convite à consciência e talvez à mudança. Alterar hábitos não é, normalmente, fácil mas é sempre oportunidade para crescer. Uma das tarefas que nos pode caber é a de nos tornarmos activos - abandonarmos a indolência, o deixar levar, a navegação à vista... Não chega dizer que se quer mudar; não chega dizer que vamos ser diferentes de ora em diante; não chega pensar que estamos prontos para a transformação! É preciso imaginar, desejar e sonhar, para "fazer" dessa força de mudança uma vida concreta que irá certamente trazer resultados bem como o prazer de nos vencermos a nós mesmos. Um excelente ano de 2013!

Pensava que isto fosse uma crónica - por António Lobo Antunes

Pensava que isto fosse uma crónica mas não é, agora vou escrever outra coisa que se resume numa frase apenas e a frase consiste no seguinte: tenho saudades de uma porção de pessoas, algumas que já morreram e outras acho que ainda não e digo acho porque não sei delas há um ror de tempo. Se calhar continuam por aí conforme continuo por aqui, sabe Deus como e, se Deus não sabe, quem sou eu para saber, a gente pensa que Deus conhece tudo e se calhar não, com a idade que tem não admira, há lembranças que escapam a uma criatura nova, quanto mais. Gosto de imaginar Deus parecido connosco, ensinaram-me que fomos feitos à Sua imagem e semelhança, os Livros Sagrados garantem isso com firmeza e, se queremos ser bons cristãos, devemos acreditar, eu por mim custa-me um bocadinho mas acredito, só não Lhe entendo a barba mas enfim, nem o trabalhão que deve dar pentear aquilo e andar com um triângulo atrás da cabeça, estou mesmo parvo hoje. Estou parvo muitas vezes mas hoje nem se fala, s…

Natal dos desempregados - por José Luís Peixoto

Quem és tu? Os dias passam e a tua cabeça repete uma pergunta em cada silêncio. Todos os dias de manhã, logo depois de acordar, há silêncio. Enquanto escolhes a roupa e te vestes, há silêncio. Nos intervalos do tempo, há silêncio. Quem és tu? Agora, dás contigo a olhar para os programas da manhã na televisão, esqueces o olhar por instantes. Um especialista enumera formas de prevenir a queda de cabelo, um cozinheiro revela segredos para rechear o peru, um professor de trabalhos manuais ensina a fazer decorações de Natal com garrafas de plástico usadas. A apresentadora repete cinco vezes o número que pisca no ecrã. Telefona, podes ganhar; telefona, podes ganhar. Não telefonas. Sabes que não podes ganhar. Antes, telefonaste para números do jornal, da internet, números escritos num papel dobrado ou em cartões de visita. Mas o tempo passou. Dias, meses, estações inteiras, tempo carregado de silêncio, silêncio, silêncio carregado de perguntas. Qual é o teu valor? A história da tu…

Economia solidária, plural e ética - por Maria C.P. Ramos

Economia solidária, plural e ética, na promoção do emprego, da cidadania e da coesão social 1. Políticas sociais e promoção da economia social e solidária
O modelo actual de desenvolvimento económico, assente na competitividade, coloca novos desafios à construção de uma sociedade inclusiva e à reestruturação dos próprios modelos de protecção e de direitos sociais. A partir da segunda metade da década de setenta, do século XX, assistimos na Europa, ao aumento da instabilidade do emprego e à extensão do desemprego de longa duração. O crescente número de situações de não cobertura social evidencia a necessidade de alargar a acção do Estado aos indivíduos que se encontram fora do mercado de trabalho ou que são vítimas do trabalho precário. O agravamento das desigualdades sociais, associado à emergência de novas formas de pobreza, não encontrando solução nos quadros de intervenção anteriormente constituídos, é uma ameaça para a coesão social e põe à prova o Estado social e os seus meios de a…

O direito ao delírio - Eduardo Galeano

Utopia - Urgente!

