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Mensagens

A mostrar mensagens de 2016

Credibilidade

A credibilidade é a pedra fundamental em que assenta qualquer mensagem publicitária. Muitos produtos de grande qualidade viram esboroar-se o seu sucesso comercial por causa de uma comunicação não inspiradora de confiança nos potenciais consumidores. Sabemos que, mais do que pela ambiciosa procura de ganhos, lucros e benefícios, o ser humano se motiva pelo evitar de perdas que conduzem à sensata aversão ao risco, ao inseguro e ao incerto. Assim a mensagem publicitária deve contribuir para dissipar a incerteza e eliminar dúvidas sobre a segurança que possam influenciar negativamente a decisão dos potenciais clientes. Existem muitas técnicas de transmitir credibilidade, desde a utilização de figuras públicas ou de reputados e conhecidos especialistas, o fornecimento de detalhes explicativos do produto, a publicação de estatísticas (quatro entre cada cinco dentistas recomendam…), a oferta de período de teste mais extenso, a garantia de reembolso imediato se não funcionar e muitas outras. …

Os Três Mosqueteiros da publicidade

A publicidade é uma atividade económica chave que permite às empresas chegarem aos seus consumidores e potenciais consumidores, passando-lhes a sua mensagem e incentivando-os a testar ou a comprar os seus produtos. Como todas as atividades humanas, ela tem consequências sociais adicionais, o que os economistas chamam externalidades. Uma externalidade conhecida da publicidade é o de através da compra de espaço financiar grande parte da imprensa, da rádio e da televisão. Desta forma, os anunciantes acabam também por ter influência nos meios de comunicação social. Para poder ser eficaz a publicidade deve ser baseada em três pilares fundamentais: o pathos, o logos e o ethos. O pathos é o apelo à emoção e ao sentimento. A geração de emoções fortes é uma arma poderosa na comunicação empresarial. As companhias de seguros em geral apoiam-se no medo, as empresas de refrigerantes, na alegria, as construtoras de automóveis, na liberdade e nas emoções ligadas à velocidade ou à segurança. A ligaçã…

Ethos, Pathos e Logos

"Quando o filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) escreveu os três livros que compõem a “Retórica” possivelmente estaria longe de imaginar que passados vários séculos a sua obra continuaria actual e útil para quem procura persuadir o seu público-alvo por meio da retórica. Segundo Aristóteles, existem três aspectos fundamentais na persuasão. São eles: ethos, pathos e logos. O Ethos refere-se às características do orador que podem influenciar o processo de persuasão, como a sua autoridade, honestidade e credibilidade em relação ao tema em análise. A capacidade de dialogar do orador e a sua apresentação também estão incluídas nas competências que poderão levar à persuasão. Por sua vez, o Pathos refere-se ao apelo ao lado emocional do público-alvo. Por exemplo, quando o orador, que se apresenta como membro da audiência, apela às emoções desta última através de metáforas ou de manifestações físicas de emoções (como sorrisos ou lágrimas). Para isso, é imprescindível ter um conhecimento an…

Ética e Política

 “A ética não está completa a não ser como política, porque é o conjunto dos indivíduos, é a comunidade que é orientada para o “viverbem”

Ricoeur, Paul, L´unique et Le Singulier, Liège: Éditions Alice, 1999, pg 82

Definir conceitos, exercício crítico e liberdade de pensamento

O título deste texto remete para 3 partes: 1ª Definir conceitos 2ª Exercício crítico 3ª liberdade de pensamento
As três estão correlacionadas e vou tentar mostrar, mesmo de forma breve, como é que o estão. Umas das principais dificuldades nas discussões públicas é a maneira como formamos conceitos. A primeira base para a formação dos nossos principais conceitos é a família. E a família transmite-nos os conceitos por via de herança histórica e social. Esta é a ideia básica do que mais comumente chamamos educação. O exercício crítico vem muito depois e muitas vezes não chega sequer a acontecer na vida normal de uma pessoa. E isso pode limitar a sua liberdade de pensamento. Isto porque os conceitos herdados, mesmo que sejam até os mais corretos, não são matéria de avaliação pelo próprio pensamento. A um conceito formado por esta via chama-se também de pré-conceito, isto é, um conceito formado antes de sequer ter pensado seriamente nele. Acontece que, talvez, a maioria dos conceitos qu…

Eduardo Galeano: “Vamos fixar os olhos além da Infâmia"

“Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja. As Nações Unidas tem proclamado extensas listas de Direitos Humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem mais que os direitos de: ver, ouvir, calar. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar? Que tal se delirarmos por um momentinho? Ao fim do milénio vamos fixar os olhos mais para lá da infâmia para adivinhar outro mundo possível. O ar vai estar limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das paixões humanas. As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pela televisão. A televisão deixará de ser o membro mais importante da família.As pessoas trabalharão para viver em lugar de viver para trabalhar. Se incorporará aos Códigos Penais o delito de estupidez que cometem os que vivem por ter ou ganhar ao invés de viver por viver somente,…

FIlosofia e sentido da vida

Dilema moral

«Será moralmente correto participar na competição organizada pelo Qatar?»
“Calculamos que vão morrer 7 mil trabalhadores antes do início do Mundial”. Sharan Burrow, secretária-geral da Confederação Internacional Sindical (ITUC), visitou o Qatar várias vezes e deparou-se com “condições desumanas, próprias de um estado de escravatura moderna”. “Os trabalhadores estão fechados em campos protegidos por guardas e só saem dali para ir trabalhar. Muitos destes locais não têm água potável (…).”  Uma investigação do jornal The Guardian em dezembro de 2014 dava conta de que a cada dois dias de trabalho morria um trabalhador nepalês nas obras de construção para o Mundial de Futebol de 2022. Nesse ano de 2014, segundo a Amnistia Internacional, 188 trabalhadores morreram nas obras. Entre as principais causas de morte estão acidentes de trabalho, ataques cardíacos provocados por longas horas sob altas temperaturas (no verão podem atingir os 50 graus), doenças resultantes da vida precária e suicídio…

Porque é que eles têm tanto sucesso?

O colega do lado é um idiota mas consegue sempre o que quer do chefe. Porquê? Porque os "sacanas" têm mais poder de argumentação e são mais eficazes a fazerem-se ouvir, como confirmam dois estudos. Aquele chefe é tão irritante mas consegue sempre levar a ideia dele avante. Chegamos a chamar-lhe “idiota” baixinho, entre dentes, mas o que ele quer, como ele quer, acaba sempre por ser feito. Este traço do dia-a-dia laboral é agora explicado pela ciência: os “jerks” (idiotas, sacanas, palhaços) são os mais eficazes a fazer vingar as suas ideias. No estudo fica claro que esta conclusão não tem nada a ver com inteligência ou criatividade, sublinham os investigadores. Está relacionada, sim, com assertividade, poder de argumentação e eficácia na passagem de mensagens. Eis a parte científica da investigação, publicada na Research Digest: 200 pessoas submeteram-se a uma série de testes de personalidade e de capacidade cognitiva. Todos trabalharam sozinhos durante 10 minutos numa solu…

Desmotivadores militantes (por Laurinda Alves)

Vivemos na ilusão de que sermos francos e directos é que é, no sentido de nos acharmos no direito de podermos dizer as últimas a todos os que nos desagradam ou agem contra as nossas expectativas. \ Há desmotivadores profissionais por toda a parte. Gente que vive para desencorajar, para desanimar, para levar o outro ao tapete. Pessoas mais apostadas em buscar e amplificar os problemas do que em resovê-los. Criaturas que se realizam exigindo muito mais dos outros do que de si próprias. Homens e mulheres que poluem o ambiente, carregando-o de nuvens escuras que ensombram o ar. Profissionais sistemática e militantemente satisfeitos com o erro alheio, a falha do chefe, a imperfeição do par. O mundo das organizações, então, é um laboratório social fascinante. Passa-se lá de tudo, conhecemos colegas incríveis e vivemos do pior ao melhor, por vezes no mesmo dia. Os bons líderes e os bons pares também abundam, felizmente, e em todas as hierarquias, de todas as empresas, podemos sempre encontra…

Um mundo arriscado (Teoria da Guerra)

O fracasso das antigamente chamadas teorias matemáticas da guerra resulta precisamente da insuficiente atenção prestada ao elemento moral, que introduz factores de indeterminação que aumentam o risco. Cada um tem certamente os seus critérios particulares para se orientar em política, para lá daqueles que, muito curiosamente, e se calhar a questão merecia ser desenvolvida, decalcam quase directamente o esquema da orientação corporal, como esquerda/direita, abaixo/acima (democracia e aristocracia, etc.) e à frente/atrás (progressismo e reaccionarismo). Um critério tão bom como qualquer outro é o da atenção à relação que as concepções políticas mantêm com o problema do risco. Porque há concepções da sociedade que o minimizam e outras que lhe prestam uma mais devida atenção. E é possível (pessoalmente, acho muito aconselhável) preferir a segunda atitude à primeira. Vendo bem, o risco encontra-se politicamente em todo o lado. Uma pequena recapitulação de algumas ideias é talvez bem-vinda.…