“A utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Que se eu ando dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei, porque ela vai se distanciando quanto mais me aproximo. Boa pergunta, não? Mas então, qual é afinal a utilidade da utopia? A utopia serve para isso, PARA CAMINHAR!” Fernando Birra
"Numa conferência recente, ouvi a expressão "utopia crítica". Suponho que o autor recorreu a essa fórmula para esconjurar as perversões a que as utopias nos conduziram no passado. Em nome da sociedade sem classes, por exemplo, sacrificou-se a liberdade individual e o princípio democrático. A utopia crítica seria, assim, um "não lugar" (é precisamente esse o significado de "utopia" em grego) que nunca se esquece do que é: um programa inatingível, com objectivos inexequíveis, mas que suscita em nós uma constante vontade de aperfeiçoamento. A "Utopia" de Thomas Morus – como as utopias de Swift, Voltai…

20 anos de SMS: k balanço? - Crónica satírica - Ricardo Araújo Pereira

Agora que passam 20 anos sobre o envio da primeira mensagem SMS, talvez seja tempo de avaliar o contributo que esta forma de comunicação tem dado à língua portuguesa. O silêncio que a academia tem mantido sobre o tema foi finalmente interrompido pela obra tá td? jokas - elementos de semântica do SMS, do prof. José Júlio Moreira (edições Linha Recta). A ideia central do estudo é a seguinte: a mensagem SMS é uma simplificação que complexifica, no sentido em que é constituída por abreviaturas de tal forma intrincadas que acabam por requerer, elas mesmas, descodificação. No entanto, esse fenómeno não constitui obstáculo à compreensão do texto. Como diz Moreira, "o excesso de simplificação da escrita obscurece o conteúdo da mensagem que é, felizmente, em geral, nenhum". (p. 9) Moreira dedica um capítulo à análise da expressão "tá td?", que dá o título ao livro (pp. 27 e seguintes). Regista duas contrações e uma omissão: a contração do verbo e do pronome, um reduzido à úl…

O Homem light - proposta de leitura para o Natal

Qual é o seu perfil psicológico? Como poderia ser definido? Trata-se de um homem relativamente bem informado, porém com escassa educação humana, entregue ao pragmatismo, por um lado, e a bastantes lugares comuns, por outro. Tudo lhe interessa, mas só a nível superficial; não é capaz de fazer a síntese daquilo que recolhe e por conseguinte, foi-se convertendo num sujeito trivial, vão, fútil, que aceita tudo mas carece de critérios sólidos na sua conduta. Nele tudo se torna etéreo, leve, volátil, banal, permissivo. (…) Não há no homem light entusiasmos desmedidos nem heroísmos. A cultura light é uma síntese insípida que transita pela classe média da sociedade, sem excitantes… tudo suava, ligeiro, sem riscos, com a segurança pela frente. Um homem assim não deixará marcas. Na sua vida já não há revoluções, dado que a sua moral se converteu numa ética de regras de urbanidade ou numa mera atitude estética. O ideal apático é a nova utopia, porque, como diz Lipovetsky, estamos na era do vazio. (…

Filosofia e Natal

Gostamos de celebrar. Com efeito, o natal pode despertar uma série de questões relativamente à orla cultural que o embrulha. Esta é a proposta de um livro muito simpático de Stephen Law, imagine-se, precisamente sobre o Natal e a Filosofia. Claro que a esta altura já tenho leitores a torcer o nariz, pensando: então este indivíduo não deu paz à formiga Z porque alega que ela não é filósofa e está agora a sugerir-nos a aprender filosofia a partir de alguns elementos da época que se avizinha? É verdade, meus caros! É mesmo essa a minha dura proposta. Mas, pensará o leitor, como é que o vai fazer sem se contradizer? Em primeiro lugar nunca defendi que não se possa falar de filosofia a partir do assunto x ou y, mas sim que é errado fazê-lo num manual escolar, principalmente se pensarmos que a filosofia é em si tão rica que não precisa de muletas para se segurar no ensino secundário. Em segundo lugar porque defendo que tudo vai depender do modo como se fazem as coisas. Claro que há livros q…