A proporção áurea. - edição semestral National Geographic

Aprender

Linguagem e simbolismo

(Texto em Português do Brasil)
Designa-se o ser humano como homo sapiens sapiens. Justamente o fundamento da possibilidade da linguagem reside no caráter racional dos seres humanos. O homem não fala porque tem língua, mas sim inteligência. O homem se manifesta como um ser que fala precisamente por que tem inteligência e conhece. Mas não basta com a racionalidade para expressar o específico do homem. Como o termo razão não basta para abarcar toda a riqueza da vida cultural do homem. O que distingue também o homem dos animais irracionais é sua capacidade de converter em signo tudo o que toca, sua capacidade simbólica: o homem é um animal symbolicum. (...) Graças à linguagem, à religião e à ciência, os seres humanos construíram um universo simbólico que lhes permite entender e interpretar, articular e organizar, sintetizar e universalizar sua experiência. Na linguagem o homem descobre seu poder inusitado, a capacidade de construir um mundo simbólico. É notável a importância dessas reflex…

As múltiplas interpretações da "alegoria da caverna" de Platão

Numa versão simples, a "alegoria da caverna" (ver texto) menciona vários homens, todos eles presos no interior de uma caverna, na qual nasceram, apenas conseguindo ver uma ténue luz. Um dia, um desses homens liberta-se, escapa para o exterior da caverna e tem conhecimento de todos aqueles objectos que, anteriormente, só conhecia como sombras projectadas nas paredes. Mais tarde, ao voltar ao local onde sempre viveu, este homem conta aos seus antigos companheiros o que viu. Estes, quando confrontados com a recente descoberta, acham que a luz fez o seu amigo ficar louco, e pensam até em matá-lo.
Normalmente os Mitos são histórias bastante difíceis de interpretar, pelo simples facto de terem um quase infinito número de significados que divergem em função do contexto que lhes queiramos dar. No caso da Filosofia e no que respeita a esta alegoria, poderá representar aquilo que se espera de um filósofo - a capacidade de se abstrair do mundo terreno e, com uma curiosidade infinita, …

Fábula da avaliação

“O dono de um talho foi surpreendido pela entrada de um cão na loja. Enxotou-o, mas o cão voltou logo de seguida. De novo, tentou enxotá-lo mas reparou que o cão trazia um bilhete na boca. Pegou no bilhete e leu: ‘Pode mandar-me 12 salsichas e uma perna de carneiro, por favor?’ O cão trazia também dinheiro na boca, uma nota de 50 euros. Pegou no dinheiro, pôs as salsichas e a perna de carneiro num saco e colocou-as na boca do cão. O talhante ficou realmente impressionado. Como já estava na hora, decidiu fechar a loja e seguir o cão. Este começou a descer a rua e quando chegou ao cruzamento depositou o saco no chão, pôs-se de pé e carregou no botão para o sinal ficar verde. Esperou pacientemente, com o saco na boca, que o sinal ficasse verde para peões e a pudesse atravessar. Atravessou a rua e dirigiu-se a uma paragem de autocarro, sempre com o talhante a segui-lo. Na paragem, o cão olhou para os horários e sentou-se à espera do autocarro. Quando o autocarro chegou, o cão foi até à p…

O polémico prémio Nobel da literatura 2016 - Bob Dylan

A literatura é, por definição, a produção estética mediante a linguagem transformada em obras escritas. Ora, a atribuição pela Academia Sueca do Prémio Nobel da Literatura ao músico Bob Dylan, sendo inovadora, corre o risco de desvirtuar o galardão e o nome desta instituição prestigiada, que tem consagrado escritores de todo o mundo. Como se sabe, Bob Dylan não é um produtor de obras literárias, havendo aqui um equívoco evidente, pois, por muito que as artes hoje em dia sejam complementares, este hibridismo cultural não honra a literatura universal. Por detrás da polémica decisão da Academia Sueca do Nobel em relação à literatura, talvez esteja a questão de tentar dignificar a cultura de massas através da poesia inerente às músicas de Bob Dylan. No entanto, a democratização da literatura não se deve fazer mediante a inserção de letras nas músicas populares, pois trata-se, claramente, de um engodo. Se, ao invés, a Academia Sueca pretendia render homenagem à carreira musical de Bob Dyl…

Desejo de Paz?