Como mudar o mundo? Entre desejos de rebuçados de mentol e da paz universal - Joana Azevedo Viana

Filósofos, escritores, políticos e um psicanalista juntaram-se na Holanda para debater porquê e como mudar o mundo. A participação na última conferência do Nexus bateu recordes Slavoj Zizek encabeçava a lista de conferencistas esperados na semana passada em Amesterdão para o encontro anual do Instituto Nexus, criado pelo filósofo holandês Rob Riemen em 1994 para “promover o ideal europeu de civilização”. Devido a problemas de saúde, o filósofo esloveno não pôde viajar até à Holanda. Mesmo assim, e apesar do desgaste visível, Riemen está satisfeito quando se encontra com a jornalista num café do Spui (lê-se Spau), famoso bairro central da cidade: falta um dia para a conferência que, antecipa o filósofo, terá grande sucesso. “Uma coisa engraçada aconteceu este ano: assim que anunciámos a ‘Como mudar o mundo’ no nosso site, começaram a chover inscrições”, conta. “Em dois dias os bilhetes esgotaram e o número de jovens inscritos é o maior em quase 20 anos.” O recorde foi batido antes da alte…

Fenomenologia - Merleau-Ponty (1908-1961)

A Fenomenologia, nas palavras do filósofo francês Merleau-Ponty, “trata de descrever e não de explicar nem analisar”. Descrever ou explicitar os fenómenos sem recorrer à explicação própria das ciências ou à análise que decompõe e divide. Ora “todo o universo da ciência é construído sobre o mundo vivido”, sobre a “experiência do mundo” e é o regresso a “este mundo antes do conhecimento mas de que o conhecimento fala sempre” que a fenomenologia visa. Retorno a um mundo (a um mundo originário) que “está já lá” antes de ser constituído pela consciência. Pretende-se captar a “relação natural” com o mundo, reencontrar o contacto ingénuo com o mundo, ou seja, a percepção e conferir-lhe um estatuto filosófico. É neste sentido que Edmund Husserl nos falava da necessidade de uma “fenomenologia genética” que nos descrevesse a realidade no seu emergir imediato, no seu aparecer como movimento, sem nenhuma influência cientista, psicologista ou historiadora. Não se trata de procurar este olhar fenom…

O problema do conhecimento

A Epistemologia constitui um campo da Filosofia dificilmente delimitável devido às inúmeras fronteiras ténues e apenas esboçadas com muitas outras áreas, elas próprias vastas e de carácter eminentemente interdisciplinar - como a Filosofia do Conhecimento, a Filosofia das Ciências, a História das Ciências, a Metodologia das Ciências, e actualmente também com a Fenomenologia, a Filosofia da Linguagem, a Filosofia Analítica, a Filosofia da Mente, a Filosofia da Psicologia. Elaborar um curso de Epistemologia exige, por isso, optar por um ponto de partida e traçar um itinerário preciso, o que significa necessariamente estabelecer contornos bem nítidos e renunciar a outras vias possíveis, que se apresentam no vasto horizonte epistemológico e filosófico. Estas outras vias possíveis não podem deixar de surgir, no entanto, na paisagem do itinerário traçado e entrecruzam-se constantemente com o fio condutor pelo qual se optou. Inevitavelmente, ao formular e tratar um problema encontram-se outro…