Colombianos dizem “não” à paz, mas FARC mantêm compromisso
Surpresa na Colômbia. O referendo que se destinava a aprovar o acordo de paz entre o Governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) não passou pelo povo colombiano, segundo os resultados oficiais conhecidos. Com 99.25% dos votos contados, o “não” conquista 50,24%, contra 49.75% do “sim”. A abstenção foi de mais de 60%. O acordo tinha sido assinado pelo Presidente, Juan Manuel Santos, e pelo líder dos rebeldes das FARC, depois de meses de negociações. O objectivo foi colocar um ponto final a uma guerra civil que dura há cerca de 40 anos e Juan Manuel Santos já prometeu manter o cessar-fogo. “Sou o primeiro a reconhecer este resultado. Esta decisão democrática não deve afectar a estabilidade que vou garantir. O cessar-fogo bilateral e definitivo é para prosseguir”, afirmou. “Convocarei todas as forças políticas e, em particular, aquelas que se manifestaram pelo ‘não’ para escutá-las, para abrir espaços de diálogo…

Para onde vai a Europa?

Hungria: De acordo com os resultados oficiais, quando estão contabilizados 94% dos votos, a consulta popular teve uma participação de 43,23% dos eleitores, número inferior aos 50% necessários para que o escrutínio fosse legalmente válido. O "não" ganhou a simpatia dos votantes, obtendo 98,24% dos votos. Inicialmente, uma sondagem realizada pelo instituto Nezopont indicara que apenas 3,2 milhões 8,2 dos eleitores inscritos tinham votado "não" no referendo sobre a aprovação de quotas de refugiados na Hungria, convocado pelo governo de Viktor Orbán. A sondagem foi realizada junto de mil húngaros que foram votar e, extrapolada para o universo eleitoral, dá 3,3 milhões a favor do "não" e somente 168 mil pelo "sim" à receção de 1300 refugiados, de acordo com a quota atribuída a este país pela União Europeia num total de 160 mil. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, declarara, após ter votado, que não interessava a taxa de participação, mas a vi…

Precisamos mais de estabilidade ou criatividade? (parte 4)

Nesse caso, estará a excelência reservada a uma pequena minoria? Se definirmos a mediocridade, não pelas suas conquistas, mas como sendo uma atitude (a incapacidade de valorizar a excelência), então também poderíamos definir o oposto nos mesmos termos. Isto é, uma pessoa excelente é aquela capaz de reconhecer e apreciar o bom, o notável, o brilhante, o belo ou o original, quer seja ou não artífice do objecto apreciado. Não é preciso ser Aristóteles, Dalí ou Einstein; a excelência também está presente nos que sabem admirar o talento dos outros e tomá-lo, subtilmente, por modelo. Não depende das notas na escola, nem da classe socioeconómica, nem da profissão. Um humilde lavador de pratos pode pender para a excelência se for capaz de reconhecê-la e respeitá-la; nesse caso, terá bom gosto para se vestir, embora a roupa seja barata, e saberá escolher os amigos, distinguir um bom filme de um fraco e apreciar a beleza de um pôr-do-sol. Do mesmo modo, é possível que um rei, um líder político …

Precisamos mais de estabilidade ou criatividade? (parte 3)

Por sua vez, o pedagogo canadiano Laurence J. Peter (1919–1990) explicou o êxito profissional dos medíocres através do que denominou “princípio de Peter”: “Numa empresa ou organização, qualquer trabalhador tende a ascender até atingir o seu nível de incompetência.” Se nos promoverem devido aos nossos méritos, acabaremos por ocupar um cargo para o qual não temos competência e deixaremos de nos destacar (e de ascender), permanecendo enquistados no nosso nicho de mediocridade. Uma das consequências é que quem alcança o seu nível de incompetência poderá sentir-se tentado a boicotar os subordinados de forma a não serem promovidos (ou mesmo a serem despedidos); assim, acaba por agir como uma espécie de tampão involuntário para as próximas gerações. Os norte-americanos, que levam muito a sério a questão da eficiência, adiantaram algumas soluções, como a de premiar um bom trabalhador com um aumento salarial em vez de uma promoção. Todavia, parece que entram em jogo outros factores no complex…

Precisamos mais de estabilidade ou criatividade? (parte 2)

Foi o espírito MIA que esteve por detrás da morte do filósofo grego Sócrates, dos crimes da Inquisição, da perseguição das elites intelectuais pelas ditaduras, do exílio de Freud e de Einstein e de incontáveis outros judeus, da queima de livros, da marginalização e absoluta pobreza em que morreram tantos artistas, da censura, do assédio e do abandono que vitimaram personalidades notáveis de todas as épocas e cantos do mundo. Se o ser humano, como defendia o psicólogo norte-americano Abraham Maslow, tem inclinação para a excelência por natureza, então é preciso analisar o papel desempenhado pela cultura e pela educação. “Será possível que estejamos condicionados por uma espécie de selecção cultural que nos condena à imbecilidade?”, questiona o escritor italiano Pino Aprile no seu livro Elogio do Imbecil. Conclui que sim e que existe uma razão para todos os sistemas sociais advogarem a mediania: “A inteligência é como a areia que se introduz nas engrenagens: pode obstruir os mecanismos.…

Precisamos mais de estabilidade ou criatividade? (parte 1)

A incapacidade para criar e apreciar a excelência, ou seja, a mediocridade, é necessária para a estabilidade social: um mundo de génios seria ingovernável. Todavia, possui também uma vertente maligna que procura destruir qualquer indivíduo que se destaque. Quando surge um verdadeiro génio no mundo, podemos reconhecê-lo pelo seguinte sinal: todos os medíocres conspiram contra ele.” Foi assim que o médico, aventureiro e escritor irlandês Jonathan Swift (1667–1745), autor de As Viagens de Gulliver, resumiu a eterna tensão entre excelência e mediocridade, duas características da psicologia humana que exercem grande influência no funcionamento da sociedade. Cada uma se rege pelas suas próprias leis e ambas são necessárias: uma promove o progresso, a outra assegura a estabilidade social. Aspirar a ultrapassar-se a si próprio, quer através da própria criatividade, quer apoiando e admirando indivíduos notáveis, constitui uma qualidade intrínseca de um ser humano são. Sem essa tendência natur…

Lógica Aristotélica

Na sua forma sistemática, e como disciplina autónoma, a Lógica foi uma criação do génio grego. Eis, nas suas coordenadas essenciais, um esboço da Lógica Aristotélica: Na sua base encontra-se a doutrina do conceito que Sócrates havia anteriormente formulado. Conceitos, em sentido aristotélico, são noções gerais ou comuns abstraídas pela inteligência dos objectos sensíveis, ou seja, da percepção de realidades concretas e singulares. Opondo a invariabilidade do conceito à variabilidade da sensação e fundando a Lógica naquele, Aristóteles visava construir esta ciência numa base estável. Articulam-se (de forma afirmativa ou negativa) conceitos para formar o juízo de cujo encadeamento resulta o raciocínio. A Lógica de Aristóteles converge, assim, numa teoria do silogismo que ele define como raciocínio tal que, admitidas que sejam certas coisas, algo daí resulta necessariamente, só porque elas foram admitidas. Duas características fundamentais ressaltam na Lógica Aristotélica: o aspecto for…

A Filosofia

(...) A filosofia e a arte de morrer

Para os não-filósofos que estiveram no debate, a importância da filosofia é muito mais quotidiana do que académica, embora a sua manutenção nos currículos não deva ser posta em causa. Lobo Antunes, neurocirurgião e autor de livros como Um Modo de Ser, começou a interessar-se pela filosofia com três obras de Paul Foulquié, mas foi com o filósofo português Fernando Gil que a curiosidade se intensificou. “O Fernando Gil escreveu que «a filosofia é um acto de inocência porque interroga o admirável do mundo», lembrou Lobo Antunes, para quem é impossível conceber a medicina sem a filosofia e a poesia: “A poesia ensinou-me a apurar o rigor no uso das palavras porque no poema, tal como no genoma, basta uma palavra para que saia monstruoso, perro, coxo. A filosofia permite-me interrogar o que de admirável há no sofrimento e, para citar [Michel de] Montaigne, permite aprender e ensinar a morrer. Há na filosofia uma ética da esperança e um desafio à alegria d…

A filosofia está em todo o lado

Aplicar a filosofia no dia-a-dia, trazê-la para fora dos livros e levá-la a empresas, consultórios, cafés. É isso que Oscar Brénifier defende. Platão para toda a gente? Sim, claro. E às crianças, também. É isso que Oscar Brénifier defende, um conceito de «prática filosófica» estimulando a arte de bem pensar. Formador, consultor e autor, o francês passou recentemente por Lisboa para um workshop sobre filosofia do quotidiano. Doutorado em Filosofia pela Universidade Paris 4 Sorbonne, Óscar Brenifier publicou diversas obras, entre as quais uma coleção de livros de filosofia para crianças, editada em mais de trinta países (em Portugal, pela Dinalivro). É um dos autores do relatório Filosofia, Uma Escola da Liberdade, editado pela UNESCO em 2007. Em Paris, fundou o Instituto de Práticas Filosóficas, destinado à promoção e à formação da filosofia como prática. Hoje, o papel dos filósofos passa também por trabalhar com crianças, por fazer consultas filosóficas ou dar formação em ambiente emp…