Liberdade como valor - por António P. Costa

«Liberdade» em sentido político e em sentido metafísico
 "O conceito de liberdade presta-se frequentemente a uma confusão decorrente do seu uso em sentido político e do seu uso em sentido metafísico. Quando usamos o termo em sentido metafísico estamos geralmente a referir-nos à capacidade de autodeterminação dos agentes. O problema do livre-arbítrio consiste em saber como compatibilizar a crença de que as nossas acções, enquanto acontecimentos espácio-temporais, estão sujeitas às mesmas leis determinísticas que regem o mundo com a crença de que somos livres, capazes de autodeterminação e responsáveis por essas acções. Este problema é claramente um problema metafísico – trata-se de saber como se integram as nossas acções no mundo. Mas a liberdade em sentido político traduz um ideal que preside à determinação dos deveres e direitos dos indivíduos enquanto membros de uma sociedade. É neste sentido que abordaremos agora o conceito de liberdade.
Liberdade negativa e liberdade positiva
Se…

A objectividade como objectivo da ciência

A objectividade não se confunde com a verdade nem com a realidade considerada em si mesma. Objectividade é aquilo que o conhecimento científico procura atingir. Mas será que algum dia se pode por via científica chegar à realidade? Ou à verdade? Muitos filósofos o negaram. Em particular Kant, que, como sabemos, dizia que o nosso conhecimento só nos dá as coisas tais como elas nos aparecem e não tais como são, porque irremediavelmente conhecemos as coisas através das nossas faculdades de conhecimento e estas estão investidas de formas a priori dentro das quais são recebidos e enformados os dados recolhidos pelas sensações. Mas o que se entende por objectividade e até que ponto a ciência é objectiva? Objectividade é o que se opõe à subjectividade, isto é, aos factores subjectivos (psicológicos, emocionais, individuais). Assim, a objectividade científica alcança-se na medida em que se obedece a um conjunto de requisitos protocolares de método e teoria com os quais se mune aquele que vai i…

O pensamento Filosófico - Bochensky

"Tudo parece indicar que a filosofia não pode ser identificada com as ciências particulares nem ser restrita a um campo ou objecto único. Ela é, num certo sentido, uma ciência universal; o seu campo de pesquisa não é, como nas outras ciências, restrito a alguma coisa limitada e determinada.
Se assim é, pode acontecer, e de facto acontece, que a filosofia se ocupe dos mesmos objectos que as outras ciências. Em que, então, a filosofia se distingue da ciência de cujo objecto se ocupa? A resposta é que ela se distingue tanto pelo método de investigação como pelo ponto de vista em que se coloca. Pelo método - porque o filósofo não está obrigado a restringir-se a qualquer dos métodos do conhecimento, que são muitos.(...)
Além disto, a filosofia distingue-se das outras ciências pelo ponto de vista em que se coloca. Quando considera um objecto, ela encara-o, por assim dizer, sob o prisma dos limites, dos aspectos fundamentais. Nesse sentido a filosofia é a ciência dos fundamentos da real…

Valor...

O resultado de uma relação entre uma realidade observada ou sentida e um "padrão" da consciência que avalia, é o Valor; é a referência a algo que não nos deixa indiferentes, provoca-nos estima ou repulsa, amor ou ódio. Como dizia alguém, valor é  «uma espécie de “mais-valia” que acrescentamos a alguma coisa ou a um “facto”». São portanto qualidades que atribuímos em função de "sentimentos" e, por isso, com uma grande carga de subjectividade dependendo da atitude de cada um, da educação e da cultura.  F.Lopes

A árvore que falava - um conto a propósito dos valores.

Longe, muito longe… bem no coração da savana, vivia uma árvore maior e mais velha do que qualquer outra. Abrigava, sob a sua corcha, toda a sabedoria de África. A seus pés, por entre as altas ervas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Como era a única árvore das redondezas, os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. Também as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, a conheciam. E os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta… E assim a árvore conhecia todos os segredos dos pássaros, dos leões, das girafas, das zebras e de muitos outros animais. É que ela escutava com todas as suas folhas. Até os homens vinham sentar-se debaixo dela no momento das grandes decisões, discutindo os assuntos sérios à sombra dos seus ramos. A árvore sabia mais sobre o povo dos homens do que o mais velho dos anciãos e o mais sábio dos sábios. Porque ela sabia calar-se, enquanto eles gostavam de falar. Mas a árvore não gu…